A criatura branca fantasmagórica enroscada em uma balança é quase irreconhecível na publicação do Facebook que a oferece para venda. Somente uma inspeção mais atenta revela que se trata de um pangolim morto. O animal, um dos mamíferos mais ameaçados de extinção e traficados do mundo, teve suas escamas removidas e está sendo anunciado por uma conta tailandesa que vende "iguarias silvestres sazonais". A publicação é uma das dezenas analisadas pela AFP que ilustram o que os ambientalistas chamam de tráfico ilegal desenfreado de animais selvagens nas plataformas de redes sociais, particularmente aquelas pertencentes à Meta, empresa controladora do Facebook. Um relatório divulgado nesta segunda-feira por diversas ONGs acusa a Meta de hospedar o "maior mercado ilegal de comércio de animais selvagens do mundo" e de, na prática, incentivar esse comércio ao compartilhar a receita de publicidade com os usuários e permitir que eles utilizem modelos de assinatura. O relatório surge na sequência de uma pesquisa recente da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), que alertou que o Facebook é agora "a principal infraestrutura pública através da qual o tráfico online de animais selvagens está sendo concentrado, descoberto e ampliado". A Meta recusou-se a responder às perguntas da AFP e apontou para políticas que restringem a venda de espécies ameaçadas de extinção em suas plataformas. 10 animais mais raros do mundo 1 de 10 Tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) visto pela primeira vez na história na Costa Rica— Foto: Reprodução/Parismina Domus Dei 2 de 10 Peixe-mão-rosa (Brachiopsilus dianthus) usa nadadeiras para “andar” no fundo do mar, foi visto apenas quatro vezes desde 1999 na Tasmânia e continua sendo um mistério para a ciência — Foto: Reprodução X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 Lagarto Leiolepis ngovantrii foi descoberto no Vietnã, reproduz-se por clonagem sem machos e já era servido em restaurantes locais antes de ser identificado como nova espécie — Foto: Divulgação/Museum Koenig Bonn 4 de 10 O “sapo dos Simpsons” (Rhinella sp.), descoberto na Colômbia com nariz afilado e um ciclo de vida sem fase de girino, ele lembra o vilão Sr. Burns — Foto: Reprodução/Redes sociais X de 10 Publicidade 5 de 10 O peixe que come madeira, espécie amazônica do gênero Panaque, raspa madeira submersa com dentes fortes, digerindo apenas a matéria orgânica associada e expulsando o resto em poucas horass — Foto: Reprodução/Redes sociais 6 de 10 O macaco birmanês sem nariz, ameaçado por caça e desmatamento desde sua descoberta em 2010 — Foto: Reprodução/Redes sociais X de 10 Publicidade 7 de 10 A Lesma ninja de Bornéu, de cauda longa e comportamento incomum, dispara “dardos do amor” com hormônios para aumentar o sucesso reprodutivo — Foto: Reprodução/Redes sociais 8 de 10 O Morcego de nariz tubular (Nyctimene albiventer), encontrado na Papua-Nova Guiné, ajuda a espalhar sementes e é essencial para a regeneração de florestas tropicais — Foto: Reprodução/Redes sociais X de 10 Publicidade 9 de 10 O Polvo roxo das profundezas canadenses, descoberto a 3 mil metros de profundidade, faz parte de um grupo de espécies que revela a riqueza pouco estudada do oceano profundo — Foto: Divulgação/Instituto de Oceanografía de Bedford 10 de 10 A Sanguessuga Tyrannobdella rex, vinda da Amazônia peruana, mede até 3 cm e tem dentes longos como os do dinossauro que inspira seu nome, mordendo discretamente suas presas — Foto: Reprodução/Redes sociais X de 10 Publicidade Na lista, um lagarto capaz de clonar a si mesmo, um “sapo dos Simpsons” e outros animais incrivelmente estranhos Mas ambientalistas afirmam que essas políticas pouco fizeram para impedir que as plataformas da Meta fossem usadas para o comércio ilegal de animais selvagens. A pesquisa GI-TOC encontrou mais de 20 mil anúncios de mais de 260 mil produtos relacionados à vida selvagem em plataformas de mídia social entre abril de 2024 e março de 2026. Quase três quartos estavam no Facebook, e muitos permaneceram online mesmo depois de serem denunciados, disse Russell Gray, cientista de dados e ecologista que foi coautor do relatório de abril do GI-TOC. "Mesmo as contas e os grupos não editados sobre os quais relatamos publicamente no relatório ainda estão ativos", disse ele à AFP. 'Impressionante' Ambientalistas e especialistas em vida selvagem disseram que isso era comum. "Não recebi nenhuma resposta nem vi nenhuma providência ser tomada", disse Tom Taylor, diretor de operações da Wildlife Friends Foundation Thailand. "Contas que estejam violando a lei abertamente devem ser encerradas, e investigações sobre as atividades criminosas por trás delas devem ser iniciadas." Veja fotos de animais recuperados pelo Instituto Vida Livre 1 de 6 Furão recebe cuidados na sede do Vida Livre, no Jardim Botânico — Foto: Júlia Aguiar 2 de 6 Macaquinho passa por tratamentos no Instituto Vida Livre — Foto: Júlia Aguiar X de 6 Publicidade 6 fotos 3 de 6 Pássaros resgatados pelo Instituto Vida Livre — Foto: Júlia Aguiar 4 de 6 Ave resgatada recebe cuidados veterinários no Instituto Vida Livre — Foto: Júlia Aguiar