Pouco mais de dois anos depois das enchentes que deixaram 185 mortos e 20 desaparecidos no Rio Grande do Sul, o Estado entra em uma nova temporada de chuvas intensas associada ao El Niño com uma estrutura de prevenção diferente da que existia em 2024. Radares meteorológicos, alertas por celular, realocação de famílias em áreas de risco e um plano de cerca de R$ 15 bilhões em projetos de resiliência estão entre as medidas adotadas desde a tragédia. Desse montente, quase 6 bilhões vão apenas para infraestrutura. Para o governador Eduardo Leite (PSD), o Estado está hoje mais preparado para lidar com eventos extremos, embora não seja possível eliminar os impactos. “O Estado está mais preparado”, afirmou em entrevista ao Prática ESG, do Valor Econômico. Nas últimas semanas, regiões do Rio Grande do Sul registraram episódios de 200 a 250 milímetros de chuva em 24 horas. “É impossível ter esse volume de chuvas num curto espaço de tempo sem ter impacto nenhum. Mas já foram impactos bem menores”, disse. Um dos exemplos está no Vale do Taquari, uma das áreas mais atingidas em 2024. Em Encantado, chuvas que elevaram o rio a níveis semelhantes aos de episódios anteriores levaram à retirada de cerca de 150 pessoas recentemente. Em situações passadas, o número chegou a 1.200 ou 1.500. Em Estrela, onde cheias semelhantes já haviam exigido a retirada de cerca de 600 famílias, foram 60 no episódio mais recente. A redução, segundo Leite, é resultado da realocação de moradores de áreas mais vulneráveis. Apesar de a enchente ser a face mais visível dos eventos climáticos recentes, o governo gaúcho diz que a principal preocupação econômica do Estado com o El Niño está na agricultura e na alteração do regime de chuvas. O fenômeno pode trazer precipitações mais intensas entre setembro e dezembro, justamente em uma janela importante de plantio. Historicamente, porém, as estiagens têm provocado perdas maiores no campo gaúcho do que o excesso de chuva. Segundo Leite, o Estado enfrentou pelo menos quatro períodos severos de seca nos últimos seis anos, com perdas estimadas de 30% a 40% nas safras de milho e soja. A estratégia de adaptação, por isso, inclui tanto lidar com o excesso de água quanto aumentar a capacidade de armazená-la para períodos de escassez. Uma das frentes é o Terra Forte, programa de recuperação de solos que já recebeu R$ 300 milhões e atende cerca de 5 mil famílias de pequenas e médias propriedades. Cada produtor pode receber até R$ 30 mil para a compra de insumos, além de assistência técnica. A meta é chegar a R$ 900 milhões nos próximos anos. O Estado também criou o Irriga Mais, que subsidia até R$ 100 mil, ou 20% do custo de implantação de sistemas de irrigação. Reconstruir sem repetir o erro A principal mudança na estratégia do governo, no entanto, está no próprio conceito de reconstrução. Criado depois das enchentes de 2024, o Plano Rio Grande reúne mais de 200 projetos e cerca de R$ 15 bilhões em recursos. Quase R$ 6 bilhões são destinados à infraestrutura. “Não basta reconstruir o que se perdeu, a gente precisa deixar o Estado mais forte para suportar os eventos climáticos”, afirma Leite. Nas rodovias, isso significa que a recuperação passou a incorporar soluções para reduzir a vulnerabilidade a novas chuvas, como contenção de encostas, drenagem, pontes mais altas e estruturas que permitam a passagem da água. Um exemplo é o trecho entre Agudo e Dona Francisca, no centro do Estado. Construída em uma área de várzea, a estrada foi rompida em vários pontos durante a enchente. Em vez de simplesmente reconstruí-la, o projeto prevê pontes secas e viadutos para permitir que a água passe quando o rio subir. A obra deve ser concluída até o fim deste ano. Governador gaúcho, Eduardo Leite, falou em evento organizado pela Deloitte na SP Climate Week sobre a gestão de crise no Rio Grande do Sul — Foto: Naiara Bertão/ Valor Onde não dá para reconstruir No Vale do Taquari, porém, a estratégia é diferente. Segundo estudos do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) citados pelo governador, os rios da região podem subir 10, 15 