O Quilombo Morro Santo Antônio, em Itabira, Minas Gerais, perdeu na última quinta-feira (4), aos 67 anos, uma de suas mais destacadas lideranças: Rosemary Álvares de Souza, a dona Rosinha. A ativista mineira era figura eminente da política comunitária local, com marcante atuação nos movimentos cultural, quilombola e de violência contra as mulheres.

No ano passado, dona Rosinha virou escritora. Publicou o livro "Memórias do Meu Quilombo", pela Pallas Editora, que recebeu comovente prefácio de Conceição Evaristo. Sobre a autora, a criadora do conceito de "escrevivência" destacou: "No ato de escrever, de registrar passagens de sua vida, dona Rosinha executa um duplo movimento. O que afirma o direito à escrita e o que busca assegurar o direito à memória, que não é só dela, mas que é também de pertença coletiva."

A publicação do livro e o papel político desempenhado por dona Rosinha na região de Itabira —onde 73% dos pouco mais de 100 mil habitantes se declaram negros, segundo o último censo do IBGE— renderam a ela um convite para a Feira do Livro, no Pacaembu, em São Paulo, para o domingo (7).

Com sua morte repentina três dias antes do evento, a curadoria manteve a mesa literária como homenagem póstuma. O debate, mediado por Bianca Santana, colunista da Folha, contou com a participação do jornalista Matheus Leitão e deste colunista, que teve o privilégio de conhecer a autora e o histórico quilombo pelo qual tanto lutou, certificado pelo governo federal em 2011.