O suposto plano iraniano para assassinar Donald Trump durante uma viagem à Turquia colocou no centro das atenções uma das aeronaves mais famosas — e protegidas — do mundo. Segundo informações reveladas pela imprensa americana, a inteligência dos Estados Unidos identificou uma ameaça para derrubar o avião presidencial durante a passagem do republicano por Ancara. A suspeita foi considerada séria o suficiente para que o Serviço Secreto retirasse Trump discretamente do Air Force One e o colocasse em outra aeronave. No fim da cúpula da Otan, em 8 de julho, Trump chegou a embarcar no avião presidencial diante do público. Depois, porém, teria deixado a aeronave pelo outro lado e sido transportado em um caminhão utilizado pelo serviço de bordo até um avião presidencial menor. Nele, seguiu para a primeira parada da viagem, no Reino Unido. O presidente dos EUA, Donald Trump, desembarca do Air Force One ao chegar ao aeroporto de Zurique — Foto: Mandel Ngan / AFP O Air Force One que poderia ser o alvo também decolou. A bordo estavam jornalistas e integrantes do alto escalão do governo americano, entre eles o secretário de Estado, Marco Rubio, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent. Os dois ocupam, respectivamente, posições de destaque na linha de sucessão presidencial e teriam sido mantidos separados de Trump como parte do esquema de segurança. A operação chamou ainda mais atenção por envolver justamente uma aeronave projetada para permitir que o presidente dos Estados Unidos continue comandando o país mesmo em situações extremas. Mais do que um avião de luxo, o Air Force One funciona como uma espécie de "Casa Branca voadora", equipada com sistemas militares de comunicação e recursos de proteção para diferentes tipos de ameaça. Air Force One não é o nome de um avião Apesar de ser popularmente associado aos dois enormes Boeing 747 utilizados pela Presidência americana, Air Force One é, tecnicamente, o indicativo de chamada dado a qualquer aeronave da Força Aérea dos Estados Unidos quando o presidente está a bordo. Atualmente, as principais aeronaves destinadas a essa função são dois Boeing 747-200 profundamente modificados e identificados militarmente como VC-25A. Eles entraram em operação em 1990, durante o governo de George H. W. Bush, e se tornaram uma das imagens mais reconhecidas da Presidência americana. Quando Trump deixou o avião na Turquia, portanto, a aeronave que prosseguiu viagem sem ele tecnicamente deixou de utilizar a designação Air Force One. Os aviões foram desenvolvidos para funcionar não apenas como meio de transporte, mas como centros de comando. A bordo, o presidente consegue manter contato com autoridades civis e militares e acompanhar uma crise mesmo sem estar em território americano. Avião tem três andares e espaço equivalente a uma casa O tamanho é uma das características mais marcantes. Cada VC-25A tem aproximadamente 70 metros de comprimento e uma área interna de cerca de 370 metros quadrados distribuída por três níveis. O espaço é dividido entre áreas destinadas ao presidente, assessores, integrantes do Serviço Secreto, militares, convidados e jornalistas. O chefe de Estado dispõe de uma suíte própria, com escritório e área de descanso. Novo Air Force One: conheça por dentro o superavião que Trump recebeu de presente do Catar 1 de 7 Suíte principal do Boeing 747-8 presenteado pelo Catar conta com cama king-size e decoração de alto padrão, projetada originalmente para acomodar membros da família real — Foto: Reprodução 2 de 7 Banheiro da aeronave exibe acabamento sofisticado e amplo espaço interno, um dos diferenciais do jato de luxo que poderá se tornar o novo Air Force One — Foto: Reprodução X de 7 Publicidade 7 fotos 3 de 7 Chuveiro com metais dourados integra uma das áreas privativas do avião, concebido para oferecer conforto em viagens de longa distância — Foto: Reprodução 4 de 7 Sofás e mesa de centro compõem uma das salas de convivência do jato, pensada para reuniões e momentos de descanso durante o voo — Foto: Reprodução X de 7 Publicidade 5 de 7 Lounge principal reúne poltronas de couro, mesas e iluminação indireta em um ambiente semelhante ao de um