Gerando resumo“Eles estão tirando uma com a nossa cara”, reclamou Gilbert Teodoro Júnior, secretário de Defesa das Filipinas, a repórteres em Manila no dia 23 de julho. Três dias antes, guardas costeiros chineses haviam sido filmados usando remos para agredir marinheiros filipinos a bordo de um navio da Marinha no Second Thomas Shoal, um atol reivindicado por ambos os países no Mar do Sul da China. Após uma breve briga, os filipinos, vestidos com shorts e camisetas, repeliram os guardas costeiros chineses, que usavam uniformes da Marinha e coletes laranja de alta visibilidade. Dois dos filipinos foram hospitalizados posteriormente.A briga foi apenas mais um de uma série de incidentes recentes ao longo do arquipélago asiático que, juntos, traçam um quadro de uma China mais agressiva. Em março, um helicóptero australiano que fiscalizava as sanções das Nações Unidas contra a Coreia do Norte relatou uma interceptação perigosa por aeronaves chinesas sobre o Mar Amarelo. No início de julho, a China lançou um míssil balístico de um submarino no Mar do Sul da China, sobrevoando as Filipinas e atingindo o Pacífico Sul. E apenas um dia antes da briga no Second Thomas Shoal, navios chineses realizaram um exercício com tiros reais na zona econômica exclusiva do Japão, a leste das Filipinas.O presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping, no Grande Salão do Povo em 14 de maio de 2026 Foto: Mark Schiefelbein/APPUBLICIDADEHá um padrão por trás desse aumento em atos agressivos. A China começou a testar os aliados dos Estados Unidos logo após uma reunião entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping em Busan, em outubro de 2025, intensificou suas atividades em março, à medida que os Estados Unidos se atolavam no Golfo Pérsico, e foi ainda mais longe desde que Trump e Xi realizaram uma cúpula em Pequim, em maio. “É um teste para ver até que ponto Washington vai reagir e defender seus aliados na região”, afirma Huong Le Thu, do International Crisis Group, um think tank com sede em Bruxelas. No entanto, no mesmo período, as relações entre a China e os Estados Unidos melhoraram. A China, segundo diplomatas asiáticos, está apostando que Trump não fará nada para contrariar essa tendência, muito menos dirá à China para deixar seus aliados em paz.Os incidentes ocorrem ao longo da chamada “primeira cadeia de ilhas”, o conjunto de arquipélagos que se estende do norte do Japão, passando por Taiwan, até as Filipinas. A China tem tendido a atacar os aliados dos Estados Unidos um por um, mas, desta vez, o Exército Popular de Libertação parece estar intimidando vários ao mesmo tempo.As Filipinas têm sofrido o pior tratamento até agora. Não por coincidência, é o aliado americano mais fraco da região e aquele em relação ao qual os compromissos dos Estados Unidos há muito parecem mais instáveis. Em 2024, Ferdinand Marcos Júnior, presidente do país, afirmou que qualquer perda de vidas no Mar do Sul da China seria “muito, muito próxima do que definiríamos como um ato de guerra” e que esperaria uma resposta americana. Mas é duvidoso que Donald Trump honre os compromissos dos Estados Unidos da maneira que Marcos espera.Publicidade"Não estamos vivendo o declínio americano para a China", diz Gunther RudzitEspecialistas Gunther Rudzit e Cristina Pecequilo debatem a política americana, de George Washington a Donald Trump. O confronto próximo ao Second Thomas Shoal, em 20 de julho, foi particularmente perigoso. O recife desolado tornou-se um ponto nevrálgico por causa do Sierra Madre, um navio enferrujado da Marinha filipina encalhado ali em 1999 como demonstração de soberania. Embora os Estados Unidos não sejam obrigados a defender outras ilhotas disputadas reivindicadas pelas Filipinas, o país tem obrigações claras, nos termos de seu tratado de defesa mútua, de proteger o “Sierra Madre” e o pequeno destacamento de fuzileiros navais filipinos a bordo. Alguns analistas acreditam que a China está tentando criar uma divisão entre os Estados Unidos e as Filipinas, mostrando aos filipinos que não se pode confiar que o Tio Sam cumpra esses compromissos.A pressão sobre a Austrália e o Japão tem sido calibrada com mais cuidado, mas não é menos palpável. O teste de míssil balístico da China no Pacífico Sul ocorreu no mesmo dia em que a Austrália assinou um pacto de defesa mútua com Fiji. Os exercícios com munição real na ZEE do Japão foram precedidos, no final de junho, por uma patrulha conjunta de bombardeiros chineses e russos com capacidade nuclear ao redor do Japão; foi o segundo voo desse tipo desde que a primeira-ministra do Japão, Takaichi Sanae, irritou a China em novembro passado ao sugerir que o Japão poderia ter um papel a desempenhar em um conflito envolvendo Taiwan. A pressão simultânea da China sobre os aliados dos Estados Unidos reflete, em parte, sua percepção de que a influência americana na Ásia está diminuindo e que a atenção do país está desviada pela guerra no Irã, avalia Iida Masafumi, do Instituto Nacional de Estudos de Defesa em Tóquio, um centro de estudos do Ministério da Defesa: “Do ponto de vista da China, Donald Trump está cavando sua própria cova.”Qual o futuro do mundo em meio à rivalidade EUA e China?Especialistas Gunther Rudzit e Cristina Pecequilo debatem a política americana, de George Washington a Donald Trump. Crédito: EstadãoAs forças americanas não estão, de forma alguma, ausentes. Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, afirmou que uma embarcação da Guarda Costeira americana estava próxima o suficiente do Second Thomas Shoal em 20 de julho para resgatar os dois filipinos feridos e levá-los para um local seguro. Autoridades americanas reconhecem que algumas unidades normalmente baseadas na Ásia foram enviadas para o Oriente Médio. Mas, ao mesmo tempo, o Comando do Pacífico dos Estados Unidos enviou navios, aeronaves, tropas e mísseis de bases nos Estados Unidos em direção oeste, para a primeira cadeia de ilhas, a fim de tentar dissuadir a agressão chinesa contra aliados. Ele implantou sistemas avançados de mísseis tanto no Japão quanto nas Filipinas até o final do verão e, em 21 de julho, o Comando do Pacífico divulgou fotografias — que, naquele momento, já tinham várias semanas — mostrando o sistema hipersônico de longo alcance Dark Eagle, a tecnologia de ponta do arsenal de mísseis dos Estados Unidos, implantado pela primeira vez dentro do alcance da China continental.PublicidadeMas isso parece não ter dissuadido a China. O problema não são tanto as capacidades militares americanas, mas sim as intenções de Trump. Na cúpula realizada em maio, Trump e Xi concordaram em defender o que o lado chinês denominou de “estabilidade estratégica construtiva”. Autoridades americanas também adotaram rapidamente a expressão, mas ainda não esclareceram o que ela significa para elas. Le Thu, do Crisis Group, afirma que a China está usando atividades militares para definir o termo de forma a garantir à China uma esfera de influência maior. James Char, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura, concorda. “Os chineses estão tentando normalizar essas atividades”, diz ele, “para mostrar ao mundo que têm a capacidade de prejudicar esses países que não são amigos”.
A China tem ampliado ataques contra aliados americanos no Pacífico. Trump não vai fazer nada?
Pequim intensificou suas atividades em março, à medida que os EUA se atolavam no Golfo Pérsico, e foi ainda mais longe desde que Trump e Xi realizaram uma cúpula em Pequim, em maio







