Pesquisa analisou 427 interações entre 88 espécies e encontrou sinais de carinho e cuidado com outros animais; descoberta sugere que as raízes do hábito de ter 'pets' podem estar ligadas ao nosso passado como primatas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Macacos-de-cauda-curta cuidando de um cachorro na Tailândia — Foto: Neil Challis / The New York Times Ishe e Dembe, dois jovens chimpanzés-orientais, saltavam de galho em galho na densa copa de uma floresta em uma reserva em Uganda quando surpreenderam os pesquisadores que os observavam. A dupla se aproximou de um macaco-de-cauda-vermelha que estava por perto, mas não com agressividade, como é comum entre chimpanzés, e sim com carícias. Ishe e Dembe começaram calmamente a pentear o rabo do macaco. Uma interação rara como essa pode representar um estágio inicial do comportamento de manter animais de estimação entre nossos parentes primatas, segundo um estudo publicado recentemente na revista Primates. O novo trabalho sugere que nós, Homo sapiens, não somos os únicos a cuidar de outras espécies — e que as raízes do desejo de ter um animal de companhia podem estar profundamente ligadas ao nosso passado como primatas. Um langur-cinza-de-topete fazendo carinho em um esquilo-gigante-cinzento no Parque Nacional de Yala, no Sri Lanka — Foto: Senthi Aathavan Senthilverl via The New York Times Os animais de estimação representam, há muito tempo, um enigma evolutivo para os pesquisadores. Temos que alimentá-los, abrigá-los, cortar suas unhas, escovar seus dentes e fazer carinho atrás de suas orelhas. Uma relação desse tipo poderia ser considerada um baixo retorno sobre o investimento. — Desperdiçar recursos com membros de outras espécies, com os quais não temos nenhum interesse evolutivo, parece não fazer sentido do ponto de vista da evolução — afirma Hal Herzog, psicólogo e especialista em animais da Western Carolina University que não participou da pesquisa. Ainda assim, muitas culturas ao redor do mundo têm animais de estimação e os consideram muito queridos. Pesquisas anteriores evidenciam que os motivos pelos quais temos animais de estimação são tão variados quanto os próprios animais que escolhemos, indo desde companhia e conexão social até a busca por novidades e posição. O ator Nicolas Cage já teve uma cobra de duas cabeças, e Pablo Escobar mantinha seu próprio zoológico, com hipopótamos, elefantes e girafas. Estudos com gêmeos sugerem que parte do desejo por companhia animal tem origem genética, mas as origens definitivas dessa tendência a ter animais de estimação permanecem envoltas em mistério. — Há teorias de que o hábito de ter animais de estimação começou porque os animais eram úteis para tarefas como caça e proteção ou porque os seres humanos têm uma tendência natural a cuidar e criar vínculos com outros seres vivos — explica Zoë Goldsborough, ecologista comportamental do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, que não participou da pesquisa. As primeiras evidências arqueológicas de que humanos mantinham animais de estimação vêm de uma sepultura de 14 mil anos encontrada na Alemanha, na qual um homem e uma mulher foram enterrados ao lado de seu cachorro. Mas é muito provável que essa relação tenha surgido muito antes disso. Em algum momento, à medida que domesticamos os animais, nossa relação com outras espécies passou de algo predominantemente utilitário para algo mais próximo do que conhecemos hoje. — Infelizmente, não temos ideia de há quanto tempo os seres humanos vêm trazendo animais para suas vidas como animais de estimação — diz Herzog.— Sem uma máquina do tempo, talvez nunca saibamos. A ideia de investigar nossos parentes primatas em busca de comportamentos semelhantes ao de ter animais de estimação surgiu quando Cyril Grueter, antropólogo biológico e primatologista da Universidade de Oxford e principal autor do novo estudo, visitava o Zoológico de Xangai quando era mestrando. Ele viu uma fêmea de gibão em seu recinto capturar um pequeno rato, segurando-o e acariciando-o delicadamente com a mão. — Ela continuava cuidando muito bem daquele ratinho, e o rato parecia estar confortável na palma da mão dela — conta Grueter. Interações entre espécies como essa poderiam trazer pistas importantes sobre por que enchemos nossas casas de animais peludos, pensou Grueter. Mas esse tipo de observação não costuma ser publicado em revistas científicas revisadas por pares. — Se você vê um gorila abraçando um bebê de galago alguém pode tirar uma foto e publicar nas redes sociais, mas você não escreve um artigo científico sobre isso — observa. Um macaco-japonês pegando carona nas costas de um cervo-sika em Yakushima, no Japão — Foto: Alexandre Bonnefoy e Cédric Sueur via The New York Times Para ir além de exemplos isolados, ele e seus colegas vasculharam relatos da imprensa e a literatura científica e consultaram primatologistas em busca de registros semelhantes de primatas interagindo com outras espécies. A análise reuniu 427 registros envolvendo 88 espécies de primatas. Os dados revelaram que todos os primatas, independentemente da espécie, apresentavam algum comportamento que poderia estar relacionado ao hábito de manter animais de estimação. — Há um caso em que um macaco-macaco formou um vínculo social muito forte com uma galinha que apareceu acidentalmente em seu recinto — destaca Grueter. Em outro caso, um grupo de macacos-prego adotou um filhote de sagui, amamentando-o e cuidando dele durante meses. Parece ser um fenômeno comum tanto entre animais selvagens quanto em cativeiro. Após analisar mais detalhadamente os vídeos, os pesquisadores descobriram que macacos e grandes primatas interagiam com uma grande variedade de espécies não aparentadas, incluindo lagartos, aves, cervos, cães, esquilos e outros primatas. As interações mais comuns envolviam brincadeiras e cuidados com a higiene, e tendiam a reproduzir os tipos de relações que os primatas mantêm com indivíduos de sua própria espécie: os jovens tinham maior probabilidade de brincar com outros animais; as fêmeas adultas eram mais propensas a amamentar animais adotados; e os machos adultos, em geral, demonstravam indiferença e, às vezes, violência. Geralmente, as interações eram breves, mas, em alguns deles, a relação parecia reproduzir uma espécie de adoção. O que macacos e grandes primatas poderiam obter dessas interações breves com animais de outras espécies? Grueter suspeita que parte da motivação possa estar relacionada à solidão. Assim como acontece quando os seres humanos se sentem solitários, nossos parentes primatas podem buscar contato e intimidade ao cuidar de outro animal ou se aconchegar brevemente junto a outro corpo aquecido. Assim, enquanto adotamos um filhote de cachorro, um macaco-uivador pode capturar e cuidar de um rato próximo. Grueter espera que a pesquisa possa ajudar zoológicos e santuários que mantêm recintos com múltiplas espécies a identificar quais animais poderiam viver juntos de maneira harmoniosa. Ainda assim, ele ressalta que os exemplos encontrados estão muito longe dos cães ou gatos que vivem em nossas casas. — Não há um equivalente real ao hábito de ter animais de estimação entre os primatas não humanos. Mas podemos analisar os ingredientes que podem ter levado à evolução desse comportamento — conclui.
Outros primatas também têm animais de estimação? Estudo encontra pistas de um comportamento que parecia ser só humano
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