A geopolítica saiu das páginas especializadas e foi parar no noticiário diário. A guerra hegemônica entre Washington e Pequim, a “parceria sem limites” entre Rússia e China, o fechamento do Estreito de Ormuz, a tensão permanente em torno de Taiwan: o mundo mudou de eixo, e ainda não aprendemos a lê-lo direito. É nesse contexto que o diplomata Braz Baracuhy lança o livro Geopolítica global: o mapa estratégico do mundo contemporâneo, em debate imperdível no dia 13 de agosto, no Insper.Entender esse mapa não é exercício retórico para o Brasil: somos parceiros comerciais da China, vizinhos geográficos dos Estados Unidos, e só faremos bom uso da “autonomia estratégica” se soubermos autonomia em relação a quê.Na geopolítica, o mundo transitou do unipolarismo centrado nos EUA para um bipolarismo duradouro, articulado pela competição entre Washington, sob Donald Trump, e Pequim, sob Xi Jinping Foto: Daniel Torok/Casa BrancaPUBLICIDADEO livro se sustenta sobre duas teses centrais que se reforçam. Na geopolítica, o mundo transitou do unipolarismo centrado nos EUA para um bipolarismo duradouro, articulado pela competição entre Washington e Pequim. Na geoeconomia, a globalização baseada na eficiência e na liberalização dá lugar ao que o autor chama de bi-globalização geoeconômica, calcada na lógica fragmentária da segurança econômica.É a partir desses dois eixos que se lê o resto do livro: o mundo deixou de ser unipolar, atravessou uma década de desordem e entrou, a partir de 2025, num inescapável reordenamento EUA-China, sob um teto institucional cada vez mais frágil e esvaziado.Para entender esse tabuleiro, Baracuhy resgata dois clássicos da geografia política. Halford Mackinder defendia que quem controlasse o “Heartland”, o núcleo terrestre da Eurásia, comandaria o mundo. Nicholas Spykman argumentou o oposto: o decisivo é o “Rimland”, a faixa costeira asiática que concentra população, indústria e riqueza. PublicidadeOs dois mapas coexistem hoje: a Nova Rota da Seda chinesa é a conquista do Heartland por Pequim, com corredores terrestres que reduzem a dependência do mar e resolvem o “dilema de Malaca” – a vulnerabilidade chinesa de depender de um único estreito para a maior parte do seu comércio com o Ocidente. Os EUA seguem a lógica do Rimland, com alianças na orla asiática. É nesse contexto que Baracuhy cunha o “Mediterrâneo Chinês”: os três mares do entorno chinês que Pequim quer unificar, Taiwan incluída, antes de se tornar potência verdadeiramente global.No plano econômico, a lição cabe numa frase: quando a rivalidade cresce, como agora, países tratam como segurança nacional setores que antes eram só mercado – daí as recentes restrições em semicondutores, IA, big techs, robôs, minerais, energia e agro. Não é o fim do comércio global, mas uma nova divisão dele: parte segue integrada, parte é deliberadamente fragmentada.Leia tambémTrump usa tarifas como pressão sobre seus parceiros; como o Brasil pode lidar com isso?Como a crise atual deveria virar uma oportunidade de aprendizado para as famílias do agroOnde o Brasil se encaixa nesse novo mapa? O livro dedica pouco espaço à pergunta, mas indica um caminho: estamos fora do tabuleiro eurasiático central e dentro da esfera de influência americana, mantendo laços econômicos profundos com a China, sobretudo em commodities. Como fornecedor líquido de segurança alimentar, energética e ambiental para o planeta, somos ativo estratégico disputado pelas duas potências – nossos objetivos de longo prazo com os EUA no Hemisfério Ocidental convivem com laços sólidos com a China, e essa dupla vinculação, mais que fraqueza, é margem de manobra.PublicidadeComo já fazia, com pragmatismo, a diplomacia do Barão do Rio Branco há mais de um século, o Brasil precisa de realismo diante da sua posição geopolítica, e não de aspirações abstratas que a realidade não sustenta. PUBLICIDADENão há como escapar da rivalidade bipolar; há, sim, como navegá-la: diversificar mercados, negociar de forma proativa antes de retaliar, buscar acordos equilibrados que beneficiem ambos os lados, e manter equidistância prudente diante das esferas de influência em formação. Significa, sobretudo, sermos fornecedor seguro e confiável para quem quiser comprar o que produzimos: não é hora de escolher lado, é hora de sermos indispensáveis aos dois.Num momento dominado por polarizações midiáticas e reações intempestivas, Braz nos oferece algo raro e precioso: um mapa estratégico do mundo de hoje como ele é. Resta-nos achar a bússola certa para trilhar os melhores caminhos.Vale ler tambémOs arquitetos do agro: os brasileiros que ajudaram a tornar o País a referência global em alimentosBraskem rejeita proposta de empréstimo de US$ 700 milhões na reestruturaçãoValor Investimentos compra Aliança Corretora de Seguros e inaugura unidade em Limeira
Opinião | Onde o Brasil se encaixa no novo mapa estratégico do mundo contemporâneo?
O mundo mudou de eixo, e ainda não aprendemos a lê-lo direito: na bipolaridade EUA-China a receita é pragmatismo e equidistância








