Artista e gestor cultural paulistano tem trajetória destacada em publicação organizada pela curadora Denise Mattar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A intervenção urbana 'Agulha' (1992), na Via Anchieta, e seu autor, Ricardo Ribenboim — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A publicação, organizada por Denise Mattar, compara o trabalho do artista ao kintsugi. A técnica japonesa destaca as marcas de rupturas em cerâmicas. O volume resgata intervenções históricas do paulistano, como a costura com agulhas na Rodovia Anchieta. Outro destaque é a soltura de esferas infláveis em Ipanema. Além da produção artística, a obra aborda a atuação de Ribenboim como gestor cultural. Ele dirigiu o Itaú Cultural e fundou a Base 7. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Um ponto de inflexão na trajetória do artista paulistano Ricardo Ribenboim se deu com a instalação, em 1992, de uma agulha de metal de mais de três metros de altura no centro do asfalto da Rodovia Anchieta, transformando a linha tracejada da sinalização da pista momentaneamente em uma costura urbana. Ao longo dos anos, as propostas de intervenções voltaram em outros contextos, em materiais tradicionais, como o metal, a madeira, a cerâmica, e outros mais inusitados, a exemplo dos plásticos infláveis, do gelo, do carvão, da água. Muitos desses trabalhos remetem a objetos do cotidiano — como, além das agulhas, curativos band-aid, garrafas de Coca-Cola, bolas —, ou a formas orgânicas associadas a chifres, caudas e carcaças de animais. Em comum entre as obras, a busca pela transformação contínua entre materiais e processos e a desconstrução do olhar do espectador, seja no ambiente expositivo, seja no espaço público. No livro que leva o nome do artista, recentemente lançado pela editora Martins Fontes, a curadora Denise Mattar, que assina a organização da publicação, recorre à imagem do kintsugi, tradicional técnica japonesa de reparação de cerâmicas quebradas que destaca as marcas das rupturas em vez de escondê-las, como comparação com o ato de sublinhar as fissuras perseguido por Ribenboim em sua produção. — Vou costurando o meu trabalho ao longo do tempo de diferentes maneiras. A série “Agulhas” é muito representativa disso. A Denise teve uma leitura muito boa, observando como as coisas foram acontecendo e se desencadeando ao longo do tempo. De como a minha produção vira quase um jogo, que vai sendo refeito, reconstruído de várias maneiras, nada é definitivo — observa Ribenboim. — Depois da Anchieta, há mais de 30 anos, fiz intervenções com agulhas no MoMA PS1 (Nova York), na Índia, na Suíça. De certa forma, a série costurou o mundo. Agora, nas feiras de arte, vejo agulha para tudo quanto é lado. Nem devem saber que fiz lá atrás. Veja obras de Ricardo Ribenboim 1 de 6 Obra sem título no Parque Estoril, em São Bernardo do Campo (SP) — Foto: Divulgação 2 de 6 'Impenetrável': instalação com 600 infláveis na Bienal de Havana de 2000 — Foto: Divulgação X de 6 Publicidade 6 fotos 3 de 6 Auto-retrato: trabalhos da série 'Cabeças', em madeira e cera de abelha — Foto: Divulgação 4 de 6 'Bólides marinhos', ação na Eco-92 — Foto: Divulgação X de 6 Publicidade 5 de 6 Obra da série 'Cabaças' — Foto: Divulgação 6 de 6 Capa do livro 'Ricardo Ribenboim' — Foto: Divulgação X de 6 Publicidade Artista paulistano tem produção reunida em livro Reunindo textos críticos de Frederico Morais, Paulo Herkenhoff, Agnaldo Farias, Jacopo Crivelli Visconti, Daniela Bousso, entre outros, a publicação aborda a trajetória do artista, sem propor uma cronologia rígida, por trabalhos e séries que marcaram sua produção, desde os anos 1990 até mostras recentes, como a individual “Rastro dos restos”, montada no Paço Imperial, no Rio (2022), e no Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC USP), em São Paulo (2023), e a coletiva “Adiar o fim do mundo”, na Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, no ano passado. Outra obra icônica, “Bólides marinhos” (1992), que consistiu na liberação de mil esferas infláveis na arrebentação da Praia de Ipanema (a serem recolhidas pelos banhistas) durante a Eco-92, foi um dos pontos de partida para a concretização do livro. — Fui a uma exposição incrível no CCBB que tratava da produção dos anos 1980 e início dos 1990 (“Fullgás – Artes visuais e anos 1980 no Brasil”, 2024/2025), e lembrei daquela intervenção urbana gigante na Eco-92, que poderia estar ali, mas não estava. E aí a ficha caiu, a culpa é minha por não ter o livro pronto — avalia o artista. — É aquela história do santo de casa que não faz milagre. Mas estou colocando a vida em ordem nesse nesse sentido, também com um site reunindo a minha obra (www.ricardoribenboim.com). Em paralelo à produção artística, a atuação como gestor é outra camada fundamental de sua trajetória. Mesmo desde antes de tornar-se profissional, de certa forma, ao fundar, aos 17 anos, em 1969, a Escola de Artes da Hebraica, quando era estudante do Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha, que funcionou até os anos 1970 no bairro do Brooklin, em São Paulo. Anos mais tarde, em 1996, Ribenboim se tornou diretor técnico do Paço das Artes, também na capital paulista, em cuja gestão foi criado o programa de fomento e produção Temporada de Projetos. No ano seguinte, assumiu a presidência do Itaú Cultural (então Instituto Cultural Itaú), onde desenvolveu o programa Rumos Itaú Cultural Artes Visuais, e a primeira versão da Enciclopédia Itaú Cultural. Após deixar a instituição, em 2002, fundou a empresa de produção de exposições e eventos Base 7 Projetos Culturais. — É algo interessante por eu ter conseguido, em cada parte do contexto da compreensão sobre a arte e sua produção, ter a possibilidade de fazer certos exercícios. Desde o exercício multidisciplinar que foi a minha experiência no Itaú Cultural até o da reflexão mais íntima, na minha própria produção — compara Ribenboim, que se divide entre residências-ateliês no Alto de Pinheiros, em São Paulo, e no Flamengo, no Rio. — A pergunta recorrente é como dá tempo de fazer tudo. Meu dia tem mais que 24 horas, provavelmente (risos). Eu acordo cedo e eu penso muito, o tempo inteiro. Aí, vai.