O Republicanos decidiu nesta terça-feira não integrar a coligação de Flávio Bolsonaro (PL) e adotar uma posição de “independência institucional” na disputa pela Presidência da República. A decisão, definida após consulta aos diretórios estaduais e formalizada durante a convenção nacional da legenda em Brasília, representa mais um revés para a tentativa do presidenciável de ampliar sua aliança e elimina a possibilidade de a ex-presidente da Caixa Daniella Marques ocupar a vice de sua chapa. Dos 27 diretórios estaduais consultados pelo presidente do Republicanos, Marcos Pereira, 17 defenderam a neutralidade na eleição presidencial. Outros nove se manifestaram pelo apoio a Flávio e apenas um, o diretório de Pernambuco, comandado pelo ministro Silvio Costa Filho, pela adesão à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). — Consultei os 27 diretórios e 17 se posicionaram a favor da neutralidade. Nove pelo apoio a Flávio Bolsonaro e um pelo apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não posso deixar de dizer qual é, né, ministro Silvio Costa Filho? Pernambuco — afirmou Pereira. No encontro, estiveram presentes lideranças da legenda como Costa Filho e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, candidato a deputado federal por Minas Gerais, que foi mencionado por Pereira durante o evento. Em nota divulgada após a convenção, o Republicanos afirmou que a decisão levou em consideração as diferentes alianças construídas pela legenda nos estados e a necessidade de preservar a autonomia de seus diretórios. Segundo o partido, sua presença em todas as unidades da Federação exige que as particularidades regionais sejam consideradas na definição da estratégia nacional. “A posição de independência na disputa presidencial não representa ausência de princípios nem de posicionamento político”, afirmou a legenda, que classificou a decisão como resultado de um “processo coletivo, transparente e democrático”. A direção também destacou como prioridade ampliar suas bancadas na Câmara e no Senado. A avaliação interna é que a liberdade dos diretórios na eleição presidencial reduz o risco de conflitos com alianças estaduais e favorece os projetos locais da sigla. A decisão foi tomada depois de semanas de investidas de Flávio sobre a cúpula do Republicanos e de uma última tentativa de reverter o cenário na véspera da convenção. Na segunda-feira, o senador, o coordenador de sua campanha, Rogério Marinho (PL-RN), e o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, se reuniram com Pereira em Brasília. O encontro terminou sem acordo. Pereira informou aos interlocutores que a consulta aos estados já apontava uma maioria resistente à aliança nacional. O dirigente evitou antecipar formalmente a decisão antes da convenção, mas deixou claro o tamanho da resistência interna que Flávio precisaria reverter. Na reta final, a campanha tentou usar inclusive a melhora do senador nas pesquisas como argumento para convencer o Republicanos e outras legendas de que ele permanece competitivo contra Lula. A leitura levada aos dirigentes partidários foi de que embarcar na candidatura ainda no primeiro turno poderia garantir maior espaço em um eventual governo. O argumento, porém, não foi suficiente para alterar a posição da maioria. Daniella era aposta de Flávio para a vice A decisão do Republicanos também elimina uma das principais alternativas de Flávio para a vice. O senador vinha defendendo o nome de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa no governo Jair Bolsonaro e recém-filiada à legenda, mesmo diante das sucessivas sinalizações de Marcos Pereira de que o partido não pretendia embarcar na candidatura presidencial do PL. Daniella chegou a ser uma das principais apostas de Flávio para formar uma chapa com uma mulher e, ao mesmo tempo, atrair uma legenda para sua coligação. A filiação ao Republicanos, porém, acabou se transformando em um obstáculo: como o prazo para troca de partido já terminou, sua presença na chapa dependia necessariamente do aval da sigla. A investida provocou incômodo entre dirigentes do Republicanos. Daniella havia ingressado no partido sem que uma eventual indicação para a vice tivesse sido previamente acertada com Pereira, e integrantes da cúpula resistiram à tentativa de transformar sua filiação em um fato consumado capaz de empurrar a legenda para a candidatura de Flávio. Mesmo diante dessa resistência, o presidenciável manteve Daniella entre suas opções e, nos últimos dias, ainda dizia a interlocutores que tentaria convencer o Republicanos. A decisão desta terça-feira encerra essa possibilidade. Centrão resiste a Flávio O revés se soma a uma sequência de negativas recebidas pela campanha às vésperas do fim do período de convenções. Na semana passada, o PP decidiu manter a neutralidade e barrou a tentativa da senadora Tereza Cristina (MS) de obter autorização para integrar a chapa de Flávio. A parlamentar havia comunicado disposição de aceitar a vice, mas uma consulta aos diretórios estaduais mostrou maioria contrária à entrada do partido na coligação. Tereza era considerada pelo PL o nome ideal para o posto por reunir trânsito com o Centrão, proximidade com o agronegócio e potencial para ajudar Flávio a reduzir resistências entre o eleitorado feminino. A tentativa de atraí-la, porém, provocou reação de dirigentes do PP, que acusaram reservadamente o presidenciável de tentar criar um fato consumado antes de obter o aval da legenda. O União Brasil, que integra uma federação com o PP, também caminha para a neutralidade. Com isso, perdeu força a tentativa de atrair a União Progressista, considerada durante meses uma das principais possibilidades de ampliar a coalizão de Flávio. Outra frente ainda aberta é o Podemos. Depois do fracasso da articulação por Tereza, intermediários ligados ao senador retomaram contatos com a presidente da legenda, Renata Abreu. O partido, contudo, também vem indicando preferência pela neutralidade. Vice segue indefinida A sucessão de negativas aumenta a possibilidade de Flávio terminar o período de convenções com uma chapa pura do PL, cenário que dirigentes da própria legenda já passaram a admitir. Dentro do partido, Marcos Pontes ganhou força nos últimos dias como alternativa para a vice. O senador por São Paulo é defendido por uma ala por não precisar abandonar um projeto eleitoral próprio neste ano e por sua trajetória como astronauta e ex-ministro da Ciência e Tecnologia. Há, porém, resistência na ala feminina da campanha. Flávio passou meses dizendo que gostaria de ter uma mulher como vice, e integrantes desse grupo avaliam que abandonar a preferência na reta final poderia representar um “tiro no pé”, especialmente diante das dificuldades que o candidato enfrenta entre o eleitorado feminino. Entre as alternativas do próprio PL já discutidas estão as deputadas Bia Kicis e Julia Zanatta e a ex-secretária Sonaira Fernandes. Bia, porém, não demonstra disposição de abandonar sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, enquanto Julia é considerada por integrantes da campanha um nome excessivamente identificado com a ala ideológica do bolsonarismo. Sonaira, que chegou a ser cotada para a vice de Ricardo Nunes na eleição municipal de São Paulo em 2024, entrou mais recentemente nas conversas. Com Daniella agora fora do tabuleiro e as demais tentativas de alianças ainda sem resultado, o relógio passou a pressionar a campanha. O período de convenções termina nesta quarta-feira, deixando Flávio com pouco mais de um dia para definir se ainda conseguirá atrair outra legenda ou se partirá para a eleição com uma chapa formada apenas pelo PL.
Após investidas de Flávio, Republicanos decide pela neutralidade e frustra tentativa de ampliar aliança na reta final
Partido era uma das últimas apostas do presidenciável para atrair uma legenda de fora do PL e abrir caminho para Daniella Marques na vice













