“Não existem ritos de passagem femininos. O rito da mulher é biológico.” Essa é a primeira frase que escuto ao entrar, atrasado, no auditório lotado do Centro Universitário Católico Ítalo Brasileiro, em Santo Amaro, Zona Sul de São Paulo. Busco alguma reação na plateia e não encontro nenhuma. Das quase 600 cadeiras, poucas estão vazias, e a esmagadora maioria é ocupada por homens.

Muitos escrevem em cadernos, outros gravam vídeos. A frase, dita pelo ator Juliano Cazarré na abertura do curso O Farol e a Forja, idealizado por ele, soa, no mínimo, controversa. Na plateia, é recebida, porém, com espantosa naturalidade. Ao longo dos três dias, eu entenderia por quê. Ela condensava uma visão de mundo que reapareceria sob diferentes formas no encontro: uma espécie de “pedagogia da masculinidade”, com gramática filosófica, religiosa e política própria.

Na plateia, homens entre 30 e 60 anos, barba aparada, camisa polo ou blazer sobre moletom – quase um dress code particular. No palco, Cazarré mediava uma conversa sobre liderança ao lado do empresário Gabriel Kanner e do roteirista Newton Cannito. O cenário parecia montado para um épico. Tons de âmbar e laranja simulavam um pôr do sol permanente. No telão, rostos ampliados ocupavam quase toda a parede, enquanto um farol rompia a névoa ao fundo. Em letras garrafais, a inscrição: “Liderança Masculina Moderna”. No conjunto, uma cenografia pensada para anunciar uma promessa de transformação.