Reorganização deu destaque novos protagonistas, como os houthis, e manteve a aliança viva e capaz de demonstrar força; Trump volta a transparecer impaciência com a guerra 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Apoiadores das Forças de Mobilização Popular do Iraque em funeral de membros da milícia mortos em ataques americanos e sauditas — Foto: Murtaja LATEEF / AFP “Nós vamos mudar o Oriente Médio”, afirmou o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, depois do maior ataque sofrido pelo país desde sua fundação, em outubro de 2023, em uma fala que tinha destinatários claros: o Irã e sua rede de milícias aliadas, conhecida como Eixo da Resistência. A sequência de guerras e intervenções na região, protagonizadas por Netanyahu e pelo presidente americano, Donald Trump, enfraqueceu a aliança, mas também preparou o terreno para uma existencial mudança estratégica e para demonstrações de resiliência do regime em Teerã. Por muitos anos o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza, e o regime de Bashar al-Assad na Síria atuaram como uma primeira linha de defesa do Irã contra adversários regionais — especialmente Israel — e globais, como os Estados Unidos. A invasão do Iraque em 2003 e o desmantelamento das Forças Armadas locais abriram caminho para o surgimento de uma rede de milícias armadas, apoiadas por Teerã, que lideraram uma insurgência contra os americanos. A guerra civil no Iêmen, da qual os houthis eram protagonistas, permitiu a expansão do poderio iraniano para o Mar Vermelho. Mas a resposta aos ataques do Hamas em 2023 mostraram os limites da aliança, incluindo do Irã, que foi bombardeado pela primeira vez pelos israelenses no ano seguinte, e que se viu em meio a à guerra total em fevereiro. Lideranças foram mortas, arsenais eliminados, e poderes políticos fragilizados. Para alguns políticos, analistas e estrategistas militares, o Eixo da Resistência havia chegado ao fim — para Bashar al-Assad, de fato, a história de fato terminou em 2024. Outros preferiram a cautela antes de cravar sua extinção. — O fato de a rede estar enfrentando uma ameaça existencial não significa necessariamente que ela irá se desintegrar — disse Ahmed Nagi, analista do International Crisis Group, à AFP. — A rede opera em um nível que vai além do militar; seus laços políticos, sociais e religiosos permanecem profundamente enraizados entre seus grupos e dificilmente se desfarão apenas por conta de reveses no campo de batalha. Mapa de milícias aliadas do Irã no Oriente Médio — Foto: Editoria de Arte Como destacaram os pesquisadores Nadwa al-Dossari e Armen Mohammadin, do Middle East Institute, os ataques contra seus aliados e a guerra lançada por Trump em fevereiro aceleraram um reposicionamento crucial em Teerã: transformar o Eixo “em uma ‘frente de resistência unificada’ mais estreitamente coordenada, capaz de sincronizar pressões militares, políticas e estratégicas em múltiplos teatros de operações”. Em resumo, usar as alianças regionais não mais apenas para proteger o Irã, mas para aumentar exponencialmente os custos de um ataque ao país, ao mesmo tempo em que a República Islâmica tentava sobreviver e se preparar para choques futuros. “Enquanto negociava a implementação do Memorando de Entendimento com os EUA, o Irã trabalhava simultaneamente para fortalecer os laços que unem o Eixo da Resistência” escreveram al-Dossari e Mohammadin, em artigo para o site do Middle East Institute. “Nessa estratégia em evolução, os houthis surgiram como um ator central, com o Iêmen servindo cada vez mais como o principal pólo para a próxima fase do Eixo.” Desde a década passada, os houthis ocupam uma parte do território iemenita, sendo alvo de uma intervenção liderada por sauditas e emiradenses em 2015. Com a guerra em Gaza, o grupo lançou mísseis e drones contra Israel, a cerca de 2 mil km, e causou problemas à navegação no Estreito de Bab el-Mandeb, porta de entrada para o Mar Vermelho. No mês passado, em meio à nova onda de ataques no Golfo, o grupo anunciou o bloqueio naval aos sauditas, atacando algumas embarcações. A rota, crucial para o comércio global, é usada por Riad para evitar os bloqueios no Estreito de Ormuz. — Bab el-Mandeb é uma das cartas vencedoras da Frente de Resistência e, se necessário, outras cartas também serão reveladas — disse Esmail Qaani, comandante das Forças Quds, o braço da Guarda Revolucionária responsável pela coordenação com as milícias, em junho. Dentro do “compartilhamento de custos” da guerra, os houthis e as Forças de Mobilização Popular (PMF), um agrupamento de milícias majoritariamente xiitas do Iraque, ampliaram nas últimas semanas os ataques contra posições dos EUA no Oriente Médio e contra outros países do Golfo, como a Arábia Saudita. Ao menos uma instalação petrolífera de grande porte em Jizan, a algumas dezenas de quilômetros da divisa com o Iêmen, sofreu grandes danos, visíveis em imagens de satélite. No Líbano e em Gaza, Hezbollah e Hamas foram debilitados por anos de bombardeios israelenses, mas tentam manter voz ativa nos processos políticos locais, ao mesmo tempo em que evitam (ou adiam) os processos de desarmamento total. — Cada um desses grupos possui sua própria identidade e seus próprios interesses, mas também está entrelaçado com o Irã devido a interesses profundamente compartilhados, tanto de natureza ideológica quanto geopolítica — disse à rede CNN Ali Ahmadi, pesquisador do Centro de Genebra para Política de Segurança. “O ataque ao Porto de Damietta parece ser mais do que uma simples mensagem de segurança. Trata-se de uma tentativa de atrair o Egito, ainda que gradualmente, para a órbita do conflito regional”, escreveu em artigo Amr Hamzawy, diretor do programa para o Oriente Médio do Fundo Carnegie para a Paz Internacional. Para Trump, a demonstração de força das milícias e do Irã — que atacou com drones uma base usada pelos americanos na Jordânia em julho — não é uma notícia agradável. Após cinco meses de guerra, são poucos os aliados dispostos a apoiá-lo em um conflito que causou prejuízos políticos e econômicos difíceis de estimar. Internamente, um novo capítulo da “Operação Fúria Épica” pode lhe render uma dura derrota nas eleições legislativas de novembro. Nesta segunda-feira, Trump afirmou que as negociações com Teerã estão acontecendo, mas que não permitirá que os iranianos cobrem um pedágio em Ormuz, e que essa é a “última chance” que eles têm de conseguirem “um bom acordo” antes da retomada dos bombardeios. Na véspera, o presidente disse em sua rede social, o Truth Social, que havia cancelado um ataque de grande porte para dar chance à diplomacia, um argumento usado em mais de uma ocasião desde abril, quando foi firmado o primeiro cessar-fogo. Teerã nega qualquer tipo de diálogo direto com os americanos. — O esforço [hoje] consiste em definir, o mais breve possível e em consulta com Omã, uma rota que seja inerentemente temporária e que permita garantir a segurança da navegação pelo Estreito de Ormuz — disse o porta-voz da Chancelaria iraniana, Esmail Baghaei, nesta segunda-feira.
Com agenda própria, 'Eixo da Resistência' se adapta após três anos difíceis e amplia com Irã guerra contra EUA e Israel
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