Copacabana é conhecida pelo mar, pelos hotéis, pelos bares cheios e pelo movimento constante de moradores e turistas. Mas, entre a areia da praia, as calçadas movimentadas e as ruas que nunca parecem dormir, existe uma realidade que dificilmente passa despercebida: a vida de centenas de pessoas em situação de rua que fazem do bairro também um lugar de sobrevivência. Com 45,25% das preferências, a presença de pessoas em situação de rua foi apontada como o principal problema de Copacabana pelos leitores que participaram de uma enquete promovida semana passada pelo O GLOBO, superando questões como trânsito, roubos e ocupação irregular das calçadas. O resultado revela uma preocupação legítima de quem vive no bairro, mas também abre espaço para uma reflexão: por trás de cada colchão improvisado na calçada existe uma trajetória diferente, quase sempre marcada por perdas, rupturas e ausência de políticas públicas capazes de impedir que alguém tenha a rua como último destino. Na enquete, o trânsito atribulado ficou em segundo lugar, com 18,03% dos votos, à frente da ocupação irregular de calçadas, com 16,22%. Na Rua Dias da Rocha há um homem que vive na rua, mas nunca pediu dinheiro para nenhum pedestre. Há alguns anos, aquela praça virou o seu endereço, e quem passa diariamente por ele costuma ouvir outro tipo de pedido. Às vezes, precisa de uma roupa. Em outras, aceita um prato de comida. O que realmente procura, no entanto, é trabalho. Antes da pandemia, era empacotador de um supermercado. Perdeu o emprego e, desde então, não conseguiu mais voltar ao mercado de trabalho. Aos pouco mais de 50 anos, diz que o que mais deseja é uma nova oportunidade, uma chance para reconstruir a própria vida. A história dele ajuda a entender uma realidade muito maior do que a imagem que muitos moradores encontram ao sair de casa todos os dias. A presença dessas pessoas no bairro revela uma questão que vai muito além da ocupação das calçadas. São histórias marcadas por rupturas familiares, dificuldades econômicas, problemas de saúde, falta de acesso a políticas públicas e, em muitos casos, pela tentativa diária de recuperar vínculos e autonomia. Embora pessoas em situação de rua possam ser encontradas em diferentes pontos de Copacabana, há áreas onde a concentração é mais evidente. Na orla, elas costumam permanecer próximas aos postos de salvamento, principalmente ao longo da Avenida Atlântica. Outro trecho de grande circulação fica no calçadão entre as ruas Figueiredo Magalhães e Siqueira Campos e, mais adiante, entre a Júlio de Castilhos e a Francisco Sá. No interior do bairro, a presença é frequente na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, especialmente nas proximidades das ruas Santa Clara, Dias da Rocha, Barão de Ipanema e Hilário de Gouveia. No Bairro Peixoto, um dos pontos mais tradicionais de Copacabana, também é comum encontrar pessoas em situação de rua, sobretudo nas imediações das ruas Anita Garibaldi e Maestro Francisco Braga. A percepção de moradores e comerciantes de Copacabana sobre a presença da população em situação de rua aparece também nas demandas recebidas pela Sociedade Amigos de Copacabana (SAC). Para Horácio Magalhães, presidente da associação, o resultado da enquete do GLOBO confirma uma preocupação que já vinha sendo observada no cotidiano do bairro. Segundo ele, a entidade recebe reclamações de moradores por diferentes canais de comunicação, como redes sociais e e-mails, e o tema aparece entre as principais preocupações de quem vive na região. — A pesquisa feita pelo jornal, que deu em primeiro lugar como o principal problema do bairro a população em situação de rua, não foi absolutamente surpresa para nós, porque já tínhamos essa percepção pela quantidade de demandas e reclamações dos moradores que nos são encaminhadas pelas nossas redes sociais, por e-mail, de toda forma — diz. Embora reconheça que a questão esteja diretamente ligada à assistência social, o presidente da SAC defende que o enfrentamento do problema precisa envolver outras áreas, principalmente saúde e segurança pública. — Essa questão da população em situação de rua é um problema da assistência social. No entanto, ele tem reflexo em outras competências. Uma parte significativa é dependente de drogas, dado atestado por uma pesquisa feita pela própria prefeitura, por meio da Secretaria municipal de Assistência Social. Então, é um problema de assistência social, mas tem reflexo também na saúde, e essa vertente precisa ser trabalhada — afirma. Homem dormindo no canteiro central da Avenida Atlântica durante o dia — Foto: Domingos Peixoto Magalhães acrescenta que existem diferentes situações dentro da população em situação de rua e que algumas pessoas podem estar envolvidas em práticas criminosas. Por isso, defende que o poder público tenha protocolos específicos para cada caso. — Existe uma parcela de pessoas em situação de rua que se vale da condição de rua para cometer pequenos roubos e furtos, pequenos crimes, e às vezes até crimes graves. Já foram amplamente noticiados fatos graves, com esfaqueamento. Ou seja, crimes violentos — afirma. A