Diante do palco escuro, ouvem-se sons de trânsito, uma freada e sirenes de ambulância. Ao passo que uma luz central começa a revelar um homem consternado (Eduardo Sterblitch), é entoado o verso “Tá lá o corpo estendido no chão”, da música “De frente pro crime”, de João Bosco. É assim que começa a nova montagem do clássico de Nelson Rodrigues “O beijo no asfalto”, que estreia nesta quinta (16) no Teatro Gláucio Gill. Encomendado por Fernanda Montenegro para o histórico grupo Teatro dos Sete, o texto foi montado pela primeira vez há 65 anos, com ela, Oswaldo Loureiro, Mário Lago e outros. Agora, sob direção de Marco André Nunes, Edson Celulari, Luísa Arraes, Sterblitch e grande elenco contam a história de Arandir, que tem a vida destruída após atender ao pedido de um desconhecido atropelado, à beira da morte: um beijo na boca. Um dos maiores sucessos do autor, a peça ganhou várias outras montagens ao longo dos anos e até três versões para o cinema, em 1964, 1981 e 2018 (relembre algumas delas abaixo). E uma nova adaptação para as telas está em curso: capitaneado por Maurício Mota, um dos netos do autor, e pela atriz norte-americana Viola Davis, o projeto terá direção de Karim Aïnouz e roteiro da irlandesa Kirsten Sheridan. Na trama, o repórter sensacionalista Amado Ribeiro (André Mattos), que vê o beijo, transforma o ato de compaixão em narrativa de difamação. Com ajuda do delegado Cunha (Ernani Moraes), a imprensa acusa Arandir de ser amante do morto e até de ter provocado o acidente. Assim, ele, sua esposa, Selminha, (Luísa Arraes) e sua cunhada, Dália (Nina Tomsic), sofrem com o preconceito e a perseguição da sociedade. Cada vez mais isolado, Arandir ainda precisa lidar com o sogro, Aprígio (Edson Celulari), que sempre o reprovou e fica ainda mais duro após o caso. Luísa Arraes e Edson Celulari como Selminha e Aprígio em "O beijo no asfalto" — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo — Os preconceitos, as manipulações de mídia, tudo isso já existia nos anos 1960, existe agora e provavelmente vai continuar existindo daqui a 20, 30 anos. Isso sem falar nas pulsões humanas, que Nelson identificava de maneira brilhante — comenta o diretor, que, sem alterar o texto, buscou mesclar passado e presente para ressaltar a atemporalidade da obra. — Usamos projeções com a sintaxe das redes sociais e os elementos da era dos cancelamentos atual. Em contraste, os figurinos e os móveis são dos anos 1960. Marco André teve seu primeiro contato com o universo rodrigueano justamente a partir da adaptação cinematográfica de “O beijo no asfalto” de 1981, dirigida por Bruno Barreto. Composto por cinco telões verticais móveis, o cenário de Aurora dos Campos denota a influência da sétima arte, com projeção de cenas gravadas e imagens que transformam o palco em delegacia, redação de jornal e na casa da família. Completam a encenação os músicos Laura de Castro e Nigga, que tocam ao vivo. — Além da música do João Bosco, escolhemos outras do Roberto Silva e do repertório da Maísa que parecem ter sido feitas para o espetáculo — explica o diretor. Casada com o protagonista há cerca de um ano, Selminha começa a peça como uma das principais defensoras do marido. “Confio mais em Arandir do que em mim mesma”, repete. Dália, sua irmã, também acredita na versão do cunhado. Com o tempo, porém, a pressão dos boatos desestabiliza até as relações mais sólidas do personagem, que passa até a duvidar de si mesmo. Ao centro, Eduardo Sterblitch como Arandir, protagonista de "O beijo no asfalto" — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo — Selminha e Arandir são arrancados da inocência da vida perfeita, do casamento, e entendem que o mundo é muito barra pesada, que esse tipo de idealização não cabe na realidade — opina Luísa Arraes. — É quase como um romance de amadurecimento dos dois. Para Sterblitch, o isolamento do protagonista é um dos pontos mais tocantes do texto, não só pela reflexão que provoca, mas também porque o próprio ator se vê na história. — Arandir é talvez o personagem mais parecido comigo que já fiz. Nelson o descreve como um cara de grande simpatia, mas que carrega uma certa tristeza, e acho que é a minha cara. Existe uma facilidade de compreensão do que está acontecendo na cabeça dele, pois também se passa na minha — comenta o ator, que se prepara para viver outro personagem do dramaturgo. Ele será o controverso e imoral Peixoto, de “Bonitinha, mas ordinária”, na próxima novela da Globoplay, “Paraíso perdido”, que mescla ainda as peças “A mulher sem pecado”, “Toda nudez será castigada” e “Os sete gatinhos”. Fazendo sua estreia no universo rodrigueano, Edson Celulari interpreta um personagem que encarna as contradições e a falsa moral da elite brasileira: por trás da aparência respeitável, escondem-se as ambiguidades e a hipocrisia típicas da obra do autor. Sem querer adiantar as várias reviravoltas da trama — mesmo que o clássico esteja entre nós há mais de seis décadas —, o ator reflete sobre o que mais lhe toca na narrativa: o clamor pela humanidade num mundo cada vez mais individualista. — Mesmo sendo cancelado, como dizemos hoje, Arandir em nenhum momento se arrepende do que fez. Os jornais inventam notícias, mas ele defende a ideia de que aquilo é a coisa mais bonita que fez na vida. Ao assistir, cada um pensa: “se fosse eu, daria o beijo?”. Esse gesto de delicadeza para com o outro, num momento tão particular da morte, é um convite para reflexão do homem e da mulher contemporâneos — diz. Um beijo atrás do outro Relembre algumas das principais versões do clássico de Nelson Rodrigues. A primeira montagem, em 1961 Dirigida por Fernando Torres, a montagem do grupo Teatro dos Sete ficou meses em cartaz. No elenco, Fernanda Montenegro, Oswaldo Loureiro, Mário Lago e Suely Franco. Oswaldo Loureiro e Fernanda Montenegro na primeira montagem de "O beijo no asfalto" — Foto: Divulgação Nos cinemas A 1ª adaptação foi de Flávio Tambellini, em 1964. Na 2ª, de 1981, Bruno Barreto insere a tragédia na atmosfera descontraída da década. Com Ney Latorraca, Christiane Torloni e Tarcísio Meira. Christiane Torloni, Tarcísio Meira e Lídia Brondi em "O beijo no asfalto" (1981) — Foto: Divulgação Até versão musical Com 16 canções de Cláudio Lins (como Arandir), o musical dirigido por João Fonseca rodou o país em 2015 com Laila Garin, Gracindo Junior e Thelmo Fernandes. Yasmin Gomlevsky, Cláudio Lins e Laila Garin no musical "O beijo no asfalto", de 2015 — Foto: Divulgação Em preto e branco Fernanda Montenegro volta em papel secundário no filme PB dirigido por Murilo Benício, que tem Lázaro Ramos, Débora Falabella e Stênio Garcia nos papéis principais. A montagem alterna uma leitura de texto conduzida por Amir Haddad com encenações. Débora Falabella e Fernanda Montenegro em cena de "O beijo no asfalto" (2018) — Foto: Divulgação Serviço Onde: Teatro Gláucio Gill, Copacabana.Quando: 16 de julho a 3 de agosto. Que horas: qui a seg, às 20h. Quanto: R$ 20.Classificação: 14 anos.