Presidente vê espaço para discutir agora e ‘fazer as pazes’ depois, por entender o que Trump deseja, avalia cientista político 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Thiago de Aragão, pesquisador sênior do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais de Washington e CEO da Arko Advice International — Foto: Divulgação A decisão do governo do Brasil de iniciar o processo de reciprocidade em razão do tarifaço imposto a produtos brasileiros pelo governo de Donald Trump se apoia na “embalagem” de questão da soberania nacional que o presidente Lula deu à extensa disputa travada entre os dois países no campo comercial, avalia Thiago Aragão, pesquisador sênior do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais de Washington e CEO da Arko Advice International. O entendimento do cientista político é de que esse posicionamento de Lula é possível porque o Brasil não é um país com forte dependência dos EUA no comércio exterior. Sob efeito do tarifaço de Trump, as exportações brasileiras para o mercado americano recuaram ao menor patamar histórico, segundo a Amcham Brasil, para US$ 17,4 bilhões, queda de 13% ante a igual período de 2025. A fatia de vendas do comércio internacional do Brasil abocanhada pelos americanos encolheu para 9,4%, o mais baixo índice desde o início da série em 1997. Para Aragão, a conduta de Lula é política e a discussão foge do âmbito comercial. Trump mira em conseguir um acordo na área de minerais críticos com o Brasil, além de avançar em vantagens para as gigantes de tecnologia americanas, diz ele. Com isso, Lula poderia brigar agora e, mais adiante, “fazer as pazes” com o presidente americano porque sabe exatamente o que Trump quer. Em paralelo, os países taxados pelos EUA até aqui não optaram pela reciprocidade, com exceção da China. O movimento deve garantir destaque à Lula na grande imprensa internacional, reforçando o esforço de campanha. O que motivou o governo brasileiro a acionar a Lei de Reciprocidade? As tarifas de Trump contra o Brasil têm impacto muito diferente do sentido por outros países porque o nosso comércio exterior depende muito menos dos Estados Unidos do que o de outras nações, por exemplo, como o México. O Brasil é incrivelmente dependente da China. Entre Brasil e EUA, o efeito é mais forte entre empresas privadas, principalmente de serviços, alcançando companhias americanas como Amazon e Meta (dona de Instagram, Facebook e WhatsApp). As tarifas americanas são muito ruins para determinadas indústrias no Brasil, mas no âmbito macro não são tão relevantes. E isso é determinante para a ação do Brasil? Isso determina o grau de ênfase que o governo brasileiro dá agora. Outra coisa é a questão política, e ela entra dos dois lados. Do lado dos EUA, a forma do Trump negociar é colocar um problema na mesa do outro país, com o custo de fazer com que (esse parceiro) encontre a solução que o governo americano quer. É idiotice se ancorar na OMC (Organização Mundial do Comércio) porque não é isso que move a ação dos Estados Unidos. Ela é movida por outras lógicas, sendo uma das principais o antagonismo natural entre governos de esquerda ou de centro-esquerda e os de direita. Outra é a questão dos minerais críticos. O Brasil é a segunda maior reserva do mundo e pode fazer da China, caso se alie ao país, a grande vencedora. Se decidir se aliar aos EUA, equilibraria o jogo. Ou pode ainda subir a uma superpotência, se não se alinhar a ninguém. Trump espera que o Brasil feche um acordo em minerais críticos com o governo americano. O que move a ação dos EUA são camadas mais profundas, ainda que inclua apoio à família Bolsonaro, mas isso não é o principal. Basta olhar para o que aconteceu na Venezuela. Trump retirou (o ex-presidente Nicolás) Maduro do poder e, depois, não deu a menor pelota para María Corina Machado (líder da oposição no país). E como o Brasil vê isso? Do lado do Brasil, Lula pensa que o tarifaço é um problema que não nos afeta tanto. Então pensa: “vou preparar um subsídio para as empresas afetadas e, depois, vejo o que fazer”. Enquanto houver vídeo do (ex-deputado) Eduardo Bolsonaro comemorando tarifaço de Trump em redes sociais, Lula vai usar isso. A questão da tarifa não é mais uma questão de negociação comercial. Lula fez uma embalagem com a questão da soberania nacional e vai levar isso até o fim das eleições. O uso dessa embalagem requer uma retaliação. Se o tema é soberania, ele é obrigado a rebater a negociação que agride o Brasil. Lula sabe que não pode negociar agora. E sabe que Trump vai e volta porque para ele nada é definitivo. É algo como: “brigo com ele agora e posso fazer as pazes depois porque sei o que ele quer”. Outra coisa é que retaliar foi o menos explorado por outros países taxados por Trump. Ao escolher a reciprocidade, Lula vai virar notícia em veículos de destaque em todo mundo. Além de minerais críticos, Trump busca acordos que beneficiem as big techs americanas. A Meta tem todas as razões do mundo para não gostar do Pix. O Brasil é o país mais desenvolvido do mundo no WhatsApp e aonde a companhia quer colocar o WhatsApp Pay. Mas há um problema semântico nessa discussão porque o Pix não é um serviço, mas um direito de quem nasce no Brasil. No fim, tudo isso vai beneficiar a China, a única que pode compensar tudo. Mas ela não faz nada de graça, e já perguntou se o Brasil gostaria que fosse montada uma refinaria chinesa de minerais críticos no país. Isso seria um soco na cara dos EUA, mas amarraria o Brasil com um cabo de aço à China. E Trump está mostrando ao mundo que dependência, seja ela qual for, é um problema.
‘Reciprocidade mostra que Lula usa embalagem da soberania e vai levar isso até o fim das eleições’, diz Thiago Aragão
Presidente vê espaço para discutir agora e ‘fazer as pazes’ depois, por entender o que Trump deseja, avalia cientista político








