A reportagem "Brasil corre para ampliar medicina de desastres e fazer frente às mudanças climáticas e ao El Niño", 11/8), publicada nesta Folha, traz a iniciativa necessária diante dos eventos extremos. Hospitais de campanha, equipes preparadas e investimentos são fundamentais. Mas há uma questão anterior ainda não resolvida: o Brasil não dispõe de um sistema organizado de trauma.

Trauma não é um evento excepcional. Acidentes de trânsito, quedas e violência provocam dezenas de milhares de mortes por ano, especialmente entre jovens e adultos. A estrutura necessária para responder a uma catástrofe precisa, antes de tudo, funcionar bem no dia a dia.

A Organização Mundial da Saúde trata incidentes com múltiplas vítimas como um problema sistêmico: quando a quantidade de feridos supera os recursos disponíveis, é preciso coordenar triagem, transporte e acesso ao tratamento definitivo. Uma catástrofe não cria um novo sistema; submete o existente a uma demanda extraordinária.

É aí que está nossa fragilidade. O Brasil avançou no atendimento pré-hospitalar, especialmente com o Samu, mas não na organização hospitalar do trauma. Temos hospitais, profissionais e regulação —os componentes existem, mas não funcionam de forma integrada como um sistema. E sistemas de trauma são, por definição, organizados regionalmente.