X de 6 Publicidade 5 de 6 Alguns dos 600 jabutis que foram resgatados e entregues ao Instituto Vida Livre — Foto: Júlia Aguiar 6 de 6 A fachada do Instituto Vida Livre na Rua Caminhoá, no Jardim Botânico — Foto: Júlia Aguiar X de 6 Publicidade . Ambientalistas argumentam que a Meta não só deixa de remover conteúdo que viola suas políticas, como pode estar, na prática, incentivando-o ao permitir que contas populares monetizem conteúdo por meio de receita publicitária e modelos de assinatura. "Essa monetização de conteúdo promovida pelo Facebook e Instagram está, na verdade, incentivando as pessoas a cometerem atos ilegais", disse Daniel Stiles, investigador independente de tráfico de animais selvagens. "Quanto mais interação e engajamento eles conseguirem em suas contas, mais dinheiro poderão ganhar", acrescentou Stiles, coautor do relatório divulgado na segunda-feira por ONGs como Freeland, Education for Nature Vietnam e International Wildlife Trust. A Meta não divulga quais contas fazem parte de seus programas de monetização de conteúdo. Mas os inscritos em seu programa de assinatura são identificáveis publicamente e incluem uma conta aparentemente no Laos que supostamente mostra a caça ilegal de animais selvagens, incluindo pangolins. "É incompreensível como a Meta pode permitir isso", disse Stiles. 'Só da boca para fora' Produtos relacionados a animais e vida selvagem são oferecidos em diversas plataformas da Meta, incluindo Facebook, Instagram e WhatsApp, segundo pesquisas. Mas outras plataformas, incluindo o TikTok e o Snapchat — populares devido às suas configurações de postagens que desaparecem — também são cada vez mais usadas por traficantes. Serra dos Carajás, no Pará, é novo marco de mineração ilegal do país 1 de 8 Canaã é um lugar de extremos: em uma ponta está a gigante da mineração Vale, que opera uma das maiores minas a céu aberto do mundo. Na outra, estão cerca de 100 garimpos ilegais, onde os garimpeiros ganham a vida cavando buracos na terra, vivendo em alerta constante em caso de invasão. — Foto: Nelson Almeida / AFP 2 de 8 Um mineirador trabalha em uma mina ilegal de cobre, em Canaã dos Carajás. A cidade expandiu muito nos últimos anos graças a mineração. — Foto: Nelson ALMEIDA / AFP X de 8 Publicidade 8 fotos 3 de 8 Vista aérea da mina de cobre do Sossego, explorada pela mineradora VALE, em Canaã dos Carajás — Foto: Nelson ALMEIDA / AFP 4 de 8 Mineradores trabalham em mina de cobre ilegal. Eles vivem em alerta constante em caso de invasão. — Foto: Nelson Almeida /AFP X de 8 Publicidade 5 de 8 Mineradores trabalham em condições precárias nas minas ilegais. — Foto: Nelson Almeida / AFP 6 de 8 Vista aérea do município de Canaã dos Carajás, no Pará. A mineração tornou Canaã a cidade mais rica do Brasil em 2020 em PIB per capita. - Foto: Nelson Almeida / AFP X de 8 Publicidade 7 de 8 Minerador trabalha em mina de cobre ilegal, em Canaã dos Carajás. - Foto: Nelson Almeida / AFP 8 de 8 Segundo Ezequias Martins, delegado da Polícia Federal em Marabá, a extração de cobre é feita com a abertura de galerias a entre 40 e 120 metros de profundidade. - Foto: Nelson Almeida / AFP X de 8 Publicidade Municípios foram invadidos por incontáveis mineradoras ilegais de ouro, cobre e manganês. A AFP analisou exemplos que ofereciam de tudo, desde chimpanzés destinados a serem animais de estimação até chifres de rinoceronte para medicina tradicional e pangolins para consumo. Parte do conteúdo é indireto — os vendedores costumam publicar imagens de animais ou partes de animais à venda sem preço ou explicação. Os interessados são orientados a entrar em contato diretamente com eles. Mas grande parte do conteúdo é explícito, incluindo uma conta pública no Facebook que oferece pangolins mortos, lagartos-monitores e outros animais selvagens protegidos para consumo na Tailândia. A natureza algorítmica das plataformas de redes sociais faz com que os usuários que interagem com contas relacionadas ao tráfico de animais selvagens recebam mais anúncios desse tipo. Após analisar apenas algumas contas públicas que anunciavam o comércio ilegal de animais selvagens, o feed do Facebook de um jornalista da AFP começou a exibir rotineiramente publicações que vendiam animais selvagens e partes de animais ameaçados de extinção. A Meta estava entre as 11 empresas de tecnologia que anunciaram este mês que trabalhariam para eliminar o tráfico de animais selvagens em seus sites. Mas a empresa é membro da Coalizão para Acabar com o Tráfico de Animais Selvagens Online desde 2018, e o problema continua a crescer, disse Steve Galster, fundador da Freeland. Ele alertou que o último anúncio corria o risco de ser "apenas da boca para fora". "Enquanto a Meta não for obrigada a livrar suas plataformas do comércio ilegal de animais selvagens e provar que não está lucrando com isso, o comércio online de animais selvagens só vai piorar."
Macacos, chifre de rinoceronte e pangolins mortos são anunciados para venda no Facebook
Relatório acusa Meta de hospedar 'maior mercado ilegal de animais selvagens do mundo' e de incentivar comércio ao compartilhar receita de publicidade com usuários






