Medeiros, da FenSeg: “A gente procura estar preparado para o pior” — Foto: Gabriel Reis/Valor Com a expectativa de um El Niño mais intenso neste ano, seguradoras estão revisando seus planos de contingência e se preparando para um eventual aumento de sinistros provocados por enchentes, vendavais e períodos de seca mais longos relacionados ao fenômeno climático. A leitura é a de que o excesso de chuvas em algumas regiões poderá afetar linhas “massificadas”, como os seguros que protegem veículos e casas, além de seguros contratados por empresas. Também preocupa o impacto no agronegócio e, consequentemente, no seguro rural. “Hoje, a maioria das projeções aponta para um El Niño forte. Esse é o cenário com que estamos trabalhando”, diz Jarbas Medeiros, presidente da comissão de riscos patrimoniais massificados da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg). A expectativa é de maior impacto a partir de setembro, período em que podem ocorrer as chuvas torrenciais concentradas em curto espaço de tempo, além do risco de alagamentos, vendavais, ciclones e até tornados. “Ninguém consegue prever exatamente quando ou onde isso vai acontecer. E isso é determinante para o tamanho das perdas”, afirma. Diante desse cenário, as seguradoras passaram a reforçar sua preparação operacional, com monitoramento diário de previsões meteorológicas e mobilização antecipada de equipes próprias. “A gente procura estar preparado para o pior”, afirma Medeiros. Além de desenhar uma “força-tarefa”, as companhias também reforçar a rede de assistência e fortalecer a estrutura para lidar com um grande volume de sinistros simultaneamente. No país, a média anual de registros de eventos climáticos passou de 2,5 mil no período de 2015 a 2019 para cerca de 4,5 mil no período de 2020 a 2024, segundo dados compilados pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). Esse aumento da frequência e da intensidade dos eventos levou seguradoras a remodelar seus modelos de risco e sua estrutura de atendimento aos segurados. “Houve uma evolução das companhias no que diz respeito a todo o processo. Não só na precificação, mas também na subscrição e para se organizar de forma a atender melhor os sinistros porque está muito claro para nós que essa é uma realidade que veio para ficar”, avalia Medeiros. Aos poucos, ocorreu uma substituição, dentro do setor, de uma lógica reativa por uma estratégia de prevenção, afirma Marcio Probst, diretor de operações e sinistros do Grupo HDI. Se antes as seguradoras estruturavam suas operações depois que o desastre já havia acontecido, agora o processo começa dias antes, com monitoramento meteorológico, cruzamento de dados geográficos e planejamento operacional. “O mercado se preocupava a partir do momento do evento. Hoje, existe uma preparação pré-crise. Quando ocorre algo, sabemos onde estão os nossos clientes, cruzamos essas informações com modelos meteorológicos e conseguimos identificar onde existe maior probabilidade de ocorrência e maior concentração de exposição”, diz. O mercado se preocupava a partir do momento do evento. Hoje, existe uma preparação pré-crise” Na HDI, houve reforço no uso de ferramentas de georreferenciamento capazes de combinar a localização dos segurados com previsões climáticas. Segundo Proust, esses modelos permitem antecipar a mobilização das equipes e orientar ações preventivas, como o envio de alertas aos segurados. A companhia de seguros também reforçou a capacidade de resposta em campo, com investimento de cerca de R$ 2 milhões em veículos de pronta resposta totalmente autônomos para que as equipes permaneçam em regiões isoladas durante vários dias, caso necessário. Iniciativas semelhantes foram tomadas em outras companhias, como a BradSeg. “A experiência acumulada nos últimos anos permitiu desenvolver protocolos específicos para atuação em eventos de grande porte, independentemente da região atingida”, diz Ney Dias, presidente da empresa. Além disso, afirma o executivo, foram acelerados investimentos em inteligência artificial, big data, geoprocessamento e modelos preditivos, que integram dados meteorológicos, informações territoriais e histórico de indenizações. No grupo Porto, foi feito um trabalho de revisão de portfólio para assegurar que eventos como alagamentos, queda de árvores, vendavais e enchentes estejam contemplados nas diferentes modalidades de cobertura, segundo Patricia Chacon, presidente da vertical de seguros da companhia. Também se buscou tornar mais ágil o processo de regulação dos sinistros - que é o momento em que a seguradora apura as causas e a extensão do dano reportado e se aquele evento está coberto pela apólice. De acordo com a executiva, a Porto mantém fluxos específicos para situações de crise, permitindo acelerar o pagamento das indenizações. “Preparamos as esteiras para que, na hora que acontece uma crise, os times emergenciais atendam aqueles sinistros de forma mais rápida”, diz. “Na