O Brasil é o único país do mundo onde as eleições são inteiramente eletrônicas, realizadas por um sistema de alta tecnologia, mas que agora está sendo questionado diante de críticas sem fundamentos impulsionadas por políticos de direita, afirma a revista The Economist. “A desconfiança no sistema eleitoral tem sido impulsionada pela polarização e pela desinformação online, não por fraude comprovada. Mas sua natureza técnica facilita a disseminação de informações falsas sobre o sistema”, afirma a revista. Segundo um estudo citado pela Economist e realizado pela empresa de pesquisas Latinobarómetro, em 2009, 45% dos entrevistados brasileiros acreditavam que as eleições eram limpas, enquanto 47% disseram que eram fraudulentas. Já em 2024, apenas 32% confiavam e 61% suspeitavam de fraude. Além disso, uma pesquisa recente, também citada pela Economist, 43% dos entrevistados disseram que não se pode confiar nas urnas eletrônicas, enquanto, em 2022, apenas 22% disseram não ter confiança nas máquinas. “Uma parcela considerável da direita brasileira adotou o discurso contra as urnas eletrônicas, principalmente nas redes sociais. Os candidatos contestaram o resultado das eleições gerais em 2014, 2018 e 2022. Se o resultado deste ano for apertado, o perdedor poderá mais uma vez alegar fraude”, escreve a revista, em reportagem publicada neste domingo (31). Os ataques feitos em 2022 contra as urnas eletrônicas, durante a tentativa de reeleição de Jair Bolsonaro, mostram como o ex-presidente seria a “manifestação mais radical do declínio da confiança nos sistemas de votação em todo o mundo”, afirma a The Economist. Para a revista, esse discurso já começa a ser repetido pelo seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato às eleições deste ano. Em março, na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), Flávio disse que venceria as eleições se elas fossem “‘livres e justas’, sugerindo que qualquer outro resultado mostraria que não eram.” Sistema criado para evitar fraudes “O Brasil optou pelo sistema eletrônico para combater a fraude eleitoral generalizada. Muitos eleitores analfabetos costumavam ter suas cédulas de papel preenchidas previamente por capangas de políticos. As listas de eleitores frequentemente incluíam pessoas mortas ou inexistentes”, explica a The Economist ao contar sobre a origem das urnas eletrônicas. A revista também aponta que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realiza eventos públicos nos quais qualquer cidadão com mais de 18 anos pode tentar encontrar vulnerabilidades no sistema e, caso alguma seja encontrada, o órgão corrige o erro. Por outro lado, a The Economist comenta que a confiança nos tribunais nacionais está caindo e que a sobreposição de membros do TSE com o Supremo Tribunal Federal (STF) pode ser “vista com desconfiança por muitos brasileiros”, como no caso da atuação do ministro Alexandre de Moraes nas eleições de 2022, como presidente do TSE, e depois como relator do julgamento de tentativa de golpe de Estado que condenou Bolsonaro. “Críticos bem-intencionados argumentam que combinar as urnas eletrônicas com comprovantes individuais em papel, e não apenas com a apuração das seções eleitorais, melhoraria a auditabilidade do sistema. Isso é semelhante ao que a Índia faz.” Em 2002, o TSE realizou um projeto piloto com impressoras acopladas às urnas eletrônicas. No entanto, as impressoras frequentemente emperravam, exigindo intervenção humana para consertá-las. “O TSE argumentou que tais falhas poderiam atrasar a apuração. Alegaram também que os registros individuais poderiam comprometer o sigilo do voto, uma vez que gangues ou figurões locais poderiam então pedir aos eleitores comprovantes de seu voto”.
Sistema eleitoral brasileiro perde confiança e acende alerta para 2026, diz The Economist
Críticas online e acusações de fraudes não comprovadas prejudicaram a confiança de eleitores













