Obra reúne 18 contos e personagens que enfrentam dilemas como desemprego e abandono familiar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Copacabana, Rio de Janeiro: conto de Luiz Ruffato mostra que ocupar um espaço na cidade traz tanto prazer quanto agonia — Foto: Brenno Carvalho RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A nova obra reúne 18 contos divididos em duas partes. A segunda seção resgata memórias inéditas de um ex-funcionário do Banco Mundial. Inspirada em versos de Ferreira Gullar, a narrativa explora a dualidade entre refúgio e cilada. Os personagens enfrentam dilemas como desemprego e abandono familiar. As tramas se passam em cenários que vão de Minas Gerais a Macau. A desterritorialização gera nos protagonistas uma profunda crise de identidade e solidão. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A imagem da capa de “Armadilhas”, livro de contos de Luiz Ruffato, provoca no leitor a sensação de ser um pedestre: é como se, caminhando por uma rua, olhássemos para cima e notássemos os muitos fios que se cruzam nos postes. A desordem parece transformar o céu em fragmentos que preenchem diversas formas geométricas, e a disposição delas lembra um labirinto, linhas que, apesar de se encontrarem, não sugerem organização; ao contrário, instigam a falta de direcionamento. Assim como os fios vistos no alto da cidade, os personagens são marcados por desvios de rotas em suas trajetórias. A obra tem como epígrafe os primeiros versos de um poema de Ferreira Gullar: “No mundo há muitas armadilhas/ e o que é armadilha pode ser refúgio/ e o que é refúgio pode ser armadilha”. O primeiro texto, o mais curto dos 18, sintetiza bem essa ideia, ao abordar uma história que se repete na sociedade: um homem jura amor eterno a uma mulher, mas, depois dos filhos, abandona a família. O amor, antes refúgio, revela-se armadilha. Esse jogo também molda o conto “Janeiro”, em que os personagens são pai e filho: diante das perguntas inquietantes do menino em um contexto de enfrentamento de separação e desemprego do pai, este responde com silêncio e mudança de assunto. A ausência de respostas e o limitado diálogo mostram que as estratégias paternas constituem uma fuga para as inocentes artimanhas criadas pelo filho, mas não é impossível pensar que essa fuga pode indicar alguma armadilha para a relação futura dos dois. ‘Morro da Pena Ventosa’, de Ruy Couceiro Com história bem-humorada e humana, autor retrata criança criada pela avó, com quem constrói a sua visão da realidade e do entorno. Com leveza e uma pitada de realismo mágico, romance é declaração de amor às histórias que atravessam gerações, às memórias e à resistência de quem luta para manter viva a alma de um lugar. Foto: Divulgação ‘Caetano Veloso — Transa’, de Mateus Baldi Gravado em 1971, durante o exílio de Caetano Veloso numa Londres cosmopolita, “Transa” transforma o desenraizamento em linguagem musical ao misturar português e inglês, samba, reggae, rock e o som nordestino, refletindo sua própria condição de expatriado. Foto: Divulgação ‘(In)finitudes’, de Eleonora C. Santos Depois de ser diagnosticada com um linfoma, a economista reuniu 19 histórias de pacientes com câncer e três depoimentos de pessoas que conviveram com vítimas da doença. O livro faz parte de um projeto de seis podcasts com reflexões sobre morte, espiritualidade a relações entre médicos e pacientes. Foto: Divulgação ‘Descontente’, de Beatriz Serrano Radiografia da crise existencial que muitos têm no trabalho, da solidão e da busca de sentido, com humor apurado e críticas à vida moderna. Em seu romance de estreia, escritora fala dos millennials e da geração Z. Um livro para quem busca amor e realização... ou força para se levantar numa segunda-feira e trabalhar. Foto: Divulgação ‘Nárnia — O sobrinho do mago’, de C.S. Lewis Releitura de C.S. Lewis, obra mostra o nascimento de Nárnia com o canto do leão e duas crianças. Ao tocarem anéis mágicos, vivem uma aventura em um lugar onde os animais falam, as árvores caminham, e Aslan, o grande leão, canta e dá vida a um novo mundo. Ilustração de Thai My Phuong; tradução de Elis Regina Emerencio. Foto: Divulgação Na mesma lógica, ocupar um espaço na cidade traz tanto prazer quanto agonia: “A missão” revela como os passos no corredor de um prédio na Zona Sul do Rio, abrigo temporário para um inquilino discreto e aparentemente desconhecido, provocam aflição no protagonista e no leitor que, juntos, respiram fundo. Lugares desconhecidos Dividido em duas partes, “O assombro dos dias” e “Um buquê de flores artificiais”, o livro dialoga com obras anteriores do autor, o que fica explícito na segunda seção, cujo título faz referência a outro livro seu de contos, “Flores artificiais”, cujas narrativas são inspiradas nas memórias relatadas a Ruffato por Dório Finetto, funcionário do Banco Mundial. Essas narrativas, que exploram as viagens de Finetto a países como Itália, Suíça e China, são as que não foram publicadas em “Flores artificiais”. Apesar da diferença geográfica, tanto os contos ambientados em Minas Gerais ou no Rio de Janeiro quanto os situados em terras estrangeiras reverberam a experiência urbana do projeto literário do escritor, característica tão presente no emblemático romance “Eles eram muitos cavalos”. Em “A noite passada”, a personagem que sai de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro “caminhou pelas areias da Praia de Copacabana, passou do lado de fora do Maracanã, andou na calçada em frente ao Hotel Glória”. O narrador de “O brasileiro de Otranto” decide “caminhar ao léu, melhor maneira de nos surpreender quando em terra estranha”, assim como ocorre em “O perdedor profissional”: “Resolvi explorar Macau a pé, que é o que sempre faço em lugares desconhecidos.” As expressões “terra estranha” e “lugares desconhecidos” sinalizam um aspecto proeminente do livro, a desterritorialização. Há, por exemplo, o filho que, exausto do trabalho em que é explorado por muito tempo, muda de vida e desaparece de casa; o homem que, interessado por uma moça vista com frequência no ponto de ônibus, deixa de vê-la depois que comenta a respeito dela com um amigo que vai trabalhar no Iraque; e o brasileiro que é enviado definitivamente para a Itália na época da Segunda Guerra Mundial. No conto “O presente de Sarah”, declara o narrador: “Cada vez mais me percebia habitando um não-lugar, desenraizado e solitário, estrangeiro no Brasil, estrangeiro nos Estados Unidos, estrangeiro onde quer que estivesse.” Os contos de Luiz Ruffato geram reflexões acerca do deslocamento, que é uma possibilidade de se desfazer de determinadas amarras, mas também fator de angústia e sensação de perda de identidade. Daí a epígrafe de Gullar: estar longe de casa pode ser um refúgio, mas também uma armadilha. Thaís Velloso é escritora, autora de “Teias no céu”, professora e doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ Serviço ‘Armadilhas’ Autor: Luiz Ruffato. Editora: Companhia das Letras. Páginas: 168. Preço: R$ 79,90. Cotação: Muito bom.