"Não estamos vivendo o declínio americano para a China", diz Gunther RudzitEspecialistas Gunther Rudzit e Cristina Pecequilo debatem a política americana, de George Washington a Donald Trump. Gerando resumoAs baías do arquipélago de Zhoushan estão repletas de barcos de pesca de casco azul, encalhados após uma temporada movimentada vasculhando o Mar da China Oriental em busca de caranguejos e corvinas. Alguns desses barcos, porém, têm feito mais do que apenas pescar. Em dezembro, mais de 1.000 embarcações de Zhoushan e de outras partes do litoral leste da China fizeram algo sem precedentes. Elas se alinharam para formar um L nos mares ao norte de Taiwan, mantiveram a formação por mais de 12 horas e depois se dispersaram. Nos meses seguintes, os barcos de pesca chineses se reuniram novamente no Mar da China Oriental, em mais quatro ocasiões.PUBLICIDADEA mídia estatal chinesa alega que tudo isso é atividade comercial normal. Certamente há algo mais suspeito acontecendo. A China é um caso incomum por ter três forças marítimas distintas à sua disposição. As duas primeiras são a Marinha e a Guarda Costeira. Mas, já desde a década de 1950, os líderes chineses também requisitaram parte da frota pesqueira do país para formar uma “milícia marítima” paramilitar. Essa força obscura é composta por uma mistura de barcos de pesca comuns e outros maiores, com casco de aço, que parecem ter sido construídos especificamente para manobras agressivas. Ela é notória por suas atividades no Mar da China Meridional, onde barcos da milícia são frequentemente enviados a recifes e ilhotas disputados para garantir as reivindicações de soberania da China, às vezes de forma violenta.Os barcos de pesca no Mar da China Oriental vinham se dedicando principalmente à pesca de arrasto. Isso pode estar mudando. As recentes formações na região foram muito maiores do que qualquer coisa vista antes, mesmo no Mar da China Meridional, de modo que parece provável que tenham reunido muitos barcos de pesca comuns ao lado de milicianos oficiais. Eles estavam agrupados de forma tão densa que alguns navios de carga pareciam mudar de rota para contorná-los. As manobras sugerem que as autoridades chinesas estão testando suas capacidades — e alguns temem que isso possa dar à China uma vantagem em um conflito envolvendo Taiwan.PublicidadeNavios são vistos em um estaleiro no rio Yangtzé, em Yangzhou, na província de Jiangsu (leste da China), em 15 de julho de 2026 Foto: CN-STR/AFPNão há números oficiais publicados sobre o tamanho da milícia marítima da China. Os meios de comunicação estatais às vezes negam até mesmo sua existência. Mas um artigo publicado em 2014 em uma revista chinesa de defesa elogiou a força como “insubstituível” graças à sua “ampla distribuição, identidades disfarçadas e familiaridade com as condições marítimas”. Ao contrário de sua marinha, a milícia marítima da China oferece às autoridades uma negação plausível para atividades ambíguas na “zona cinzenta”: elas podem alegar, por exemplo, que confrontos violentos com navios de outros países foram causados por “pescadores patriotas” agindo de forma independente.Durante décadas, a milícia marítima teve a reputação de ser um grupo desorganizado, com armas antiquadas e pouca disciplina. O pescador médio tem apenas um nível limitado de escolaridade e cabelos grisalhos (apenas 5% têm menos de 30 anos, de acordo com uma pesquisa de 2024; a pesca é árdua e poucos jovens chineses querem se dedicar a ela). Isso significa que treiná-los para usar as mais recentes tecnologias de comunicação pode ser um desafio. A motivação também pode ser um problema, pois a remuneração é, segundo relatos, baixa. Isso se deve, em parte, ao fato de que a milícia deve agir por dever patriótico, e não por ganho pessoal, afirma Collin Koh, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura. Os governos locais e as autoridades militares também, às vezes, discutem sobre quem deve arcar com os custos.Mas, desde que Xi Jinping assumiu o poder em 2012, a China vem tentando construir o que chama de milícia marítima de “novo estilo” — uma milícia melhor equipada, treinada e organizada. É difícil dizer quanto está sendo gasto com essa milícia. Províncias e cidades contribuem para diversos programas, e empresas estatais são incentivadas a participar. Alguns barcos de pesca podem receber subsídios diários de mais de 24.000 yuans (US$ 3.500) para permanecerem em áreas disputadas — valor mais do que suficiente para cobrir seus custos e permitir que os proprietários lucrem sem precisar pescar.PublicidadeQual o futuro do mundo em meio à rivalidade EUA e China?Especialistas Gunther Rudzit e Cristina