Para que serve o abono, então? Desculpem-me as almas cândidas, mas serei franco e direto: para nada 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Faz parte do jogo democrático, no contexto do debate, ter pessoas que não gostam da gente. Quando se participa da discussão de temas controversos, é inevitável. Nesse sentido, sou consciente de que uma das críticas de que sou objeto no debate é: “Giambiagi diz sempre a mesma coisa”. Tento encarar as críticas com filosofia e sou o primeiro em reconhecer: é verdade. O problema é que isso reflete um problema que não é meu e sim do país. O jornal me abriu a possibilidade, neste espaço, de expor o conjunto de propostas que estou trazendo quinzenalmente para os leitores, com ideias acerca de que medidas fiscais aprovar em 2027. E quem se der ao trabalho de comparar a agenda com a que fiz neste mesmo espaço nas eleições de 2022, notará o paralelo óbvio com a temática atual. O que me remete a uma velha frase de um conhecido colega do mercado financeiro que uma vez, numa rodinha de cafezinho na qual eu estava participando, disse uma frase genial: “O Brasil é um país onde você passa quinze dias de férias fora e muda tudo, mas passa quinze anos fora e não muda nada”. Vamos ao tema de hoje. O que é o “abono”? Uma remuneração extra, uma espécie de “décimo quarto salário”, paga — pelo Tesouro — aos trabalhadores de menor remuneração no mercado formal. Nas minhas palestras, lidando com a “fama de mau” que alguns críticos me atribuem, costumo brincar dizendo “sou ortodoxo, mas não idiota”. Não preciso que me expliquem por que o abono é popular entre os trabalhadores de baixa renda, porque é óbvio. A questão é outra. É tentar encontrar uma resposta que faça sentido para uma pergunta simples: para que serve o abono? Ou seja, o que se deseja com ele? Qual é sua eficácia? O abono salarial é uma política pública. Seu custo? Nos últimos dez anos, R$ 207 bilhões (a valores correntes). Em 2025, R$ 31 bilhões. O que se pretende com ele? O cidadão comum pode fazer algumas hipóteses. Pensemos em três dramas sociais: miséria, precariedade e desemprego. Então, será que com o abono o país pretende reduzir a pobreza extrema? Não, porque quem recebe o abono não é extremamente pobre. Talvez, diminuir a informalidade no mercado de trabalho? Evidentemente, também não, porque quem recebe o abono não é um trabalhador informal. Por último, quiçá, combater o desemprego? Menos ainda, porque quem recebe o abono está empregado. Para que serve o abono, então? Desculpem-me as almas cândidas, mas serei franco e direto: para nada. “Você está querendo dizer, Fabio, que o abono é imoral?”. De modo algum: tenho bom senso. O que estou querendo, neste nosso diálogo quinzenal com o leitor, é transmitir um conjunto de mensagens ligadas entre si: i) o país tem um déficit público que, em 2026,vem sendo de quase 10% do PIB; ii) uma das principais despesas é a de juros; e iii) a Selic provavelmente cairá em 2027, mas precisamos tomar medidas fiscais que permitam que ela continue caindo em 2028 e 2029. Isto posto, se a despesa primária — tirando juros — do governo federal é da ordem de 19% do produto e ela precisa cair como proporção do PIB, a questão é: o que o país vai fazer? Reduzir a relação entre as despesas com saúde e o PIB? Cortar as aposentadorias? Diminuir a já escassa verba alocada para o combate à violência? Reduzir o valor absoluto das transferências do Fundeb? Nos últimos anos, cresceu muito a importância do que se denomina de “Economia baseada em evidências”. Talvez fizesse mais sentido pensar em cortar R$ 30 bilhões de uma despesa acerca da qual não há uma única evidência de que atenda aos objetivos de qualquer política social. O presidente Lula sabe isso perfeitamente. E a oposição também. Como fazer? Não há como não ser por meio de uma proposta de emenda constitucional (PEC). A proposta? Reduzir o benefício gradualmente, ao longo de quatro anos. É algo lógico e plenamente defensável — desde que o país escolha ser um pouco mais cartesiano e menos macunaímico. A ver.
AGENDA 2027 (VII): O abono salarial
Para que serve o abono, então? Desculpem-me as almas cândidas, mas serei franco e direto: para nada







