Uso de ATACMS e PrSM levanta preocupações sobre a capacidade militar americana para responder a futuras crises e enfrentar adversários como China e Rússia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Os Estados Unidos autorizaram no domingo a Ucrânia a utilizar mísseis de longo alcance de fabricação americana contra o interior da Rússia, conhecidos como ATACMS — Foto: John Hamilton / DoD / AFP Os Estados Unidos utilizaram grande parte dos seus estoques de mísseis de precisão de longo alcance durante os cinco meses de guerra contra o Irã, disseram três pessoas familiarizadas com os dados à agência Reuters. De acordo com duas das fontes, o Exército americano empregou “praticamente todos” os mísseis superfície-superfície conhecidos como Army Tactical Missile Systems (ATACMS) e Precision Strike Missiles (PrSM), o que levanta preocupações sobre a prontidão das Forças Armadas para futuros conflitos. A dimensão da redução dos estoques de ATACMS e PrSM ainda não havia sido divulgada. Essas munições são parte importante do arsenal militar dos EUA por permitirem ataques precisos a longas distâncias. Os ATACMS fornecidos por Washington tiveram papel relevante na guerra da Ucrânia ao permitir ataques contra alvos em território russo. Já o PrSM é uma geração mais recente de mísseis, desenvolvida para substituir o ATACMS, cuja autonomia é menor. Analistas afirmam que esse tipo de armamento, cujo custo supera US$ 1 milhão (R$ 5 milhões) por unidade, seria fundamental em um eventual conflito com a China. Não foi informado quantas unidades de cada tipo de míssil ainda permanecem nos estoques dos EUA. O presidente americano, Donald Trump, iniciou a guerra contra o Irã em conjunto com Israel em fevereiro. Na ocasião, o republicano previa que o conflito teria curta duração, mas, com a continuidade da ofensiva, três fontes disseram estar preocupadas com a possibilidade de que a redução dos estoques limite a capacidade dos Estados Unidos de dissuadir adversários, entre eles Rússia e China. Uma quarta fonte afirmou que o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom), responsável pelas operações militares americanas no Oriente Médio, praticamente esgotou seus mísseis terrestres. O comando, disse, conseguiu reabastecer seus estoques com armamentos transferidos de outras regiões onde as Forças Armadas dos EUA mantêm reservas. As fontes falaram sob condição de anonimato. Procurada, a Casa Branca divulgou uma declaração de Trump afirmando que os EUA possuem “muito mais munições do que qualquer outro país do mundo”, acrescentando que as empresas do país estão, “neste momento, produzindo mais munições do que jamais produziram antes, além de expandirem suas fábricas e equipamentos em níveis recordes”. Estoques limitados Analistas concordam que a produção de determinadas munições, incluindo projéteis de artilharia e diferentes tipos de mísseis, atingiu níveis recordes. Eles alertam, porém, que os estoques ainda podem estar muito abaixo do necessário para sustentar uma guerra prolongada. Em resposta à agência Reuters, o principal porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, afirmou que “a força militar dos Estados Unidos é a mais poderosa do mundo e tem tudo de que precisa para atuar”. — Realizamos diversas operações bem-sucedidas em diferentes comandos de combate, ao mesmo tempo em que garantimos que as Forças Armadas dos EUA mantenham um amplo arsenal de capacidades para proteger nosso povo e nossos interesses. A Lockheed Martin, fabricante dos ATACMS, dos PrSM e do sistema antimísseis THAAD, não comentou o assunto. A Raytheon, fabricante dos mísseis Tomahawk e dos interceptadores Patriot, também não respondeu aos pedidos de comentário. Os dados sobre os estoques circularam no governo federal na última semana, durante discussões na administração Trump sobre por quanto tempo os EUA poderão continuar atacando o Irã sem reduzir suas reservas a níveis que comprometam a capacidade de resposta a outras crises. Uma das fontes afirmou que a redução dos estoques de ATACMS e PrSM reflete a decisão da administração Trump de evitar formas consideradas mais arriscadas de atacar alvos iranianos, como o emprego de aeronaves tripuladas para lançar bombas. Como permitem atingir alvos a longa distância, esses mísseis seriam importantes em um eventual conflito contra um adversário com fortes sistemas de defesa aérea, como a China. Trump tem sido alertado Segundo relatório publicado em março pelo Center for Strategic and International Studies (CSIS), esses armamentos já foram utilizados para atacar alvos dentro do Irã. O documento afirma que os estoques de PrSM já eram reduzidos antes da guerra por se tratar de uma munição relativamente nova, embora militares americanos tenham feito grandes encomendas do modelo para entrega em 2027. O Exército dos EUA informou que os ATACMS estão sendo gradualmente retirados de serviço e a produção está sendo substituída pelos novos PrSM. Líderes militares têm alertado Trump há semanas de que os estoques de armas defensivas, incluindo os interceptadores Patriot, eficazes contra mísseis balísticos, também estão diminuindo. Na semana passada, diversos veículos informaram que Trump decidiu não lançar uma nova ofensiva de grande escala contra o Irã, em parte porque assessores militares alertaram sobre a situação dos estoques. Uma autoridade americana, porém, afirmou que o presidente decidiu não prosseguir com outro ataque por causa da pressão exercida por países do Golfo. Na semana passada, o CSIS publicou um relatório estimando que, entre fevereiro e julho, cerca de 65% dos interceptadores Patriot foram consumidos e que o número de interceptadores THAAD disponíveis nos estoques dos EUA ficou pelo menos 38% abaixo do nível existente no início da guerra. Ambos são responsáveis por detectar e destruir mísseis inimigos e figuram entre os principais meios de defesa americano. Duas das fontes afirmaram que as estimativas divulgadas pelo CSIS coincidem com informações internas do governo dos Estados Unidos. Segundo uma das pessoas ouvidas, desde o início da guerra o país também consumiu pouco menos da metade de seu estoque global de mísseis de cruzeiro Tomahawk, normalmente lançados por navios. O Tomahawk é um armamento da Marinha dos EUA lançado por destróieres, cruzadores e submarinos e, há décadas, constitui o principal meio de atingir alvos fortemente protegidos sem expor pilotos ao risco de combate. A Raytheon, unidade da RTX, chegou a um acordo preliminar de longo prazo com o Pentágono para ampliar a produção dos mísseis Tomahawk e aumentar a fabricação de outras munições.