“Nosso segredo” aborda luto e saudade e chega às salas de projeção depois de passar pelos festivais de Berlim e Gramado 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mineira já teve textos teatrais traduzidos para seis idiomas — Foto: Nana Moraes Lá pelas tantas do filme “Nosso segredo”, duas personagens fumam um baseado, e uma pergunta a outra o que aconteceu com sua família. A tentativa de desvendar o mistério da trama é frustrada com uma resposta evasiva: “Imagina pedir para a pessoa que atravessou um oceano, de um lado ao outro, contar como foi a viagem? Uma noite só não dá”. Mas Grace Passô fez um longa-metragem para isso. A obra de estreia na direção da atriz mineira, de 46 anos, chega aos cinemas nesta quinta-feira com uma reflexão sensível e poética sobre luto e saudade, depois de passar por eventos internacionais, como a Berlinale, além do Festival de Cinema de Gramado, na última semana. Caçula de sete irmãos, Grace nasceu em Belo Horizonte, e seu pai morreu subitamente, aos “40 e poucos anos”, quando ela tinha apenas 5 dias de vida. “É um acontecimento muito marcante na minha família. Obrigou as pessoas a amadurecerem de diversas maneiras e, no processo criativo, as questões mais profundas vazam da gente”, comenta. O filme não se trata, contudo, de uma autobiografia, ela avisa. “É sobre o acaso, os rompantes da vida. E, talvez, a mudança mais radical venha pela morte”, afirma, munida do comentário feito por um espectador na Espanha. “Uma pessoa usou a expressão ‘poesia da contenção’ para falar sobre o longa. Achei interessante. Tem a ver com a ideia de que alguma coisa está prestes a estourar.” Efraim Santos e Flip em cena de "Nosso segredo", de Grace Passô — Foto: Divulgação O roteiro revisita uma das primeiras peças escritas por Grace, há mais de 20 anos. A atriz começou a estudar teatro aos 13, mas já era aficionada por literatura desde menina. Uma característica que impacta diretamente a carreira na dramaturgia. Além de ganhar projeção atuando em longas como “Praça Paris” (2017) e “Temporada” (2018), seus textos teatrais publicados como livros já foram traduzidos para seis idiomas. Entre os próximos trabalhos, prepara a montagem de uma peça autoral para o ano que vem, enquanto pode ser vista ao lado de Selton Mello na sexta temporada da série “Sessão de terapia” e no humorístico “Pablo e Luizão” (ambos do Globoplay), com uma participação. Cada um desses trabalhos forma o mosaico de uma trajetória para a qual ela olha com afeto. “Minha família não tinha grana. Então, sonhávamos sem dinheiro. Fazer aula de teatro e buscar estudo em lugares diferentes veio de uma extrema coragem e de acreditar nesse sonho”, analisa, emocionada. “Quando meu pai morreu, todos os meus irmãos precisaram trabalhar ainda adolescentes. Não ter perdido a ternura, mesmo nos momentos trágicos da vida, é bonito, né?” Ju Colombo e Jéssica Gaspar em uma das cenas em uma das cenas — Foto: Divulgação Em “Nosso segredo”, Grace põe em cena diferentes gerações de uma família negra, cujos graus de parentesco demoram a ser esclarecidos. “É como muitas casas latinas em que você entra e encontra um monte de gente, mas não sabe muito bem quem é tio e quem é mãe, embora o acordo afetivo seja profundo”, narra. Realidade que fica ainda mais verossímil com detalhes como o chão de caquinhos vermelhos ou o bambu com uma garrafa PET na ponta para colher os abacates na árvore. Tudo amarrado com a direção de fotografia e câmera de Wilssa Esser, com quem a diretora é casada há oito anos. Coube a ela cuidar de aspectos fundamentais para que a obra se materializasse como o planejado. “Queria que o espectador se perdesse dentro da casa. Então, imaginei uma câmera olhando pelas fendas das portas”, descreve Grace. “Além disso, como é um imóvel muito clássico de Belo Horizonte, era importante que o sol entrasse pelos cômodos, assim como a luz da lua é um marcador temporal nas cenas noturnas.” Dentro dessa atmosfera, ela escalou um time afinado de atores, como Ju Colombo, que interpreta a matriarca da família e se empolgou com o projeto desde o início. “Tem algo forte neste filme que é trazermos outras narrativas dentro do universo de famílias negras”, afirma a atriz. “É uma história tratada com muita humanidade. Não tem ninguém morrendo ou com arma na mão. Isso sem falar na abordagem onírica da dor, que, quando não cuidada e falada, vira um monstro.” Atriz também está na sexta temporada de "Sessão de terapia" — Foto: Nana Moares Os acontecimentos são testemunhados e elaborados pelo olhar de Tutu, interpretado por Efraim Santos, um menino de 9 anos que, durante as gravações, tinha 6. Diagnosticado com autismo nível 1 de suporte, ele foi escalado após Grace se encantar pela sua personalidade durante os testes. Tê-lo no set uniu a equipe em torno de cuidados como recepcioná-lo com suas brincadeiras favoritas. “Achei que, quando soubessem do autismo, iriam desistir, mas aconteceu o contrário”, conta a mãe do menino, Ana Paula Santos. Os resultados da dedicação vão além do desempenho em cena. “Ele aprendeu a fazer contato visual e provar alimentos, além de ficar mais autoconfiante.” São camadas de um filme que, segundo Grace, decanta aos poucos. “Isso acontece, inclusive, depois que o longa termina”, observa. “Recebo muitos relatos de pessoas que vão se lembrando de alguns aspectos depois das sessões e querem assisti-lo novamente. Este retorno já é muito melhor do que eu esperava.” E um bom motivo para uma ida aos cinemas.