Você já viu a cena. Um médico de aparência impecável, uma parede de diplomas ao fundo, a promessa do caminho para chegar bem aos 100 anos. Bastaria cortar uma lista crescente de alimentos, monitorar cada marcador do corpo, cuidar do intestino, tomar suplementos e seguir protocolos que custam o salário mensal de muitas famílias. A mensagem por trás é sedutora e cruel: envelhecer bem dependeria de compreender mecanismos cada vez mais complexos e ter dinheiro para intervir em todos. Quem pode pagar monitora. Quem não pode, envelhece errado.

É preciso dizer com clareza: a medicina salva vidas. Alimentar-se bem, exercitar-se, dormir, não fumar, vacinar-se, controlar a pressão e a glicemia, fazer os rastreamentos indicados e tratar transtornos mentais adequadamente: todos são pilares do cuidado. O problema começa quando esse cuidado vira um produto sem fim: cada exame encontra um risco, cada risco pede outro exame, cada resultado pede uma fórmula que promete comprar mais alguns anos. É assim que pessoas saudáveis viram pacientes permanentes.Relógios medem sono, variabilidade da frequência cardíaca e oxigenação; aplicativos estimam até o estresse. Medem quase tudo, menos se a vida que estamos prolongando ainda tem tempo de ser vivida. Cada hora vigiando o corpo é uma hora a menos para olhar para dentro e para a vida que de fato queremos viver.