discussão sobre segurança, porém, é um dos pontos que especialistas apontam como um dos mais delicados no debate sobre população em situação de rua. Para o professor Dário Sousa e Silva Filho, do Departamento de Sociologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é preciso separar o atendimento social da associação automática entre estar na rua e representar uma ameaça. — Uma das grandes dificuldades que vamos debater é separar o atendimento à população em situação de rua da questão policial. Estar na rua não é sinônimo de ser transgressor da rua. Essa população é muito mais vítima da violência do que perpetuadora — afirma. Antes de discutir soluções, segundo o pesquisador, é necessário compreender que a população em situação de rua não é homogênea. As trajetórias que levam alguém a viver nas ruas são diferentes e podem envolver desemprego, conflitos familiares, violência, problemas de saúde mental, dependência química ou ausência de uma rede de proteção. Histórias por trás das estatísticas A percepção de que há mais pessoas vivendo nas ruas de Copacabana é frequente entre moradores e comerciantes, mas transformá-la em dado exige cautela, segundo especialistas. Para o professor Dario Sousa e Silva Filho, do Departamento de Sociologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), comparações feitas em períodos diferentes podem levar a conclusões equivocadas, já que a dinâmica dessa população sofre influência de fatores sazonais. — Quando falamos em aumento, precisamos de uma distinção metodológica. É preciso ter um momento zero para comparar como era e como passa a ser. A presença dessas pessoas em determinadas áreas é sazonal. Você não faz a contagem de junho com julho e agosto; faz uma comparação de julho deste ano com julho do ano passado — explica. Além do período analisado, as condições climáticas e o fluxo de turistas alteram a circulação dessa população pela cidade. — Essas pessoas estão sujeitas às intempéries. Se tem um inverno seco, tem presença maior das pessoas na cidade. Se é chuvoso, tende a ser menor. No verão, a população em situação de rua triplica nas áreas turísticas, porque tem gente que vem de outras cidades — diz. Sombra no canteiro central. As árvores são pontos procurados por pessoas em situação de rua — Foto: Domingos Peixoto Para o sociólogo, porém, independentemente das oscilações observadas ao longo do ano, o foco não deve estar apenas nos números. — Ainda que haja um aumento, a situação é grave em qualquer lugar quando há gente vivendo em situação de rua — afirma. Se Silva Filho chama a atenção para a necessidade de interpretar corretamente os dados, a assistente social Thaysa Nascimento, coordenadora do Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), convida a olhar para quem está por trás das estatísticas. A instituição, que atende crianças, adolescentes, idosos, pessoas em situação de rua, pessoas acometidas por hanseníase e pessoas vivendo com HIV, começou distribuindo refeições no Largo da Carioca. Na época, chegava a servir cerca de duas mil refeições por dia. Desde 2023, funciona em uma sede própria, no Centro, onde oferece alimentação, banho, atendimento técnico e atividades de convivência, como capoeira, artesanato, alongamento, oficinas de saúde, reciclagem, customização de roupas e segurança alimentar, além de ações voltadas à reinserção no mercado de trabalho. No atendimento diário, Thaysa percebeu uma mudança importante no perfil de quem procura ajuda depois da pandemia. — Antes da pandemia era um outro perfil. A pandemia mudou isso. Tem pessoas que não conseguiram voltar para o mercado de trabalho, alguns perderam os vínculos familiares, outros migram para o Rio na expectativa de vencer na vida, arrumar emprego, e isso não acontece. Elas não têm condições de voltar para casa — resume. Para ela, um dos maiores desafios é romper a ideia de que a população em situação de rua representa apenas um problema urbano. — É muito complicado fazer essa separação de que as pessoas apontam um ser humano como um problema. É um problema porque é um ser humano? Ou é só porque está ali sentado e atrapalha a minha paisagem? Acho que precisamos entender o lugar do outro. A rua desumaniza muito. Ninguém é feliz passando por dores, fome, frio e medo. A rua é violenta, não só a violência física, mas também a mental. A solidão também é cruel — afirma. Sefras. Aulas de artesanato e outras atividades oferecidas pelo serviço — Foto: Divulgação/Sefras As histórias que chegam ao Sefras mostram que não existe um perfil único. Há pessoas que perderam o emprego, romperam vínculos familiares ou migraram para o Rio em busca de oportunidades. Outras possuem ensino superior, falam outros idiomas e já tiveram carreiras consolidadas. — Tem uma questão diferente, muita gente em situação de rua tem nível de escolaridade muito bom, fala três línguas, já viajou para outros países. Hoje você encontra doutores na rua. Essa dificuldade pode chegar para qualquer pessoa — diz. Na avaliação do professor da Uerj, políticas públicas eficientes passam pelo reconhecimento de que não existe uma solução única para um