Lá pelo final dos anos 1980, nossa mãe trabalhava como professora primária na E.E. Antonio Fontana, na pequena cidade paulista de Frutal do Campo.

Os alunos eram em geral bem pobres, filhos de lavradores, ou eles próprios empregados na roça, em parte como espantadores de pomba (rodavam as plantações de bicicleta estourando rojões para afastar as amargosas comedoras de brotos).

O recreio era um dos territórios seguros contra a fome, e ela ajudava a não faltar magia. Quando chegava, limpando a sola das botonas de cano alto no raspador de ferro da entrada da escola, com saias longas, brincões reluzentes e o cabelo preto cacheado volumoso, as crianças disparavam para abraçá-la. Dava um certo ciúmes, mas eram as dores de ser filho de uma celebridade.

Rosana Palmieri (1955 - 2026) - Arquivo pessoal

Um dia, soube que uma sobrinha aspirante a confeiteira descartaria um lote de barras de chocolate de dois quilos. Era uma marca barata, e achou horríveis, rançosos, o que confirmamos ao experimentá-los.