22/08/2026 03h30 Atualizado há 32 minutos
O Cahier de L’Herne é uma publicação francesa dedicada a autores consagrados. Em maio de 2022, meses antes de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, Annie Ernaux foi tema de um cahier e trouxe uma carta que ela recebeu de Simone de Beauvoir em 1974. A jovem autora tinha acabado de publicar “Os armários vazios”, seu livro de estreia, que só agora ganha a primeira edição brasileira. Beauvoir diz: “É normal ser incompreendida quando se escreve um livro voluntariamente um pouco ambíguo”. Contudo, também afirmava esperar que isso não desanimasse Ernaux, porque, acreditava Simone, ela tinha “algo a dizer e muito talento”. “Falo muito de seu romance”, finalizou Beauvoir.
Ernaux já citou o quanto a leitura de “O segundo sexo”, quando tinha 18 anos, em 1958, foi para ela uma espécie de “revelação”, enraizando em si um “feminismo vibrante, que foi reforçado pelas condições de meu aborto clandestino”. A própria Ernaux parece também reconhecer essa ambiguidade citada por Beauvoir. Em seu primeiro trabalho literário, ainda não adotava o estilo autossociobiográfico que a consagraria a partir de “O lugar”, de 1983. Além disso, Ernaux declarou acreditar, na época, estar “entrando mal, de maneira suja e incorreta” na literatura, zombando de sua família e se colocando numa “zona perigosa”, como declarou a Frédéric-Yves Jeannet em “A escrita como faca e outros textos”. Mas foi com essa revolta descrita na obra que, ao mesmo tempo, Ernaux relata ter tomado “gosto” pela escrita e percebido ter algo a dizer.