Pecequilo debatem a política americana, de George Washington a Donald Trump. Crédito: EstadãoA modernização avançou mais no Mar da China Meridional, uma vasta extensão de água que a China reivindica quase na íntegra (seis outros países, incluindo Vietnã e Filipinas, têm reivindicações concorrentes sobre a região, que é rica em recursos pesqueiros e energéticos). Alguns moradores locais tornaram-se milicianos em tempo integral, tripulando grandes embarcações de casco de aço equipadas com potentes canhões de água. Eles se aglomeram em torno dos bancos de areia e recifes reivindicados pela China, enquanto vigiam e hostilizam embarcações estrangeiras.As atividades das milícias são, por natureza, difíceis de rastrear, mas parecem ter aumentado constantemente no Mar da China Meridional. A Iniciativa de Transparência Marítima da Ásia, um programa do CSIS, um think tank americano, usa imagens de satélite para identificar sinais reveladores, como embarcações que permanecem paradas sem lançar artes de pesca ou que se amarram umas às outras para formar uma barreira flutuante. No ano passado, a iniciativa contabilizou uma média de 241 embarcações chinesas por dia que acredita serem milícias navegando em áreas disputadas da região. Esse foi o maior número desde que o CSIS começou a monitorar a situação, em 2021.A China também tem disputas no Mar da China Oriental, com o Japão e a Coreia do Sul, além de Taiwan. Mas, historicamente, os milicianos têm se mostrado muito menos agressivos na região, concentrando-se, em vez disso, em questões civis, como ajuda de emergência após tufões. O Mar da China Oriental tem menos de um quarto do tamanho do Mar da China Meridional, e as reivindicações da China na região dizem respeito a áreas específicas, como as ilhas Senkaku, desabitadas (conhecidas como Diaoyu em chinês e controladas pelo Japão), e não a toda a extensão da massa de água. Sua guarda costeira deveria, portanto, ser capaz de patrulhar e lidar com confrontos com embarcações de outros países sem depender de barcos civis.PublicidadeLeia maisTaiwan envia embarcações para monitorar navios chineses a leste da ilhaChina chama de ‘pura invenção’ acusações de Trump sobre interferência eleitoralIA não deve ser dominada por um único país, diz Xi, defendendo cooperação global e regulamentaçãoTudo isso aumenta o mistério em torno das recentes formações. Cinco delas ocorreram em menos de seis meses, de acordo com a IngeniSPACE, uma empresa de pesquisa que acompanha seus movimentos.Coordenar tantos navios para permanecerem no local por tanto tempo é um desafio técnico, mas, mais importante, um desafio político, afirma Gregory Poling, do CSIS. Alguns países têm dificuldade em fazer com que seus pescadores transmitam suas localizações de forma consistente (muitos preferem manter em segredo suas melhores áreas de pesca). A China tem demonstrado “um grau de controle político que nenhum outro país do mundo pode reivindicar” sobre sua frota civil, observa Poling.CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEPara que esse controle poderia ser usado? Em um conflito envolvendo Taiwan, a milícia poderia ajudar a marinha com reconhecimento ou logística. Barcos da milícia também já foram acusados de cortar cabos de comunicação submarinos. Se a China lançasse uma invasão anfíbia a Taiwan, um comandante implacável poderia usar enxames de barcos de pesca para sobrecarregar o inimigo com alvos em potencial. Um número muito grande de barcos de pesca poderia desempenhar um papel mais importante se a China tentasse impor um bloqueio total à ilha ou uma “quarentena” mais calibrada (bloqueando apenas algumas mercadorias). Eles poderiam ajudar a interromper o fluxo de navios que chegam e partem de seus portos.Os pescadores de Zhoushan, pelo menos, não nutrem nenhuma simpatia por Taiwan. Em 1950, Zhoushan foi uma das últimas regiões da China controladas pelo Kuomintang após sua derrota para o Partido Comunista. Milhares de homens locais foram recrutados à força para reabastecer o exército e obrigados a ir para Taiwan. Alguns moradores locais ainda guardam rancor. De forma mais prosaica, um capitão grisalho afirma que um conflito seria um desastre para os negócios. Ele só ajudaria se as autoridades exigissem. Um jovem, porém, está confiante de que os pescadores locais cumpririam seu papel. “Nós, chineses, somos como areia espalhada que se uniria se chegasse a hora”, disse ele. “Todos nós nos tornaríamos milicianos.”
Milícia marítima chinesa está cada vez mais ativa e pressiona arredores de Taiwan
Grandes novas formações de barcos ao norte de Taiwan sugerem que autoridades estão testando suas capacidades









