Lacuna jurídica permite que o governo venda mustangues a preços baixos, sem as devidas proteções e colocando a espécie em perigo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cavalos selvagens na Área de Gestão de Rebanhos de South Steens, no condado de Harney, Oregon, em 18 de abril de 2026. Uma brecha legal permite que o governo venda mustangs por um preço irrisório, privando-os de proteções e abrindo caminho para o abate. — Foto: Erin Schaff / The New York Times Uma manada multicolorida de 68 cavalos selvagens da raça mustangue, que nunca tinham sido selados nem confinados e que já haviam corrido livres pelas montanhas desérticas do Oeste do país, foi capturada pelo governo dos Estados Unidos, numa tentativa de controlar as populações da espécie em terras públicas. Os cavalos ficaram anos em um confinamento para animais no estado de Idaho, enquanto o governo tentava encontrar para eles o que chamava de "lares amorosos". De repente, em março deste ano, o governo encontrou um lar. Se era amoroso ou não parecia não importar. Os cavalos foram colocados em trailers metálicos e transportados por caminhão por 2.900 quilômetros até os currais de um comerciante de gado no estado de Ohio chamado Brandon Jones, que os comprou por US$ 25 (R$ 128) cada. Um dia depois, dois caminhões boiadeiros de dois andares chegaram à meia-noite, carregaram os mustangues e partiram rapidamente noite adentro. A partir daí, desapareceram. O comerciante não diz para onde foram. Defensores dos cavalos selvagens suspeitam que os animais tenham sido enviados para abate. Mas essa não é uma preocupação do governo. Ele conseguiu o que queria: mais dois caminhões de cavalos selvagens fora de seus registros. Sombras de cavalos em um curral de cavalos selvagens do Bureau of Land Management (BLM) em Burns, Oregon, em 20 de abril de 2026. Uma brecha legal permite que o governo venda mustangs por um preço irrisório, privando-os de proteções e abrindo caminho para que sejam levados ao abate. — Foto: Erin Schaff / The New York Times Uma análise de registros governamentais feita pelo New York Times descobriu que, em todo o país, o Escritório de Gestão de Terras (BLM, na sigla em inglês), órgão responsável pela proteção dos cavalos selvagens, está discretamente vendendo milhares de animais a compradores como o de Ohio. Abater cavalos selvagens é ilegal, mas as ações do órgão criam uma brecha que permite que pessoas obtenham mustangues por preços irrisórios e depois os revendam rapidamente para serem exportados vivos, transformados em cortes de carne e vendidos no exterior. Registros de inspeção de animais mostram que mustangues vendidos pelo governo logo acabaram em caminhões com destino a matadouros no Canadá. As vendas de cavalos selvagens pelo governo americano eram antes raras, mas começaram a aumentar depois que o presidente Donald Trump assumiu o cargo. Em 2025, elas mais que dobraram, chegando a 3.700 cavalos, segundo registros do órgão. Nesse período, o departamento enviou cerca de 500 cavalos para Jones. Em entrevista, Jones disse que conseguiu revender os cavalos rapidamente, embora não tenha feito anúncios na internet nem sequer colocado uma placa de "VENDE-SE" em seu curral. Ele se recusou a dizer para onde os cavalos foram e negou ter vendido algum para abate. O governo pode gastar mais de US$ 3 mil (R$ 15 mil) para capturar um mustangue e colocá-lo no mercado, mas vende cada animal por apenas US$ 25. Um cavalo pode render até US$ 750 (R$ 3800) em um matadouros. O potencial de lucro continua atraindo compradores. Ao vender os cavalos com um prejuízo enorme, organizações de proteção animal dizem que o órgão encarregado de protegê-los está, na verdade, subsidiando seu extermínio. — O BLM está dizendo ao público que o abate está fora de questão, mas está fazendo isso às claras, usando terceiros — disse Clare Staples, que administra um santuário de cavalos selvagens no Oregon chamado Skydog Ranch. O órgão não respondeu às perguntas sobre suas vendas nem disponibilizou seus dirigentes para entrevistas. Uma declaração sem autoria atribuída ao órgão disse que ele "continua dedicado a colocar os animais em bons lares, proteger seu bem-estar e cumprir suas responsabilidades legais em nome do povo americano". Um portão, refletido no olho de um cavalo no curral de cavalos selvagens de agência federal americana em Burns, Oregon, em 20 de abril de 2026 — Foto: ERIN SCHAFF/New York Times Brechas legais Cerca de 73 mil cavalos selvagens percorrem terras públicas federais no Oeste americano, onde são protegidos contra caça ou captura. Há décadas, numa tentativa de manter a população em níveis sustentáveis, o BLM captura, em média, 9.500 animais