Para especialistas, unidades de acolhimento devem funcionar como resposta emergencial, mas reintegração à sociedade exige conjunto de ações 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pessoa em situação de rua na Praça Saens Peña, na Tijuca — Foto: Fotos de Marina Calderon Entre as encostas do Maciço da Tijuca, os rios que atravessam a região e áreas de comércio movimentado, sete bairros formam o território conhecido como Grande Tijuca: Andaraí, Alto da Boa Vista, Grajaú, Maracanã, Praça da Bandeira, Tijuca e Vila Isabel cresceram de maneira interligada, compartilhando vias, serviços, equipamentos públicos e problemas urbanos. A Tijuca se consolidou como um importante centro comercial e de serviços, especialmente no entorno da Praça Saens Peña. Vila Isabel construiu uma identidade ligada ao samba e à boemia; o Andaraí se desenvolveu como bairro operário; e o Grajaú ganhou características predominantemente residenciais. Praça da Bandeira e Maracanã tornaram-se áreas de intensa circulação entre a Zona Norte e o Centro. As transformações aproximaram territórios com perfis sociais distintos e formaram uma região marcada pelo sentimento de pertencimento, mas também por contrastes de renda, infraestrutura e acesso a direitos. Quem passa todos os dias pelas proximidades do metrô da Praça Saens Peña se depara com uma realidade marcada pela vulnerabilidade e por histórias pouco conhecidas, mas que guardam algo em comum: a rua. Pode ser uma mulher que perdeu o emprego e já não consegue arcar com os custos de uma moradia ou um casal que veio à capital em busca de trabalho, mas acabou sem renda e sem ter para onde ir. As trajetórias são muitas. Hoje, entre as questões que atravessam esse território, a presença de pessoas em situação de rua na Grande Tijuca aparece como a principal preocupação dos leitores que participaram de uma enquete promovida pelo GLOBO. O tema recebeu 45,5% dos votos, à frente de roubos e furtos, citados por 36,6%. Sinais de trânsito apagados ficaram com 4,05%. O levantamento revela um assunto presente nas conversas de moradores e comerciantes da região. A percepção também aparece nas demandas recebidas pela Nova Tijuca, a Associação Empresarial e de Moradores da Grande Tijuca. Segundo o presidente da entidade, João Alberto Britto, tornaram-se mais frequentes, nos últimos três ou quatro anos, os relatos sobre pessoas dormindo em praças, calçadas, marquises e entradas de estabelecimentos. Pessoa em situação de rua dormindo em frente a Paróquia Santo Afonso, na Tijuca — Foto: Marina Calderon — A população em situação de rua cresceu de forma significativa no período pós-pandemia, não apenas na Grande Tijuca, mas em todo o Rio de Janeiro. Esse aumento tornou-se visível em ruas, praças e áreas comerciais — afirma. De acordo com Britto, a presença é observada, em diferentes proporções, em praticamente todos os bairros da região. O Alto da Boa Vista, no entanto, teria menor incidência em razão das características geográficas, da menor densidade populacional e do perfil predominantemente residencial. Entre as reclamações recebidas pela associação estão a permanência diante de prédios, residências e lojas, as condições de higiene em alguns pontos e abordagens insistentes ou agressivas após a recusa de pedidos de dinheiro ou alimentos. Para o sociólogo Dário de Sousa e Silva Filho, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é necessário separar essa realidade da discussão sobre segurança pública. Segundo ele, essas pessoas são frequentemente vítimas de violência e discriminação. — É necessário afastar o pressuposto de que toda pessoa na rua é um potencial agente de violência. Elas são, com frequência, sujeitas à violência — diz. O professor destaca que não há uma única trajetória que leve alguém às ruas. Desemprego prolongado, precarização do trabalho, violência doméstica, condições psiquiátricas, abandono familiar, expulsão de comunidades pelo tráfico ou pelas milícias e diferentes formas de perda da moradia estão entre as situações possíveis, todas agravadas pela pobreza. A maior visibilidade em determinados bairros também pode estar relacionada às estratégias de sobrevivência disponíveis. Regiões comerciais e de grande circulação oferecem mais possibilidades de obtenção de alimentos, doações, renda informal e abrigo temporário. — As áreas mais movimentadas envolvem trânsito de pessoas, visibilidade e serviços públicos que muitas vezes não estão disponíveis na periferia. Isso não significa que a maioria esteja nesses locais. Como são áreas geograficamente menores, a população concentrada ganha mais visibilidade — explica Silva Filho. A Secretaria municipal de Assistência Social informou que realiza abordagens diariamente nos sete bairros da Grande Tijuca. De janeiro a junho de 