No asfalto, o homem morria. Não um sujeito qualquer, mas o desconhecido sem nome que sangrava na via pública enquanto a cidade assistia com a habitual e metódica indiferença dos transeuntes. E então, no meio da matéria fria e da poeira da rua, veio o beijo. Não um gesto de devassidão, entenda-se, mas o gesto puro, o susto misericordioso do rapaz Arandir diante da morte do outro. Pois foi esse ato de compaixão que bastou para acionar a grande e hedionda maquinaria do mundo.
É essa a tragédia que em cartaz no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana, na encenação de "O Beijo no Asfalto" dirigida por Marco André Nunes e produzida por Rafael Raposo. Nelson Rodrigues escreveu a peça em 1960 a pedido de Fernanda Montenegro para o "Teatro dos Sete", mas o que se vê no palco carioca é a anatomia exata da nossa devassidão cotidiana.
O homem contemporâneo imagina ter inventado o tribunal do cancelamento, a mentira que vira fato consumado antes do amanhecer e a proliferação descontrolada de versões. Ilusão. O texto já havia desenhado cada engrenagem desse processo há mais de sessenta anos. Na montagem, fica cristalino que a ruína de Arandir não nasce da carne, mas do verbo. A palavra, no universo rodriguiano, transcende o ornamento para assassinar reputações.









