Um super El Niño a caminho? Veja quais são os riscos para o Brasil, segundo especialistasExpectativa é de extremos de temperatura e muita chuva no segundo semestre. Crédito: Edição: Júlia PereiraGerando resumoFoto: Gladstone Campos/DivulgaçãoPatricia ChaconCEO da Porto SeguroO crescente risco de formação do El Niño mantém o mercado segurador sob alerta. Com a possibilidade de secas severas no Norte e no Nordeste, além de chuva intensa no Centro-Oeste e no Sul, o fenômeno climático pode elevar os avisos de sinistros e desorganizar as cadeias de proteção. Mais do que o impacto financeiro, a principal preocupação do setor é de que o episódio volte a expor a baixa cobertura securitária para eventos extremos, como aconteceu com as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024.“Não podemos permitir que aconteça um evento climático forte de novo e as pessoas se encontrem novamente desprotegidas”, afirma a CEO da Porto Seguro, Patricia Chacon, em entrevista ao Estadão/Broadcast. “Temos sido bastante vocais sobre a importância da contratação de seguro, sobretudo nas regiões mais para o centro e o sul do País”, acrescenta.O caso ilustra o papel central das questões climáticas no negócio de seguros. Segundo Chacon, as mudanças no clima já entraram nos modelos de precificação de riscos e no desenvolvimento de novos produtos. A seguradora do grupo Porto também monitora previsões meteorológicas e busca preparar equipes antes mesmo da ocorrência dos eventos. “Hoje, nossa precificação é bastante assertiva em nível de CEP, considerando riscos como alagamentos e vendavais”, ressalta. Confira os principais trechos da entrevista:O mercado segurador brasileiro ainda convive com uma grande lacuna de proteção. Onde estão as principais oportunidades para reduzir esse problema?Quando um imprevisto acontece, nem todos os brasileiros têm a mesma capacidade de se recuperar e reconstruir. Um evento climático, por exemplo, pode deixar uma pessoa numa situação realmente muito desafiadora. Para nós, endereçar esse gap de proteção é fundamental porque é um caminho importantíssimo para ter equidade. Para isso, temos trabalhado fortemente em três segmentos: automóvel, residência e vida. No automóvel, apenas um terço dos veículos da frota que circula pelas nossas ruas tem seguro. Então, desenvolvemos produtos que cabem no bolso do cliente. Na linha residencial e patrimonial, um tema fundamental que é a mudança climática. Hoje, menos de 20% das residências no Brasil têm seguro, e estamos vivendo um cenário em que os eventos climáticos são cada vez mais frequentes e mais severos. Também temos feito um trabalho muito forte para que as pessoas contratem cobertura para alagamentos. O terceiro segmento é o de vida, uma linha em que temos crescido bastante.PublicidadeEm 2024, o El Niño mostrou seu potencial de destruição, com as enchentes no Rio Grande do Sul Foto: Lauro Alves/SecomA sra. comentou sobre mudanças climáticas. Como esses eventos têm afetado a precificação de risco?As mudanças climáticas impactaram o desenvolvimento de produtos, a forma como olhamos os riscos e também como nos preparamos quando um evento acontece. Na precificação, hoje consideramos os eventos climáticos de duas formas. A primeira é por meio dos nossos modelos de risco, que incorporam previsões climáticas e indicam onde determinados eventos podem ocorrer. Além disso, sempre contratamos resseguro, o que permite que a seguradora tenha proteção adicional em casos de grandes catástrofes e mantenha seu balanço resiliente. Hoje nossa precificação é bastante assertiva em nível de CEP, considerando riscos como alagamentos e vendavais.Quais riscos o El Niño traz ao mercado de seguros?Pelos satélites de climas que acompanhamos, o El Niño tem alta probabilidade de acontecer este ano em proporção maior. A gente vê realmente um risco de ondas de calor e seca no Nordeste e mais chuva na região Centro-Sul. É difícil hoje saber exatamente onde isso pode acontecer, mas o nível de alerta em relação a esse evento é importante. É importante mostrar para as pessoas que elas precisam procurar a proteção securitária. Esta é justamente a hora em que a gente não pode permitir que aconteça um evento climático forte de novo e as pessoas se encontrem novamente desprotegidas. Então, temos sido bastante vocais sobre a importância da contratação de