2026, foram contabilizados 13.504 atendimentos, que resultaram em 561 acolhimentos institucionais. Os registros não equivalem ao número total de pessoas atendidas. A secretaria explica que o mesmo indivíduo pode ser abordado ou acolhido mais de uma vez. A entrada em uma unidade de acolhimento também não é obrigatória e depende da concordância da pessoa atendida. Por isso, não é possível calcular, a partir desses números, uma taxa de aceitação das vagas. Pertences de pessoas em situação de rua na Praça Saens Peña, na Tijuca — Foto: Marina Calderon Nas abordagens, as equipes fazem busca ativa, escuta e atendimento individualizado. Entre os serviços oferecidos estão orientação para emissão de documentos, acesso a benefícios sociais e encaminhamento para acolhimento institucional. A assistência é complementada pelo Consultório na Rua, vinculado à Secretaria municipal de Saúde. As equipes, formadas por médicos, enfermeiros, assistentes sociais, técnicos de enfermagem e outros profissionais, prestam atendimento nos locais onde essa população permanece. O serviço oferece consultas, vacinação, testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis, curativos, administração de medicamentos e encaminhamentos para outros equipamentos da rede. Pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas são acompanhadas pela perspectiva da redução de danos. Em 2025, o Consultório na Rua realizou 50.308 atendimentos na Grande Tijuca. Desde o início de 2026, foram feitos cerca de dez mil, segundo a Secretaria municipal de Saúde. Para o Fórum Permanente de Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua, o volume de atendimentos evidencia a demanda, mas a abordagem social precisa estar articulada a políticas de saúde, moradia, trabalho e renda. O fórum reúne pessoas em situação de rua, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, pesquisadores, reprsentantes de universidades e pastorais. Sem vínculo com o poder público, atua na formulação de propostas, na cobrança do cumprimento das políticas vigentes e no encaminhamento de demandas à rede pública. Coordenador do fórum, Cláudio Santos diz que o município conta com apenas dois Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua, os Centros Pop, um no Centro e outro em Bonsucesso. A descentralização da rede, na opinião dele, poderia facilitar o acesso a benefícios, alimentação, higiene, saúde e acolhimento. Além disso, Santos afirma que as condições oferecidas explicam parte das recusas, sendo elas horários rígidos, a forma de tratamento e a falta de continuidade depois do pernoite. Teto, trabalho e tratamento: caminhos para sair das ruas Outro obstáculo é a separação de pessoas que vivem acompanhadas de cães, usados como companhia e proteção. A impossibilidade de levar o animal para determinadas unidades pode influenciar a recusa da vaga. Para Cláudio Santos, do Fórum Permanente de Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua, as políticas necessárias podem ser resumidas em três eixos: — A gente fala dos três “Ts”: teto, trabalho e tratamento. Quem passa muito tempo na rua precisa de moradia, acompanhamento de saúde e oportunidade de trabalho para reconstruir uma rotina. Mulher com seu cão em frente à Basílica de Nossa Senhora de Lourdes, em Vila Isabel — Foto: Marina Calderon A oferta de políticas habitacionais é apontada como um eixo primordial. Para o fórum, as unidades de acolhimento devem funcionar como resposta emergencial, sem substituir programas de aluguel social, moradia subsidiada ou inserção em projetos habitacionais. Dário Sousa e Silva Filho destaca que as respostas também precisam considerar a diversidade dos perfis encontrados nas ruas. Pessoas idosas, mulheres vítimas de violência, trabalhadores que perderam recentemente a renda e pessoas com transtornos mentais, por exemplo, demandam atendimentos diferentes. — Para cada perfil correspondem conjuntos de direitos dos quais essa população é privada. A conexão entre os serviços estatais é obrigatória para qualquer solução duradoura — diz. Na avaliação do professor, retirar pessoas de praças, calçadas e marquises sem oferecer alternativas apenas transfere a situação para áreas menos visíveis. Mas deixar de ser visível, frisa, não significa deixar de existir. O resultado da enquete, segundo Santos, não deve ser interpretado apenas como rejeição ou medo. Para ele, parte dos moradores também manifesta incômodo com o abandono e com a falta de respostas permanentes. Silva Filho chama a atenção ainda para a maneira como essa população é nomeada no debate público. — Se há situação de rua é porque vários direitos foram negligenciados pela pobreza, pela discriminação e também pela prática das instituições públicas. Ninguém é “morador de rua”, porque a rua é o avesso da moradia — afirma.