Pergunte a qualquer professor por que escolheu a profissão e a resposta quase sempre vai envolver alguma inspiração. PUBLICIDADEPode ter sido uma professora de matemática do fundamental que fez uma matéria complexa ganhar vida, ou um professor de história que transformou a decoreba de datas de eventos em narrativas épicas.Quem não teve a sorte de ter um professor assim costuma recorrer à ficção, como no caso do personagem de Robin Williams em Sociedade dos Poetas Mortos, com os alunos subindo nas mesas ao grito de “oh captain, my captain”. Nenhum professor escolheu a profissão pelo prazer de resumir livros didáticos e repetir conteúdos decorados para alunos com sono.A realidade da docência, no entanto, acabou sendo exatamente essa. A pressão do mundo industrial, com seus currículos padronizados e avaliações em massa, empurrou o professor para o papel de um mero resumidor de conhecimento. Leia também O custo duradouro de não levar a inteligência artificial a sérioA inteligência artificial começou a fazer descobertas e a ciência nunca mais será a mesmaA informação relevante estava primeiro nos livros e depois na internet, e assim o professor virou o intermediário entre o conhecimento acumulado pela humanidade e a cabeça dos alunos. Isso atrofiou o processo transformador da docência e afastou da profissão muitas pessoas com vocação.PublicidadeA IA está começando a mudar essa realidade de um jeito que pouca gente imaginava. As LLMs são resumidoras incríveis de todo o conhecimento humano e estão disponíveis a qualquer hora. Se o valor do professor estivesse em apenas transmitir a informação estabelecida, a profissão estaria condenada. O que estamos vendo nas escolas e universidades que estão adotando a tecnologia com responsabilidade é o oposto, e os professores estão redescobrindo o motivo pelo qual escolheram a profissão. Agora está sobrando tempo e demanda para motivar o aluno entediado por já saber a matéria, para perceber que aquele estudante calado do fundo da sala escreve bem e para identificar uma dúvida e transformá-la em um projeto.Com a IA, professores agora têm mais tempo para inspirarem os alunos e promoverem mais discussões Foto: Ahmad - stock.adobe.comO mesmo está acontecendo em outras profissões, como a medicina. Diagnosticar doenças é uma tarefa de reconhecimento de padrões em grandes volumes de dados, algo relativamente simples que o cérebro humano faz mal por suas limitações de memória e atenção. Os algoritmos fazem isso melhor, e está tudo bem. Médicos estão descobrindo que o seu real valor está em outro lugar, como em ouvir o seu paciente, em sentir o que os dados não medem, em apoiar uma família diante de uma notícia difícil, em direcionar decisões que envolvem valores e em tranquilizar quem chega ao consultório com medo. Existe uma ironia importante nisso tudo. Muitas pessoas passaram a última década temendo que as máquinas nos tornassem menos humanos, mas a tecnologia mais avançada que já existiu está produzindo o efeito oposto. PublicidadeOs professores que permaneceram na nossa memória não foram aqueles que conseguiram resumir melhor um capítulo, mas aqueles que enxergaram em nós um potencial que nem nós mesmos tínhamos percebido. Com a IA fazendo a parte fácil, a docência está de volta.Vale ler tambémO privilégio silencioso de quem tem poder dentro das empresasInflação volta a ficar abaixo do teto da meta, mas BC não dá pistas sobre novos cortes de jurosGênio da lâmpada: IA interpreta literalmente o que pedimos, sem levar em conta o que achamos óbvio