Avaliação é que rejeição permanece alta e dificulta conquista de apoios às vésperas do pleito Dario Durigan: ministro da Fazenda foi descrito pelo presidente do PT, Edinho Silva, como “o porta-voz” para assuntos econômicos do governo Lula — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo - 22/7/2026 O núcleo político da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está preocupado com a forte resistência do empresariado ao chefe do Executivo e avalia que o petista errou ao não tentar furar essa bolha nos últimos anos. A leitura de petistas é que, embora parte do mercado tenha ressalvas em relação a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa presidencial, a rejeição a Lula permanece elevada e dificulta a conquista de apoios às vésperas da eleição de outubro. Como forma de evitar solavancos no mercado, a equipe do presidente estabeleceu o ministro da Fazenda, Dario Durigan, como o porta-voz com o segmento. Segundo aliados, desde o início do terceiro mandato, em 2023, Lula foi aconselhado a construir uma interlocução mais próxima com empresários, tanto para facilitar a governabilidade quanto para reduzir resistências no setor. O presidente, no entanto, não seguiu essa estratégia e, na avaliação de interlocutores, acabou se distanciando ainda mais do segmento. Eles afirmam que havia interesse do empresariado em ampliar o contato direto com o petista, mas as oportunidades para estreitar esse diálogo não foram aproveitadas. Na avaliação dessas fontes, esse afastamento ampliou a rejeição do setor a Lula e hoje dificulta a tentativa de reverter votos a poucos meses da eleição. Nas últimas semanas, integrantes da cúpula política da campanha intensificaram os esforços para reconstruir essa ponte, mas, até agora, não houve resultados expressivos. Diante desse cenário, a estratégia tem sido evitar anúncios ou promessas que possam provocar turbulências no mercado durante a campanha. A relação estremeceu ainda mais após uma entrevista do coordenador de programa de governo do PT, José Sergio Gabrielli, ao jornal O Globo. Na ocasião, ele disse que o documento em discussão para um eventual Lula 4 prevê a ideia de aumentar gastos, ampliar o escopo de bancos públicos, implantar controles de fluxos de capitais e avançar no processo de tributação de renda financeira. A declaração gerou reação negativa no mercado. Como tentativa de minimizar a situação, o presidente do PT, Edinho Silva, relativizou, em entrevista ao Valor, as falas do ex-presidente da Petrobras que provocaram ruídos. Na ocasião, Edinho afirmou que “só tem um condutor da política econômica, que se chama presidente Lula”, e que “o porta-voz na economia é o ministro Dario Durigan”. Mercado teve reação negativa à entrevista do coordenador de programa de governo Paralelamente, a campanha orientou que divulgações sobre a área econômica do programa de governo fossem restringidas para evitar novos ruídos. Com isso, a interlocução sobre temas econômicos passou a ficar concentrada no chefe da Fazenda. Ainda assim, como mostrou o Valor, Gabrielli reuniu-se, na metade de julho, com representantes do mercado financeiro para apresentar propostas econômicas que foram alvo de críticas dos agentes. Embora algumas das ideias apresentadas façam parte das discussões internas de alas do PT, elas não foram validadas pelo Ministério da Fazenda, pela direção nacional do partido ou por Lula para integrar o programa de governo. Integrantes da campanha afirmam que parte do setor demonstra dificuldades em apoiar Flávio Bolsonaro para a Presidência. Apesar disso, essa resistência aos adversários não tem sido suficiente para converter apoio ao presidente. Isso porque alguns economistas têm alertado que medidas lançadas pelo governo federal podem elevar a dívida pública e dificultar o controle da inflação pelo Banco Central (BC). Desde o início deste mandato de Lula, a dívida bruta da gestão já subiu mais de 8 pontos percentuais em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), superando os 80% do PIB. Além disso, tanto o Executivo quanto especialistas projetam que o indicador continuará em alta nos próximos anos. Diante desse quadro, uma ala da campanha defende que Lula evite assumir compromissos de elevado impacto fiscal durante a disputa eleitoral. A avaliação é que uma campanha sem propostas que possam gerar insegurança no mercado ampliaria a margem de manobra para um eventual novo governo negociar sua agenda e implementar medidas consideradas necessárias. Nesse contexto, está em discussão a eventual adoção da tarifa zero no transporte público urbano, abrangendo ônibus, metrôs e trens. A proposta é vista por integrantes do governo e do PT como uma política de grande impacto social, capaz de sinalizar tanto aos movimentos sociais quanto ao setor empresarial de transportes. Outra ala do partido, contudo, argumenta que uma iniciativa dessa dimensão exige estudos mais aprofundados antes de ser incorporada.