por ano e os oferece para adoção. Mas encontra adotantes para apenas cerca da metade. O restante vai para um labirinto de confinamentos e pastagens que o órgão chama de "sistema de alojamento". O sistema atualmente abriga 58 mil cavalos selvagens, a um custo anual de US$ 100 milhões (R$ 513 milhões). Cuidar deles consome a maior parte do orçamento de US$ 142 milhões (R$ 729 milhões) do BLM destinado aos cavalos selvagens. Ao longo dos anos, dirigentes do órgão apresentaram diversas propostas letais para reduzir os rebanhos. Mas o Congresso, ciente de que o público quer que os mustangues sejam protegidos, proibiu o BLM de gastar qualquer dinheiro para matar cavalos selvagens saudáveis. Existem alternativas aos recolhimentos que deixaram tantos cavalos em confinamento. Há 20 anos, o BLM tem acesso a medicamentos baratos de controle da fertilidade, aplicados com armas de dardos. Eles foram usados para controlar algumas manadas selvagens, e os próprios especialistas do governo recomendaram repetidamente que o órgão os utilizasse de forma mais ampla. Uma brecha legal permite que o governo venda cavalos selvagens a preços baixos, retirando-lhes proteções e abrindo caminho para o abate — Foto: Erin Schaff/The New York Times Mas, como o BLM está gastando tanto com o alojamento, sobra pouco dinheiro para fazer as mudanças que poderiam evitar que mais cavalos precisassem ser armazenados. E, como o órgão não conseguiu impedir que os cavalos entrassem no sistema de alojamento, agora está concentrado em tirá-los de lá. Embora o BLM não possa matar cavalos selvagens, pode usar uma série de manobras burocráticas e transações financeiras para transformá-los, no papel, em animais domésticos, retirando deles suas proteções legais. Primeiro, o órgão precisa demonstrar que um cavalo selvagem não pode ser adotado. Ele faz isso colocando centenas de cavalos de cada vez em seu site de adoção. Depois que um cavalo é anunciado três vezes, por uma semana em cada ocasião, sem que ninguém o queira, a lei permite que o governo o classifique como não adotável. Então ele pode ser colocado à venda. Cavalos selvagens na Área de Gestão da Manada de South Steens, no Condado de Harney, Oregon — Foto: Erin Schaff/The New York Times Essa é uma distinção legal importante porque um cavalo selvagem adotado mantém suas proteções federais. Um que é vendido perde essas proteções imediatamente. Um cavalo vendido ainda não pode ser morto legalmente, pelo menos por enquanto, porque o comprador é obrigado a assinar um contrato prometendo não abater o animal nem "conscientemente" vendê-lo a alguém que pretenda revendê-lo para abate. Mas, se o comprador o revender a um intermediário sem fazer perguntas, fica protegido contra processos. Uma brecha legal permite que o governo venda cavalos selvagens a preços baixos, retirando-lhes proteções e abrindo caminho para o abate — Foto: Erin Schaff/The New York Times Há pequenas pistas sobre o que pode ter acontecido com os cavalos selvagens vendidos a Jones. Quatro apareceram no fim do outono passado (Hemisfério Norte) em um leilão no Tennessee frequentado por compradores ligados ao abate. Jones disse que os cavalos no Tennessee eram resultado de apenas uma venda mal sucedida a um comprador irresponsável. Outra pista surgiu na fronteira com o Canadá. Os Estados Unidos não possuem matadouros para abate de cavalos. A atividade foi encerrada no país em 2007, e agora os cavalos são exportados para o Canadá. Jones mora a cerca de uma hora da principal passagem de exportação de cavalos para o Canadá. No ano passado, poucas semanas depois de Jones receber um carregamento de 97 éguas, registros de exportação mostram que um dos maiores exportadores de cavalos destinados ao abate no Canadá, um homem de Ohio chamado Fred Bauer, enviou dois caminhões de cavalos para o Canadá. Fotos granuladas do interior dos trailers, feitas por inspetores da fronteira, mostram que alguns dos cavalos tinham números de série característicos no pescoço, marcas oficiais de cavalos selvagens do governo. Jones negou que seus cavalos tenham ido para o Canadá por meio desse exportador. Procurado por telefone, Bauer se recusou a dizer se havia comprado cavalos selvagens de Jones. Quando perguntado para onde estavam indo os cavalos, disse que seria simples para as autoridades rastrear os animais. — O governo colocou Brandon Jones no comando de toda essa situação dos cavalos selvagens. Há todo tipo de registro. Então eles deveriam conseguir descobrir o que ele está fazendo, se tivessem vontade — afirmou.
Sob governo Trump, brecha na lei levará dezenas de cavalos selvagens protegidos para o abate
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