Conservar a natureza também significa gerar oportunidades econômicas, fortalecer comunidades 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O reservatório Paulo de Paiva Castro, que integra o sistema Cantareira — Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo/07/10/2025 Neste ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) avisou que o planeta entrou em estado de “falência global da água”. Num cenário de padrões climáticos cada vez mais instáveis, o diagnóstico reforça uma realidade que já se impõe no cotidiano brasileiro. Em São Paulo, o Sistema Cantareira iniciou o segundo semestre operando na faixa de alerta, entre 30% e 40% do volume útil, evidenciando o avanço da insegurança hídrica. O cenário reforça um ponto que aprendemos desde a infância: a água é condição básica para a vida. Proteger rios, nascentes e outras áreas estratégicas de nossos mananciais passa, necessariamente, pelo cuidado com os solos e com os ecossistemas que sustentam o ciclo da água. Um estudo conduzido pelo Movimento Viva Água na Bacia do Rio Miringuava, no Paraná, demonstra essa relação. Durante períodos de seca, a vazão dos rios em áreas degradadas pode cair até 52%, enquanto, em regiões com elevada cobertura de floresta nativa, a redução varia entre apenas 6% e 11%. Os dados reforçam a urgência da cooperação multissetorial para a adoção de soluções baseadas na natureza, voltadas à proteção de bacias hidrográficas e mananciais. Entre essas soluções estão a restauração de matas ciliares, a recuperação de áreas úmidas que funcionam como “esponjas naturais”, a proteção de florestas nativas e a recomposição da vegetação em áreas de recarga de aquíferos — iniciativas capazes de melhorar a infiltração da água no solo, reduzir o assoreamento dos rios e aumentar a resiliência hídrica dos territórios. A essas iniciativas somam-se práticas agrícolas sustentáveis e o fortalecimento de outras formas de empreendedorismo de impacto socioambiental positivo, fundamentais para conciliar produção, conservação e desenvolvimento econômico. A força dessa abordagem está justamente na articulação entre diferentes atores. Idealizado pela Fundação Grupo Boticário, o Movimento Viva Água reúne cerca de 50 organizações da sociedade civil, do setor privado, do setor público e da academia para desenvolver soluções integradas em bacias hidrográficas estratégicas nos estados de Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia. A partir de uma visão compartilhada do território, essas instituições definem prioridades, estruturam modelos de governança e mobilizam recursos para ampliar o impacto das ações. Na Baía de Guanabara (RJ), uma das iniciativas é conduzida pelo Sinal do Vale, que alia a restauração de florestas e manguezais ao fortalecimento de atividades como o turismo de base comunitária e os sistemas agroflorestais. A proposta demonstra que conservar a natureza também significa gerar oportunidades econômicas, fortalecer comunidades e ampliar a capacidade de adaptação às mudanças climáticas. Ao integrar conservação ambiental, adaptação climática e desenvolvimento sustentável, as soluções baseadas na natureza se afirmam como respostas concretas e efetivas economicamente à crise hídrica. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, 86% dos investimentos globais nessa agenda são públicos, enquanto 14% vêm do setor privado. Ampliar a conservação de ecossistemas exige, portanto, ação coletiva, cooperação entre setores e maior engajamento da sociedade, que deveria passar a entendê-la como estratégia diretamente ligada à geração de benefícios socioeconômicos, ao bem-estar social e à redução de riscos aos negócios. *Guilherme Karam é gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário