No discurso de confirmação da sua candidatura à reeleição, no último domingo, Lula alvejou as emendas parlamentares, que, na casa de R$ 50-60 bilhões no ano, configuram uma das mais espinhosas encrencas fiscais-orçamentárias do Brasil. O problema foi criado, em termos da sua magnitude, na história recente: o volume atual é pelo menos o quíntuplo, em termos reais, do que era praticado há pouco mais de dez anos.PUBLICIDADEO atual presidente está certo em querer atacar a questão das emendas num eventual quarto mandato. Com critérios pouco transparentes e destinação paroquial, as emendas desviam um caminhão de dinheiro público que poderia ser integrado numa estratégia mais racional e ambiciosa de investimento do Estado no Brasil.A multiplicação das emendas é uma das dificuldades fiscais que o próximo governo terá que enfrentar, e que tende a fugir do controle do Executivo. Outra frente problemática com essa mesma característica, talvez ainda mais complicada de solucionar do que a das emendas, é a dos gastos de Estados e municípios. Em seu terceiro mandato, aliás, Lula colocou lenha nessa fogueira ao lançar o Propag, programa extremamente generoso de renegociação da dívida dos Estados.No primeiro trimestre de 2026, Estados e municípios gastaram R$ 703,8 bilhões, 22% a mais (ou R$ 127,7 bilhões) que o governo central orçamentário, conceito que exclui diversos tipos de transferências para os entes subnacionais. No primeiro trimestre de 2010, a diferença, a favor de Estados e municípios, foi de R$ 62,8 bilhões, ou 15%.O cenário fiscal de Estados e municípios passou por uma transformação profunda nos últimos anos, impulsionado inicialmente por compensações federais que superaram de longe as reais necessidades do período pandêmico. O Congresso Nacional também contribuiu com iniciativas como a ampliação do Fundeb, que saiu de um valor anual de aproximadamente R$ 20 bilhões para R$ 70 bilhões, em termos reais.PublicidadeAdicionalmente, o desempenho das finanças locais ganhou fôlego próprio com o aumento de cerca de R$ 180 bilhões no recolhimento de impostos locais em comparação com o período anterior à pandemia. Essa bonança financeira foi complementada por ganhos substanciais com desestatizações e leilões de infraestrutura, além de decisões judiciais favoráveis que reduziram drasticamente ou suspenderam temporariamente os desembolsos com as parcelas das dívidas renegociadas junto à União.No atual ciclo eleitoral, segundo artigo recente do economista Bráulio Borges (4intelligence e FGV-IBRE) no Observatório de Política Fiscal do IBRE, a evolução do gasto primário federal até o primeiro trimestre deste ano - na comparação com eleições anteriores - tem sido mais forte do que a dos Estados e municípios. Mas o nível de despesa dos entes subnacionais já parte de um nível muito elevado depois do salto sem precedentes no ciclo eleitoral (federal e estadual) de 2021-2023.A política federativa sempre foi um terreno escorregadio para o Executivo nacional no Brasil. A reforma tributária, por exemplo, exigiu uma costura entre os entes da Federação que levou décadas para ser desenhada e implementada. Lula, em eventual quarto mandato, terá mais esse desafio - o do gasto subnacional - para enfrentar, junto com as emendas e o problema fiscal central do gasto obrigatório que cresce mais rápido que o teto do arcabouço.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/8/2026, terça-feira.Publicidade