Ao declamar "O Navio Negreiro", Dona Edite colocava o ambiente em suspenso. Era como se a voz, o jeito e a figura daquela senhora negra, periférica e engajada adicionassem camadas ao poema de Castro Alves.
Quando chamada ao microfone, era recebida com aplausos e gritos. E, não raro, levava parte do público às lágrimas. Não à toa, portanto, ficou conhecida como Rainha da Cooperifa, sarau que foi referência cultural na zona sul de São Paulo por duas décadas.
Para os presentes, ela evocava lembranças da força, da sensibilidade e da sabedoria de uma avó, de uma mãe e de outras figuras afetivas. Foi chamada até mesmo de Carolina Maria de Jesus da oralidade.
O poeta Sergio Vaz descreve Dona Edite como alguém de "presença elevada", "uma ancestral viva". "Quando recitava, entoava uma voz de outras vidas. Não tinha como não se emocionar", diz ele, idealizador da Cooperifa.
De Pirapora, no interior de Minas Gerais, Dona Edite migrou adolescente para São Paulo. Estudou, envolveu-se em movimentos sindicais, culturais e católicos até que, por volta da década de 1980, começou a perder a visão, em parte por causa do diabetes.






