A morte de um patriarca costuma funcionar no teatro como um divisor de águas: cessa a autoridade central e emerge a necessidade de inventariar o passado. É sobre essa premissa que se estrutura a peça "Entre Irmãos", escrita por Otávio Martins e dirigida por Marcos Damigo. A montagem, que reúne Martins e Fernando Pavão em cena, celebra a amizade de longa data do trio criativo ao transformar um velório no cenário para o embate entre dois irmãos afastados há duas décadas e meia.

A dramaturgia adota uma estrutura baseada em vetores opostos de comportamento, dividindo os argumentos de forma equivalente entre as personagens. O irmão mais velho, interpretado por Otávio Martins, assumiu a responsabilidade de cuidar da casa e do pai idoso, construindo sua trajetória sobre a renúncia dos projetos pessoais e o acúmulo de um ressentimento focado no abandono familiar. Em contraposição, o caçula, vivido por Fernando Pavão, tornou-se fotojornalista internacional e utilizou a distância geográfica como mecanismo de defesa contra o ambiente paterno.

A tensão entre o dever assumido e a fuga voluntária expõe visões conflitantes sobre a mesma história. Enquanto o mais velho enxerga a carreira do caçula como covardia, o mais novo aponta a conivência do irmão que permaneceu diante das falhas e excessos do pai. O confronto ganha complexidade quando uma revelação sobre o passado vem à tona durante a vigília, alterando a percepção que ambos mantinham sobre a dinâmica familiar.