problema marcado por trajetórias muito diferentes. — Uma solução para uma mulher de 60 anos não é igual a uma solução para uma mulher de 25 anos. Primeiro é importante que aconteçam levantamentos para levar a uma triagem e para avaliar o tipo de intervenção pública para essa população — explica. O pesquisador também defende que as pessoas em situação de rua participem da construção das políticas destinadas a elas. — Não tem solução para o problema quando não se envolve o afetado. É importante que essa população seja ouvida. A preocupação dos moradores e as preocupações das pessoas que vivem nas ruas não são diferentes, elas também querem segurança, querem um bairro acolhedor, querem serviços — destaca. Entre os exemplos citados por ele estão a falta de banheiros públicos e de acesso à água potável, carências que atingem não apenas quem vive nas ruas, mas toda a população. — Não temos banheiro público na cidade nem para a população em situação de rua, nem para uma pessoa qualquer. Quando pensamos em recursos gratuitos como banheiro e água potável, estamos falando de serviços para o conjunto da população. Nossa cidade é pouco acolhedora, inclusive ouvimos isso de turistas — observa. Pedido de ajuda. Homem em situação de rua exibe cartaz — Foto: Domingos Peixoto Ao defender uma atuação integrada do poder público, Horácio Magalhães, da Sociedade Amigos de Copacabana, afirma que a resposta ao problema depende da articulação entre diferentes áreas. — É importante que todos os entes com competência para tratar esse assunto, assistência social, saúde, forças policiais, Ministério Público e até o Poder Judiciário trabalhem essa vertente. Se ficar cada órgão trabalhando só uma parte do problema, a percepção do cidadão é de que nada acontece. É preciso estabelecer protocolos e formas de abordagem conjunta, respeitando os direitos das pessoas em situação de rua, para dar mais efetividade ao tratamento e à abordagem dessas pessoas — opina. A Secretaria Municipal de Assistência Social (Smas) informa que, de acordo com o Censo da População em Situação de Rua 2024, o município do Rio de Janeiro registrou 8.195 pessoas em situação de rua. Em Copacabana, foram identificadas 341 pessoas, um aumento de 3,65% em relação ao levantamento anterior. Ainda de acordo com o órgão, as equipes de Abordagem Social da Smasatuam diariamente em Copacabana, em diferentes turnos, realizando busca ativa, escuta qualificada e atendimento individualizado. São ofertados serviços como acesso à documentação, benefícios socioassistenciais e acolhimento institucional. A adesão aos serviços é voluntária, não havendo remoção compulsória. As ações são realizadas de forma integrada com outros órgãos municipais e têm como objetivo promover a saída das ruas por meio do acolhimento institucional ou da reinserção familiar, comunitária e social. Em 2026, até o momento, foram realizadas 8.622 abordagens sociais no bairro, resultando em 510 acolhimentos. A SMAS ressalta que uma mesma pessoa pode ser abordada mais de uma vez, uma vez que o trabalho é contínuo e baseado na construção de vínculos. Entre os principais fatores que dificultam a adesão ao acolhimento estão o uso de substâncias psicoativas e a permanência nas ruas como forma de obtenção de renda. Nesses casos, a SMAS atua de forma articulada com os Consultórios na Rua (CNAR) e a rede de saúde mental do município. A Secretaria afirma que mantém o acompanhamento técnico das pessoas em situação de rua, com encaminhamentos para a rede socioassistencial, regularização documental, acesso a programas sociais, qualificação profissional, oportunidades de trabalho e reinserção familiar ou comunitária. Completa que nos últimos anos, o município ampliou a rede de acolhimento e aprimorou os serviços ofertados, de acordo com as necessidades identificadas. A SMAS também reforça que responde às demandas encaminhadas pela população e organiza sua atuação em todo o município, destinando maior concentração de equipes à Zona Sul em razão da maior incidência de pessoas em situação de rua apontada pelo Censo. A assistência à população em situação de rua é feita também pelo Consultório na Rua, da Secretaria Municipal de Saúde, que realiza ações de promoção, prevenção, e acompanhamento em saúde para essas pessoas em Copacabana e também nas demais regiões da cidade. As equipes multiprofissionais (médicos, enfermeiros, assistentes sociais, técnicos de enfermagem, entre outros) realizam acompanhamento médico e testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis, administram medicamentos, atendem pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas na perspectiva da redução de danos, ofertam vacinação, curativos e também encaminham para outros serviços da rede, incluindo abrigamento, quando há a concordância do usuário. Em 2025, a equipe do Consultório na Rua de Copacabana realizou 11.321 atendimentos à população em situação de rua. Desde o início de 2026, já foram realizados cerca de 5 mil atendimentos, garantindo o acesso à saúde e a continuidade do cuidado dessa população, buscando condições para a ressocialização e resgate da cidadania.