O emprego cresce, mas sobre base que ainda paga pouco. O avanço pode coexistir com a ausência de alívio material duradouro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Carteira de trabalho física ao lado de uma carteira de trabalho digital — Foto: Agência O Globo Os empregos criados no Brasil refletem o perfil da estrutura produtiva do país. O desafio, portanto, não é apenas gerar vagas, mas criar, em escala, empregos formais de melhor remuneração e qualidade — com produtividade, aprendizado, estabilidade e contribuição para uma transição socialmente justa. Há, inegavelmente, sinais relevantes de melhora no mercado de trabalho. A ocupação avançou, a massa de rendimentos cresceu, e indicadores como formalização e rendimento médio real alcançaram máximas históricas. A taxa de desemprego caiu para 5,6% no trimestre encerrado em maio — melhor resultado para o período na série. São avanços que ajudam a recolocar o trabalho e a renda no centro da agenda de desenvolvimento. Ainda assim, a confiança do consumidor segue baixa, e a sensação de aperto persiste. A explicação está na qualidade, não na quantidade. Os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) mostram que, entre 2012 e 2021, o mercado formal permaneceu apoiado em vínculos de baixa remuneração, sobretudo em comércio e serviços pouco sofisticados. Entre 2022 e 2024, embora a migração para o eSocial impeça comparação direta com a série, o padrão de concentração nas faixas mais baixas segue visível. Cerca de 75% dos postos assalariados formais se concentram na faixa de 1 a 3 salários mínimos — percentual observado em 2012, 2022 e 2024, último ano disponível na série do Ministério do Trabalho —, e foi nessa faixa que se concentrou a maior parte dos empregos criados entre 2022 e 2024. A geração recente de vagas convive com uma estrutura ocupacional historicamente marcada pelo baixo dinamismo na criação de postos mais bem remunerados. O aumento recente da formalização também exige contexto. A reforma trabalhista ampliou a flexibilidade ao permitir a terceirização de atividades-fim e ao criar o trabalho intermitente, com jornadas menores e irregulares. Disseminou-se, ainda, a figura de empregadores e trabalhadores por conta própria com CNPJ, notadamente via MEI — em muitos casos, alternativa de inserção e sobrevivência num mercado ainda frágil. O IBGE identificou que 70% dos MEIs tinham algum vínculo formal entre 2009 e 2022, e a maior parte sofreu demissão involuntária. Economias concentradas em serviços de baixa complexidade e de menor valor agregado tendem a produzir ocupações menos bem remuneradas. O emprego cresce, mas sobre uma base que ainda paga pouco. O avanço do emprego pode coexistir com a ausência de alívio material duradouro. Há outro fator decisivo: o bem-estar depende tanto da renda que entra quanto do gasto que pode ser evitado. Serviços públicos de qualidade funcionam como transferência de renda não monetária — uma “renda disponível estendida”. Quando saúde, educação, transporte e cuidados são ofertados gratuitamente e com qualidade, as famílias reduzem despesas essenciais e ampliam seu poder de compra real. É nesse ponto que a perenidade e a previsibilidade orçamentária da política industrial atual, orientada para a superação de gargalos sociais, deixam de ser temas setoriais e passam a ocupar lugar central na vida material das famílias. A retomada de instrumentos como Fundo Clima, FNDCT e o uso da Taxa Referencial para viabilizar inovação, digitalização e sustentabilidade pode impulsionar áreas de maior complexidade, gerando, em escala, ocupações de melhor remuneração. Os avanços recentes mostram que é possível combinar crescimento do emprego, recomposição da renda e reconstrução de capacidades estatais de indução ao desenvolvimento. A continuidade desse esforço é decisiva. Interrompê-lo comprometeria a melhora recente dos indicadores e a possibilidade de transformá-la em bem-estar duradouro. Os indicadores só serão sentidos de forma mais ampla quando a ampliação da renda do trabalho vier acompanhada do fortalecimento dos serviços públicos e da transformação estrutural da base produtiva, com geração de empregos melhores. *Marília Bassetti Marcato, professora do Instituto de Economia da UFRJ, é assessora da presidência do BNDES, João Hallak Neto, doutor em economia pela UFRJ, é integrante do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro