A CNV (Comissão Nacional da Verdade) foi um marco na justiça de transição brasileira, mas seu tratamento na questão indígena escancara uma ferida que o relatório final apenas arranhou. Romper com essa abordagem insuficiente exige um olhar crítico que expõe as raízes coloniais da violência, os silêncios institucionais e a urgência de uma verdade protagonizada pelos próprios povos.

Um dos pontos pouco explorados é a sub-representação dos indígenas no relatório da CNV, que estimou 8.350 mortes (20 vezes superior aos 434 registrados), mas analisou apenas 10 das mais de 300 etnias do país. A comissão reconhece que o número real é impossível de calcular. No entanto, essa grande diferença escancara que a violência contra os indígenas ficou em segundo plano, em vez de ser o centro da verdade que eles queriam revelar.

Entre os símbolos mais brutais está o Reformatório Krenak. O ancião Oredes Krenak relatou à CNV que eram punidos por "coisas pequenas", como recusar trabalhos forçados, não executar tarefas ou simplesmente produzir artesanato. Prisões, confinamento, restrição ao uso das línguas maternas e proibição de práticas culturais faziam parte de um sistema que visava não apenas o corpo, mas a alma das comunidades. Esse caso, embora reconhecido posteriormente em anistia coletiva, revela a lógica do Estado tutelar que a CNV tratou como desvio.