AGU não quer dar munição para alvos de investigações tentarem cavar nulidades 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jorge Messias passa por sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) no Senado Federal — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo No papel de “bombeiro” da crise instalada entre a Polícia Federal e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, o advogado-geral da União, Jorge Messias, adotou o caminho da cautela na negociação de um armistício nos bastidores. Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, a AGU deve apostar as fichas numa “diplomacia institucional”, ao invés de acionar o Supremo para contestar as decisões de Mendonça, como quer a PF. Mendonça é relator das investigações de dois esquemas bilionários que apavoram a classe política nestas eleições: o desvio de aposentadorias do INSS e as fraudes no Banco Master, que já fecharam o cerco contra parlamentares dos mais variados espectros ideológicos, do campo bolsonarista ao lulista – incluindo o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula. A postura de Messias segue a avaliação de uma ala do governo Lula segundo a qual um eventual ofício da AGU encampando as críticas da PF a Mendonça reforçaria oficialmente as insinuações de que o relator está interferindo nas apurações em curso e poderia ser um tiro no pé, por fornecer munição para os alvos das investigações tentarem cavar alguma nulidade e derrubar as provas coletadas até aqui, tanto no caso INSS quanto no Master. “Não dá para sermos usados por bandidos”, diz uma fonte que acompanha de perto as movimentações nos bastidores. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, tem protestado contra decisões de Mendonça, como a determinação do envio ao magistrado do material bruto das investigações do caso INSS. Mendonça ainda determinou que fosse avisado previamente sobre qualquer alteração na equipe de policiais que o assessora nos trabalhos do STF, o que foi interpretado pela PF como uma ingerência administrativa. No final de julho, a PF acionou a AGU para que se encontrasse uma saída jurídica para rebater judicialmente as determinações de Mendonça, mas a tendência neste momento é a de que a Messias não ponha mais lenha na fogueira, ainda que AGU entenda a posição da PF de alegar invasão de competências e defender sua autonomia administrativa; Enquanto Mendonça desconfia do vazamento de operações sigilosas, se queixa das tentativas de intromissão do governo Lula nas investigações e da demora no envio de relatórios, a PF vê uma tentativa do ministro de intervir e direcionar politicamente as apurações. Cabo eleitoral Mendonça foi um dos principais cabos eleitorais da campanha de Messias para ser confirmado no Supremo Tribunal Federal (STF) – os dois são próximos e evangélicos. Mas a indicação do advogado-geral da União acabou rejeitada pelo Senado em abril deste ano, numa articulação que uniu a tropa de choque bolsonarista, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o ministro Alexandre de Moraes. Moraes não queria a chegada de um aliado de Mendonça no STF, o que alteraria a correlação de forças da Corte em favor de uma ala do tribunal mais refratária a ele. Conforme revelou o blog, Vorcaro fechou um contrato de R$ 129 milhões com a mulher de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, que previa prestação de serviços perante o Banco Central, Cade, Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e a Receita Federal. Mas não há registro de que ela tenha atuado nesses órgãos. No entorno de Messias, a avaliação é a de que o avanço das apurações do caso Master contaminou a votação no plenário do Senado, que impôs uma derrota histórica ao presidente Lula em seu terceiro mandato. Resistência Próximo de Mendonça, Messias articulou na semana passada a reunião entre o ministro do STF e o ministro da Justiça, Wellington César, para aparar as arestas e reduzir o clima beligerante entre o relator do caso Master e INSS e a Polícia Federal, subordinada à pasta da Justiça. Wellington e Mendonça ainda não se conheciam pessoalmente. Na ocasião, o ministro da Justiça disse a Mendonça que o governo Lula não vai se intrometer nas investigações. Um novo encontro deve ocorrer nas próximas semanas, com o retorno de Andrei Rodrigues a Brasília, após uma semana de férias. Conforme informou o blog, apesar do discurso de unidade corporativa, a nota assinada por 27 superintendentes da Polícia Federal (PF) em defesa de Andrei Rodrigues, enfrentou resistência na própria instituição. Na versão final da nota, os superintendentes não citam o nome de Rodrigues, mas afirmam que a atividade investigativa da Polícia Federal “não se submete a interesses políticos, ideológicos ou pessoais, mas ao estrito cumprimento da lei”. A redação inicial, contudo, tinha um tom bem mais enfático, dizendo que os superintendentes não aceitariam medidas que representassem interferência em investigações. Embora também não mencionasse o STF, o texto foi visto por parte deles como um desafio ao tribunal e desnecessariamente agressivo. Segundo a equipe da coluna apurou com quatro fontes a par do que se passou nos bastidores, pelo menos seis dos 27 superintendentes se colocaram contra a manifestação e o texto apresentado na reunião on-line, no primeiro momento.