O paciente entra no consultório com o nome do remédio anotado em um papel. Soube dele antes do médico, e sabe que o SUS ainda não o incorporou. A pergunta que traz não é qual tratamento fazer, mas como conseguir aquele medicamento.
Cenas assim ajudam a entender os números do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Só entre janeiro e agosto de 2025, quase 454 mil ações de saúde chegaram aos tribunais. Em 13 cortes, mais de 80% das liminares são deferidas. Desde 2018, o Ministério da Saúde já desembolsou bilhões de reais para cumpri-las. Centenas de milhares de pessoas cansaram de esperar uma resposta do sistema e foram buscá-la no lugar mais improvável: o Judiciário.
No Brasil, Alzheimer afeta 1,9 milhão de pessoas e pode triplicar até 2050 - Bruno Santos - 20.set.23/Folhapress
Não é a primeira vez. Em 2016, o Congresso autorizou o uso da fosfoetanolamina sintética, a "pílula do câncer", sem sequer um único ensaio clínico concluído. O Supremo suspendeu a lei semanas depois, mas, àquela altura, decisões judiciais já haviam obrigado instituições a distribuí-la a pacientes desesperados. Quando os estudos foram publicados, não mostraram benefício.
Dez anos depois, o problema retorna em roupagem mais sofisticada. O lecanemabe, anticorpo monoclonal para a doença de Alzheimer, foi registrado pela Anvisa em dezembro de 2025 e aguarda avaliação pelo Sistema Único de Saúde. Não serve para todos os pacientes: destina-se às fases iniciais da doença e pode causar efeitos adversos graves. Nuances como essas raramente resistem à pressa de uma liminar.








