Moradores de Qusra tiveram acesso cortado à água, energia e alimentos desde domingo; americano classificou ação como ‘terrorismo repugnante’ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Soldados israelenses patrulham rua durante operação na vila de Qusra, na Cisjordânia ocupada, em 13 de agosto de 2026 — Foto: ZAIN JAAFAR / AFP Cerca de uma dúzia de famílias palestinas foram obrigadas a deixar suas propriedades em uma vila na Cisjordânia ocupada durante uma operação militar israelense para retirada de colonos — que, por sua vez, mantinham moradores sitiados em três casas da região desde domingo. A operação desta quinta-feira ocorreu após o embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, um firme defensor dos assentamentos israelenses na região, classificar como “terrorismo” o cerco imposto por colonos, que chegaram a cortar o acesso a energia e alimentos. “As ações daqueles que cometeram esse horrível ato de terrorismo com o objetivo de intimidar e assediar essa família são repugnantes”, escreveu Huckabee no X, em resposta a críticas sobre a reação de Washington. “Não há desculpa para um comportamento tão próprio de arruaceiros”, acrescentou. Suas declarações são especialmente marcantes porque Huckabee, pastor evangélico e figura próxima ao movimento de colonos, já apoiou os assentamentos israelenses na Cisjordânia. Desde domingo, colonos israelenses mantêm várias casas palestinas cercadas em Qusra, perto de Nablus, no norte da Cisjordânia, um território ocupado por Israel desde 1967. Entre as propriedades afetadas está a de um cidadão americano. O Exército israelense enviou tropas para a região na quarta-feira e retirou uma barraca instalada pelos colonos, mas testemunhas afirmaram que eles permaneceram no local e continuaram o bloqueio. Posteriormente, as Forças Armadas anunciaram o envio de um novo batalhão para tentar restabelecer a ordem. O prefeito de Qusra, Abdel Azim Wadi, disse à BBC que sua vila havia sido declarada uma zona militar fechada, e que as forças israelenses estavam usando algumas das casas desocupadas como alojamentos. Os militares israelenses disseram que o objetivo era “proteger os moradores”. Um porta-voz israelense disse à rede britânica que a ação dos colonos era “deplorável” e “inaceitável” e que o governo prenderia os responsáveis. — O Exército israelense está agindo contra isso, estamos investigando e vamos prender os responsáveis e processá-los — disse David Mencer. ‘Posto militar’ Das três casas das famílias sitiadas em Qusra, pertencentes às famílias Abu Ridi e Hassan, os moradores de duas foram orientados a sair nesta quinta-feira, publicou a BBC. Em outras partes da vila, moradores de outras 11 casas também receberam ordens do Exército para deixar suas propriedades. Um deles foi Qaher Odeh, que disse que mais de 20 soldados entraram em sua casa pela manhã. Eles saíram mais tarde, mas voltaram e disseram a ele e ao irmão que estavam em um posto militar. — Nós saímos e continuamos caminhando em direção à parte mais baixa do bairro. Pouco depois, eles isolaram toda a área — disse Odeh. — Havia pessoas sendo obrigadas a sair de suas casas. Muitas pessoas. Vídeos compartilhados na madrugada desta quinta mostraram uma dúzia de veículos das forças de segurança israelenses, incluindo uma escavadeira. Em imagens posteriores, gravadas durante o dia, havia uma longa fila de forças de segurança israelenses na estrada que leva à vila palestina. As Forças Armadas de Israel disseram ter “desmantelado dois postos avançados ilegais”, acrescentando que detiveram um israelense. Confronto com a polícia A situação em Qusra começou no domingo, quando colonos bloquearam a estrada que levava aos portões das famílias palestinas e cortaram o fornecimento de energia elétrica e água. Os primeiros soldados que chegaram ao local rezaram com os colonos — um ato pelo qual os militares israelenses disseram posteriormente que eles seriam punidos. Na quarta-feira, uma tentativa das forças de segurança israelenses de retirar os colonos levou a confrontos com um grupo maior. Imagens de câmeras de segurança mostraram confrontos entre soldados israelenses e policiais de fronteira e uma