O problema da modernidade é que precisamos viver em sociedades de massa cada vez mais informatizadas com um cérebro que evoluiu para nos fazer prosperar no Pleistoceno, quando o último grito da tecnologia era o domínio sobre o fogo. O ordenamento eleitoral brasileiro padece de descompasso semelhante.

Não é preciso mais do que uma passada de olhos sobre a Lei Eleitoral, a 9.504/97, para perceber que ela foi concebida para um tempo que já não existe. Está preocupada em regular o layout dos santinhos e o tamanho máximo de cartazes, quando a realidade das campanhas é marcada por IA, deepfakes e impulsionamentos. É verdade que temos uma coleção de resoluções do TSE que buscam dar atualidade ao arcabouço regulatório, mas não as classificaria como particularmente felizes.

O problema é que os magistrados, bebendo da mesma fonte de inspiração dos legisladores originais, também se propuseram a exercer controle máximo sobre o processo —algo que não tem como dar certo. Mesmo quando a regra estabelecida é clara, simpatias, confessas ou inconfessas, de um ou mais juízes se encarregam de criar obscuridades. Estamos vendo isso agora com as exuberantes interpretações de Kassio Nunes Marques para deepfakes e a divulgação de pesquisas eleitorais.