hotel de luxo — Foto: Reprodução 6 de 7 Escadaria liga os dois andares da aeronave, que possui espaços exclusivos para áreas sociais, acomodações e serviços de bordo — Foto: Reprodução X de 7 Publicidade 7 de 7 Vista de uma das suítes executivas do avião mostra integração entre quarto, banheiro revestido em mármore e sala de reuniões privativa, reforçando o padrão de luxo do Boeing 747-8 — Foto: Reprodução Novo Air Force One: conheça por dentro o superavião que Trump recebeu de presente do Catar Há ainda uma sala utilizada para reuniões e refeições, espaços de trabalho para integrantes do governo e áreas destinadas à imprensa. As aeronaves também contam com duas cozinhas, capazes de preparar refeições para dezenas de pessoas simultaneamente. A logística é planejada antes de cada viagem e parte dos alimentos é embarcada sob protocolos especiais de segurança. Há ainda uma área médica que pode ser transformada em sala de atendimento emergencial. Um médico costuma integrar as viagens presidenciais. Proteção contra ataques Boa parte das capacidades defensivas do Air Force One permanece sob sigilo por razões de segurança. Informações públicas sobre o programa, no entanto, mostram que as aeronaves contam com sistemas de comunicação protegidos e foram adaptadas para operar em cenários de crise. Os equipamentos eletrônicos possuem proteção reforçada contra interferências eletromagnéticas, uma característica importante em situações envolvendo ataques ou explosões nucleares. O avião também dispõe de sistemas de contramedidas destinados a aumentar sua proteção diante de ameaças externas. Detalhes sobre funcionamento, alcance e capacidade desses equipamentos não são divulgados pelas autoridades americanas. Outra característica estratégica é a possibilidade de reabastecimento em voo. Em uma situação extrema, isso permite aumentar significativamente o período em que a aeronave pode permanecer no ar sem precisar pousar. Donald Trump embarca em novo Air Force One, doado pelo Catar, em imagem de 1º de julho; reportagens sobre a aeronave levaram à intimação de jornalistas do NYT — Foto: Doug Mills/The New York Times É justamente essa combinação que transformou o avião presidencial em uma plataforma de comando preparada para situações nas quais estruturas tradicionais do governo possam estar ameaçadas. Uma frota com mais de três décadas Apesar do aparato tecnológico, os atuais aviões presidenciais já acumulam mais de três décadas de serviço. A necessidade de substituição levou o governo americano a encomendar uma nova geração, conhecida como VC-25B. As futuras aeronaves são baseadas no Boeing 747-8 e passam por uma extensa transformação para atender às exigências presidenciais. O processo inclui instalação de sistemas militares de comunicação, equipamentos defensivos, alterações elétricas e modificações estruturais. Em 2018, durante o primeiro governo Trump, foi firmado com a Boeing um contrato de aproximadamente US$ 3,9 bilhões para o desenvolvimento e a conversão dos novos aviões. O programa, entretanto, enfrentou sucessivos atrasos, aumento de custos e dificuldades técnicas. A previsão original era de que as aeronaves começassem a operar em meados desta década, mas o cronograma foi sucessivamente postergado. Do avião presidencial para outro avião O episódio na Turquia mostrou, no entanto, que mesmo uma aeronave desenvolvida para resistir a cenários extremos pode ser retirada de uma operação quando o Serviço Secreto considera que existe uma ameaça específica. Segundo o relato divulgado pela imprensa americana, agentes iranianos teriam acompanhado detalhes da passagem de Trump por Ancara. Um suspeito também teria sido identificado nas proximidades da cúpula portando um sistema portátil capaz de disparar um míssil a partir do ombro. Diante das informações, a segurança presidencial optou pela estratégia de despistar eventuais responsáveis pelo ataque: Trump apareceu embarcando normalmente no Air Force One, mas deixou a aeronave discretamente antes da decolagem. Na terça-feira, depois que a operação veio a público, Trump confirmou que havia trocado de avião e afirmou ter seguido as determinações do Serviço Secreto.