grande multidão de colonos. As forças de segurança usaram gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral. Em outras imagens, as forças parecem ter confiscado a cobertura sob a qual os colonos estavam abrigados. O prefeito de Qusra, Abdul Azim Wadi, disse à AFP que o Exército havia se retirado de oito casas que havia ocupado na manhã desta quinta-feira e que “todos os moradores que haviam sido evacuados retornaram para suas casas”. Horas depois, porém, colonos ainda estavam na região. Tropas israelenses também permaneciam na cidade e disseram aos moradores que ficariam até domingo. Não está claro o objetivo dos colonos. No passado, colonos expulsaram palestinos de suas casas e tomaram suas propriedades, buscando esvaziar a região de seus moradores palestinos. Embora os assentamentos sejam considerados ilegais segundo o direito internacional, o governo israelense promoveu sua rápida expansão nos últimos tempos. O caso é o mais recente a chamar atenção para a relativa impunidade dos colonos e para a dificuldade das forças de Israel em lidar com o aumento da violência. Também à BBC, o prefeito de Qusra disse anteriormente que moradores locais haviam identificado “um padrão claro e contínuo de ataques contra Qusra”. No mês passado, uma mesquita recém-construída foi incendiada, e pichações em hebraico foram feitas nas proximidades. Em julho, colonos também cercaram uma casa palestina na vila de Jalud, perto de Qusra, por mais de duas semanas. Depois disso, os proprietários fugiram e os colonos tomaram a propriedade, onde permanecem até hoje. ‘Fracasso e fraqueza’ A ação do Exército contra os colonos ocorre no mesmo dia em que uma série de autoridades israelenses, incluindo o ministro da Defesa, Israel Katz, comemorava a reabertura de outro assentamento, em Ganim, no norte da Cisjordânia. O assentamento havia sido desmantelado há mais de 20 anos como parte de um plano de retirada do então governo, que pretendia reduzir os conflitos ao deixar áreas palestinas. — Aqui é a Terra de Israel. Aqui, vamos ficar para sempre — disse Katz durante a cerimônia de reabertura, na qual dezenas de famílias se preparavam para se mudar para novas casas. O governo do premier Benjamin Netanyahu autorizou a reconstrução do assentamento enquanto busca mobilizar sua base de extrema direita antes das eleições de 27 de outubro, que, segundo as pesquisas, estão acirradas. Gadi Eisenkot, que surgiu como o principal adversário de Netanyahu nas eleições, classificou os acontecimentos em Qusra como “outra grave expressão do fracasso e da fraqueza” do governo. Segundo dados da ONU, 76 palestinos — incluindo 18 crianças e adolescentes — foram mortos na Cisjordânia neste ano por forças israelenses ou colonos. Ao mesmo tempo, três israelenses, incluindo um civil, foram mortos em confrontos com palestinos e em um suposto ataque de atropelamento cometido por um palestino na Cisjordânia. Desde janeiro de 2023, 127 comunidades palestinas na Cisjordânia sofreram deslocamento total ou parcial, incluindo 47 que foram completamente deslocadas, afetando mais de 6.390 palestinos, segundo a ONU. A organização registrou que, em 2026, cerca de 3,8 mil palestinos, quase metade deles menores, foram deslocados devido à violência de colonos, demolições e despejos. Nesta quinta, o Escritório de Direitos Humanos do órgão pediu às autoridades israelenses que agissem “imediatamente” contra os colonos, acrescentando, em comunicado: “Essas ações criminosas dos colonos, apoiadas ou toleradas por Israel, a potência ocupante, estão tornando a vida insuportável para essas famílias palestinas e têm claramente como objetivo forçá-las a deixar suas casas e suas terras”, escreveram. Já a porta-voz de política externa da União Europeia (UE), Anitta Hipper, pediu a Israel que tome “medidas concretas para impedir a violência dos colonos”. A violência contra palestinos cometida por colonos israelenses na Cisjordânia aumentou drasticamente desde o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, a partir da Faixa de Gaza. Mais de 500 mil israelenses vivem em assentamentos na Cisjordânia, entre cerca de 3 milhões de palestinos que vivem no território. (Com AFP)