ou até 20 metros em poucas horas. Como se trata de uma dinâmica de enxurrada, há menos alternativas de engenharia para proteger áreas urbanizadas. “O correto ali justamente é que aquelas regiões que estão próximas do rio, que são mais vulneráveis, não sejam ocupadas. A gente transforma aquelas áreas em espaços a serem ocupados pelo rio, justamente quando ele sobe”, afirma Leite. O governo identificou cerca de 3 mil propriedades para realocação e indenização. Desse total, 2.261 estão em “zonas de arraste” — áreas mapeadas onde a força da correnteza durante as cheias é capaz de arrastar construções inteiras, consideradas as de maior risco. A ideia é retirar as famílias, indenizar os proprietários e transformar os terrenos em parques, praças ou outros usos públicos, evitando a reconstrução de moradias nos mesmos locais. Um dos projetos-piloto é o Passo de Estrela, em Cruzeiro do Sul, bairro completamente destruído pela enchente. O governo está construindo um novo loteamento em uma área mais alta e pretende transformar a antiga localidade em um parque urbano e memorial. A estratégia também inclui revisão dos planos diretores dos municípios para restringir novas ocupações nas áreas mais vulneráveis. A retirada de moradores, porém, é uma das partes mais difíceis do processo. “As pessoas têm uma certa ilusão, olhando de fora, de que basta ter dinheiro e vai resolver”, afirma Leite. “As pessoas têm vínculos emocionais, culturais com essas localidades.” Para o governador, a proximidade da tragédia criou uma janela para avançar com as realocações enquanto a memória do desastre ainda está presente. A lógica se aproxima do conceito de cidades-esponja, citado por Leite como uma mudança na relação com os rios. “Ao invés de tentar lutar contra a natureza, você entender e ter as soluções baseadas na natureza que compreendam esses fenômenos e reservam essas áreas para esses momentos de chuvas mais intensas”, afirma. Obras de proteção e financiamento Na Região Metropolitana de Porto Alegre, onde a dinâmica das cheias é diferente, a estratégia inclui a recuperação dos sistemas existentes de proteção. Segundo o governador, Porto Alegre e Canoas já receberam, juntas, mais de R$ 500 milhões do Estado para obras em diques, comportas e casas de bombas. O governo federal também disponibilizou R$ 6,5 bilhões para novos sistemas de contenção. Em Eldorado do Sul, um dos projetos prevê a proteção de todo o perímetro urbano e está orçado em R$ 1 bilhão. O governo estadual concluiu a atualização dos anteprojetos e aguarda a análise da Caixa Econômica Federal. A previsão é lançar o edital para contratação integrada ainda neste ano. O projeto também prevê parques junto às margens dos diques, uma tentativa de evitar a ocupação dessas áreas e facilitar a manutenção das estruturas. O desafio, porém, não é apenas executar as obras, mas financiá-las. O Rio Grande do Sul passou de CAPAG-D para CAPAG-C na classificação fiscal da Secretaria do Tesouro Nacional, mas ainda não atingiu o nível B ou A exigido para acessar diretamente financiamentos de organismos multilaterais. “Para obras, para investimentos, a gente tem uma restrição de acesso a organismos internacionais, por conta do quadro fiscal do Estado”, diz Leite. Uma das alternativas em discussão é a criação de um fundo de resseguro para ampliar a oferta de seguros residenciais e patrimoniais no Estado. O mecanismo seria acionado em situações de sinistralidade elevada, compartilhando parte do risco e permitindo que seguradoras continuem oferecendo produtos em regiões mais expostas. “Tem que ter uma oferta de algum produto na prateleira de seguro para poder se proteger”, afirma o governador. Segundo ele, o mecanismo seria destinado a pessoas físicas e empresas, e não ao próprio governo. Mais tecnologia, mas sem blindagem Outra mudança desde 2024 está na capacidade de monitoramento. O Estado, que não tinha radar meteorológico próprio, já instalou um equipamento na Região Metropolitana e prevê outros três — em Alegrete, Soledade e Pelotas — para ampliar a cobertura a todo o território gaúcho. Os radares serão