seguros, sobretudo nas regiões mais ao Centro do país e ao Sul.Ainda nessa questão do clima, o avanço dos veículos elétricos e híbridos tem aquecido o mercado automotivo. Como isso afeta o mercado de seguro automotivo?Hoje, provavelmente por sermos líderes em seguro de automóveis, com 27% de participação de mercado, temos parcerias específicas com algumas marcas que produzem veículos elétricos e híbridos.Mas é mais desafiador atuar nesse segmento do que no de veículos a combustão?Como todo veículo, é preciso especialização. Hoje contamos com uma esteira específica para veículos híbridos e elétricos porque existem particularidades na mão de obra e na compra de peças, que são diferentes das dos demais veículos. Então, eu não diria que é um desafio maior ou menor, mas a especialização é importantíssima. E, por isso, ter escala é fundamental.PublicidadeO mercado de seguro auto passou por um período de maior pressão competitiva, com estratégias agressivas de alguns operadores e impacto nos prêmios. Como vocês avaliam esse cenário hoje?Nós ainda temos um mercado altamente competitivo. Mas tem uma boa notícia: a Porto já começou o primeiro trimestre com crescimento em automóvel. Crescemos 3% nos prêmios de automóvel e chegamos ao maior número de veículos segurados da nossa história, com 6,3 milhões de clientes. Com uma estratégia sempre equilibrada entre lucro e crescimento.Mas houve alguma resposta comercial a esse movimento mais agressivo do mercado ou a Porto manteve a estratégia de não sacrificar rentabilidade em troca de crescimento?Sempre vamos buscar equilibrar a relação entre rentabilidade e crescimento. A gente teve agora o quarto trimestre (seguido) com ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido) acima de 30%. Esse é um resultado saudável, que permite investir em tecnologia, em pessoas e remunerar bem o nosso canal, que é fundamental. Por isso, sempre mantemos essa visão ponderada de equilíbrio entre crescimento e rentabilidade.Quais são as prioridades da Porto para este ano?Temos conseguido acelerar principalmente as linhas de ramos elementares e vida. Em ramos elementares, que incluem residência e empresarial, crescemos 13% no primeiro trimestre. Em vida, crescemos 12%. Ainda vemos muito espaço para crescimento nesses segmentos. Ao mesmo tempo, seguimos trabalhando para equilibrar estabilidade, crescimento e qualidade.Leia tambémInflação enfrenta tempestade quase perfeita com guerra, El Niño e estímulos fiscaisEl Niño traz riscos à safra no Brasil e empresas já avaliam saídas para conter perdasEfeitos do El Niño podem reduzir nível dos reservatórios e aumentar preço da energia no BrasilO que o setor ainda precisa fazer para alcançar níveis de proteção semelhantes aos de países desenvolvidos?Quando a gente olha para o gap de proteção, existe um desafio importantíssimo no seguro de vida. Quando analisamos a penetração do seguro de vida como porcentual do PIB (Produto Interno Bruto), ainda estamos abaixo da média mundial em termos de contratação. O mesmo acontece com os seguros patrimoniais, sobretudo considerando que o Brasil é um país exposto a alagamentos e vendavais. Como setor, temos duas pautas muito importantes. A primeira é o Plano de Desenvolvimento do Mercado Segurador, uma iniciativa liderada pela CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras) e construída em conjunto pelas seguradoras. O objetivo é pensar o que mais pode ser feito em termos de legislação e incentivos para aumentar a penetração dos seguros. Isso passa pela divulgação dos produtos, por garantir um portfólio amplo e por fortalecer a distribuição.PublicidadeQual a segunda pauta?A segunda frente, na qual a Susep (Superintendência de Seguros Privados) tem atuado de forma bastante ativa, é a formulação de políticas públicas que incentivem a proteção. Hoje existe um trabalho em construção em torno do seguro catástrofe. A ideia é criar um seguro que proteja justamente a população que hoje não está contratando esse tipo de cobertura. Esse projeto ainda está em fase de desenho.
Entrevista | As pessoas não podem, de novo, receber o El Niño desprotegidas de seguro, diz Chacon, CEO da Porto
‘Menos de 20% das residências no Brasil têm seguro’, diz executiva de seguradora que, diante das mudanças climáticas, reviu modelos de precificação de riscos, desdobrada até mesmo por CEP