hora do sinistro, a liquidez faz diferença para a família. Muitas vezes, a indenização do seguro ajuda a pagar despesas imediatas. Por isso, a rapidez é fundamental.” A lógica de antecipação também se estende ao seguro rural, segmento especialmente sensível às oscilações climáticas. Meses antes do início do plantio, as seguradoras já utilizam projeções climáticas para avaliar riscos, calibrar preços e decidir quanto de exposição poderão assumir em cada região do país, diz Fabio Damasceno, diretor técnico de seguros rurais da Mapfre. “É praticamente um jogo de xadrez. Precisamos distribuir nossa exposição de forma que consigamos oferecer cobertura sem comprometer o equilíbrio da carteira”, afirma, ressaltando que inovações tecnológicas e o uso de inteligência artificial têm facilitado esse processo dentro das companhias. Rodrigo Curi, superintendente executivo de subscrição, pricing, parcerias e soluções aos clientes da Brasilseg, diz que a evolução tecnológica faz com que, diferentemente do passado, quando o objetivo do mercado era identificar riscos para recusá-los, o foco passe a ser encontrar mecanismos para incluir mais clientes no mercado segurador. “Aqui a subscrição não tem como objetivo excluir riscos. O foco é a inclusão. A gente busca uma precificação justa para que o cliente tenha a cobertura de que realmente precisa”, diz. Diante do El Niño deste ano, produtores devem buscar mais proteção diante da perspectiva de eventos climáticos extremos, principalmente nas regiões mais expostas. No entanto, esse movimento esbarra nas dificuldades enfrentadas pelo setor. O endividamento dos produtores e as incertezas em torno do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) têm dificultado a contratação das apólices. Em junho, o governo federal bloqueou R$ 461,6 milhões do orçamento do PSR, quase metade do previsto para o ano todo, repetindo o que ocorreu em 2025. A experiência permitiu desenvolver protocolos específicos para eventos de grande porte” — Ney Dias “Existe aumento de demanda, mas ele não é acompanhado nem pelo aumento nem pelo desbloqueio do PSR, o que acaba atrapalhando bastante. É algo bem complexo”, diz o executivo da Mapfre. “Por um lado você tem produtores que estão acessando o crédito, que estão numa região que vai produzir, mas eles estão olhando o seguro como um custo, porque não têm a certeza de que o PSR será desbloqueado até o final do ano.” Além de mexer na rotina das seguradoras, o aumento dos eventos climáticos no país passou também a ser considerado na negociação dos contratos de resseguro, instrumento que permite às companhias dividir o risco com resseguradoras nacionais e internacionais. Proust, da HDI, diz que, além de considerar fatores como o número de ocorrências e quantas vezes o resseguro foi acionado, as resseguradoras estão levando em conta, no momento de renovar contratos, a capacidade das seguradoras de gerir o risco e reduzir o prejuízo. Medeiros, da Fenseg, afirma que uma seguradora sozinha não conseguiria suportar um risco catastrófico e que, por isso, o mercado tem buscado mais proteção do resseguro. Isso, segundo ele, permitiu ampliar a oferta de coberturas como a de alagamentos. Em 2024, apenas três seguradoras comercializavam no país esse tipo de proteção. Atualmente, cerca de 80% do mercado já oferece essa cobertura, diz. “Foi um avanço importante. O mercado conseguiu adaptar os produtos, melhorar a precificação, a subscrição e buscar apoio do resseguro para ampliar bastante essa oferta”, afirma Medeiros. Ainda assim, ele ressalta que o desafio permanece do lado da demanda, dada a baixa penetração do seguro no país. Até agora, o maior sinistro climático ocorrido no Brasil foi provocado pelas fortes chuvas no Rio Grande do Sul, em 2024, mas outros eventos chamaram a atenção, como chuvas no litoral paulista em 2025 e as enchentes na Zona da Mata mineira em 2026. No caso do Rio Grande do Sul, o valor coberto por seguro chegou a R$ 6 bilhões, uma parte pequena considerando as perdas econômicas que se aproximaram dos R$ 90 bilhões. Estima-se que só 9% das perdas econômicas dos desastres climáticos sejam cobertas no Brasil. Em países desenvolvidos, essa proteção estaria entre 20% e 55%, segundo dados da Swiss Re de 2023. Diante disso, os baixos índices de contratação de seguro seguem sendo um desafio. Probst ressalta que menos de 18% das residências brasileiras possuem seguro, enquanto entre as empresas esse percentual gira em torno de 20%. Embora a demanda tenha crescido desde 2024, principalmente após o evento no Sul, o avanço ainda está longe de acompanhar a maior percepção de risco. “O aumento da demanda existe, mas não foi significativo. Ainda falta maturidade do consumidor em relação ao seguro patrimonial”, diz.
Seguradoras se preparam para El Niño mais intenso
Companhias do setor revisam planos de contingência e veem possível alta de sinistros por causa de fenômeno climático