combinados a estações hidrometeorológicas, levantamentos batimétricos e topográficos e modelos de comportamento dos rios. A tecnologia de Cell Broadcast também passou a permitir o envio simultâneo de alertas para celulares em áreas de risco. A tecnologia, entretanto, não elimina a incerteza. “Se for 80, o comportamento nos rios é um, se for 120, é outro. Se vai chover, se vai precipitar na cabeceira do rio, o comportamento é um, se vai chover aquele volume 50 quilômetros adiante, é outro comportamento”, explica Leite. O episódio de um tornado no oeste do Estado na semana anterior à entrevista expôs uma das limitações atuais: a região ainda não conta com cobertura de radar. Segundo Leite, o equipamento permitiria identificar a assinatura do tornado e ampliar o tempo disponível para emissão de alertas. Para o governador, a experiência de 2024 mudou a percepção sobre a dimensão do risco climático no Estado. Antes da tragédia, moradores de áreas sujeitas a cheias menores resistiam às ordens de retirada porque estavam acostumados com episódios em que a água subia pouco e recuava rapidamente. A escala da enchente tornou mais difícil ignorar a possibilidade de eventos extremos. Agora, a prioridade é transformar a memória da tragédia em mudanças permanentes. “Nós não teremos blindagem para que nada aconteça. Mas há um processo de evolução que vai protegendo mais a população”, afirma Leite. O objetivo, diz, é reduzir mortes e manter funcionando a logística, a economia, a educação, a saúde e os serviços públicos mesmo diante de eventos extremos. “São várias camadas de resiliência que precisam ser contempladas para que a gente consiga ter uma vida próxima do normal, convivendo com esse componente do clima.” RioS - Resiliência, Inovação e Obras para o Futuro do Rio Grande do Sul Enquanto o curto prazo se resume a reagir mais rápido a cada nova chuva, a resposta de longo prazo do Rio Grande do Sul passa por uma pergunta diferente: em vez de reconstruir onde a tragédia já aconteceu, mapear onde ela pode voltar a acontecer — e agir antes. É nesse esforço que está o Projeto RioS, sigla para Resiliência, Inovação e Obras para o Futuro do Rio Grande do Sul, iniciativa do governo estadual em parceria com o BNDES para mapear o risco climático de toda a bacia hidrográfica do Guaíba, região que reúne mais de 250 municípios gaúchos e concentra as áreas historicamente mais afetadas por cheias e estiagens no estado. O projeto foi concebido pelo governo e é executado pelo BNDES por meio de um acordo de cooperação técnica, com os estudos pagos pelo próprio Rio Grande do Sul através do FUNRIGS, o Fundo do Plano Rio Grande. A execução ficou a cargo de um consórcio liderado pela consultoria Deloitte, escolhido em licitação com mais de 11 concorrentes, e formado também pelo escritório de advocacia Mattos Filho (questões regulatórias e de direito ambiental), pela EBP Ambiental (engenharia e urbanismo) e pela Climatempo (análise climatológica e meteorológica). O trabalho, que integra o Plano Rio Grande, está atualmente na fase de diagnóstico. Esse diagnóstico combina modelagem hidrodinâmica da bacia, dados topobatimétricos e nove ameaças climáticas mapeadas — inundação, enxurrada, temperaturas extremas, tempestades, deslizamentos, baixa umidade e tornados — com cenários futuros do IPCC. Os dados são cruzados com a exposição de infraestrutura, população, economia e meio ambiente, além de indicadores de vulnerabilidade social, para chegar a um retrato do risco climático real de cada região da bacia — e não apenas do volume de chuva previsto. O trabalho também inclui escuta direta da população e do poder público local nos municípios da região. O objetivo final não é um relatório, mas um portfólio de até cinco projetos de adaptação climática — intervenções físicas e institucionais — selecionados por critérios de custo-benefício e prontos para serem implementados e financiados. A fonte de recursos para essas intervenções, porém, ainda não está definida: pode vir do próprio BNDES, de bancos multilaterais, investidores de impacto ou uma combinação dessas fontes.