O gol grotescamente perdido está para o atacante como o frango para o goleiro. Vira uma tatuagem. Quem não se lembra de Deivid, marcado por duas Guernicas do desperdício? 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Arthur Cabral, em Botafogo x Cienciano, pelas oitavas de final da Sul-Americana 2026 — Foto: Vitor Silva / Botafogo Há algo de especial, de solene ou mesmo belo no gol absolutamente perdido. A vogal aprisionada na garganta — o êxtase que se transforma em interjeição — a derrota magnífica reduzida a um instante. O futebol é o esporte do clímax ocasional. Não é como basquete — em que as cestas proliferam e criam a vibração homeopática. Fazer gol é difícil. Não é simples enfiar a esfera na meta de sete metros por dois e meio diante de defesas estabelecidas. Há dez sujeitos plantados para evitar isso e um décimo primeiro que pode usar as mãos. Então... quando se perde o gol facílimo, quando se desperdiça a chance cristalina, vivemos uma dor peculiar. Esse anticlímax tragicômico e visceral cria o fato estético. O atacante tem a bola, no exercício de seu ofício... e falha. Miseravelmente falha. Um cálculo errado, uma distração ou espasmo, um movimento ligeiramente torto, um deslize ou escorregão. A multidão geme. Vemos futebol em busca de memórias — e o gol absolutamente perdido é um souvenir raro. As redes sociais nos divertem com coletâneas de chances bizarramente desperdiçadas, de fracassos inacreditáveis de tão improváveis. É aí, na improbabilidade, que se esconde a beleza. Uma beleza feia, observem a contradição, uma beleza disfarçada. A feiúra absolutamente inesperada espanta. E ocasionalmente nos oferece o riso — e nos cativa. Na quinta-feira última, o atacante do Botafogo, Arthur Cabral, perdeu um desses gols. Foi uma chance tão clara que, quando a bola não entrou, a torcida pareceu voltar no tempo para descomemorar. A bola veio do toque de um companheiro. Descreveu uma parábola que não demandava muito para chegar às redes. Cabral tinha vantagem sobre o defensor, não havia goleiro. Num átimo, o atacante pareceu hesitar sobre com qual perna deveria chutar. Acabou não chutando com nenhuma — permitindo que o zagueiro do Cienciano salvasse a pátria peruana. O gol grotescamente perdido está para o atacante como o frango para o goleiro. Vira uma tatuagem. Uma assinatura. Quem não se lembra de Deivid, artilheiro no Santos e no Corinthians, que teve sua passagem no Flamengo marcada por duas Guernicas do desperdício? Não existem dois gols absolutamente perdidos iguais como não existem dois quadros idênticos de Romero Britto. O Cabral de quinta-feira não chega a ser um Deivid — mas foi uma obra admirável na pouco valorizada arte de perder o gol imperdível. Esta semana tivemos um centroavante (Pedro) dando aula de pivô, oferecendo passes decisivos. Tivemos um golaço de almanaque num desses lances — com a assinatura de Arrascaeta, o craque minimalista. Mas nenhum desses lances pareceu mais impressionante que o não-gol de Cabral. Pobre atleta assim tatuado. Quantos gols ele já não marcou — belos, de longe, de perto? É fato que muitos também foram perdidos — é um atacante mais operário que artilheiro. Talvez não mereça essa sina. Mas assim é a vida do jogador profissional. Seu ofício é dramático. Ele pode emocionar, divertir, alucinar. Pode fazer rir. Fazer chorar. E, ocasionalmente, fazer chorar e rir num mesmo lance.
A arte de perder o gol imperdível
O gol grotescamente perdido está para o atacante como o frango para o goleiro. Vira uma tatuagem. Quem não se lembra de Deivid, marcado por duas Guernicas do desperdício?






