A chuva castigava um frágil barco de madeira enquanto ele era lançado de um lado para o outro em um mar revolto, com o motor lutando contra as ondas. Sob a proteção de uma noite de tempestade, há três anos, a embarcação fugia da Coreia do Norte. A bordo estavam nove pessoas, entre elas duas crianças pequenas e uma mulher grávida de seis meses. O grupo conseguiu escapar de uma embarcação de patrulha e atravessou a fronteira marítima mais fortemente vigiada do mundo. Pouco depois de o barco entrar em águas sul-coreanas, uma embarcação de guerra de alta velocidade da Marinha da Coreia do Sul avançou em sua direção, cortando a água em manobras agressivas ao redor da pequena embarcação. Atiradores de elite apontaram miras a laser para o peito dos três homens adultos que estavam no barco de madeira. — Vocês estão perdidos? Estão com problemas no motor? Os norte-coreanos responderam aos gritos: — Por favor, nos ajudem. Estamos desertando. Os pontos vermelhos das miras continuaram fixos sobre seus peitos. Os sul-coreanos não queriam correr riscos: os três homens usavam uniformes militares norte-coreanos, escolhidos como disfarce para a fuga. Desesperados, eles gritaram para que os demais passageiros saíssem do compartimento apertado da embarcação e provassem que eram civis. As primeiras a aparecer foram as duas crianças — uma menina de 5 anos e um menino de 3 —, ambas pálidas e debilitadas pelo enjoo do mar. Só então os lasers deixaram de apontar para os homens. Os norte-coreanos eram liderados por Kim Il-hyeok e seu irmão mais novo, Yi-hyeok. Unidos por laços de sangue e casamento, os dois, então na casa dos 30 anos, viajavam com a mãe e suas respectivas famílias: a companheira grávida de Il-hyeok; a esposa de Yi-hyeok; os dois filhos do casal; a sogra de Yi-hyeok; e seu cunhado. Kim Il-hyeok, um desertor norte-coreano, em um parquinho em Seul, Coreia do Sul, em 24 de junho de 2026 — Foto: Woohae Cho / The New York Times A família, que desertou em 2023, está entre as poucas que conseguiram escapar da Coreia do Norte depois que o líder Kim Jong-Un impôs um rígido bloqueio durante a pandemia de coronavírus. Eles chegaram à Coreia do Sul trazendo relatos raros sobre um país que permaneceu praticamente isolado do restante do mundo. Alguns detalhes da fuga nunca haviam sido divulgados. — Naquela noite atravessamos um mar de escuridão para um mar de liberdade — lembra Yu-mi, esposa de Yi-hyeok. O desejo de um pai Os irmãos cresceram em Pyoksong, no sudoeste da Coreia do Norte. Durante a grande fome do fim dos anos 1990, o pai deles, agente de segurança ferroviária, perdeu a confiança no regime após testemunhar a morte de crianças por desnutrição. Antes de morrer, em 2014, levou os filhos até uma colina e apontou para as luzes do outro lado da fronteira, na Coreia do Sul. — É para lá que devemos ir — disse. — Para viver e andar de cabeça erguida. Yu-mi, que vivia na cidade costeira de Kangryong, descreve a Coreia do Norte como "uma prisão sem grades". Proibidos de viajar e isolados da internet, os norte-coreanos eram obrigados a assistir propagandas e sessões de doutrinação. Por outro lado, filmes, séries e músicas sul-coreanas circulavam clandestinamente em pen drives contrabandeados da China. Il-hyeok chegou a ser preso por "delinquência capitalista" por consumir cultura sul-coreana. Após a morte do pai, porém, o plano de fugir foi deixado de lado. Yi-hyeok casou-se com Yu-mi, teve dois filhos e passou a trabalhar em uma empresa pesqueira administrada pelos militares, chegando a ganhar, em dias de boa pesca, mais que o salário anual de um trabalhador comum. Il-hyeok iniciou um relacionamento com uma professora de jardim de infância. — Sempre que eu falava em fugir, meu irmão mandava eu calar a boca — lembra Il-hyeok. Kim Il-hyeok, um desertor norte-coreano, mostra uma foto de seu casamento em Seul à sua atual esposa — que estava grávida de seis meses quando fugiram — em seu bairro na capital sul-coreana, em 24 de junho de 2026 — Foto: Woohae Cho / The New York Times Então veio a pandemia. O confinamento Durante a pandemia, a Coreia do Norte impôs um dos lockdowns mais rígidos do mundo. O acesso ao mar foi bloqueado com cercas de arame farpado e guardas armados, a atividade pesqueira praticamente parou e as dívidas da família cresceram. Ao mesmo tempo, segundo Yu-mi, a elite continuava tendo acesso a alimentos. As execuções públicas também se tornaram mais frequentes. Milhares de pessoas eram obrigadas a assistir à morte de acusados de crimes violentos ou de distribuir conteúdos considerados "antissocialistas", como séries sul-coreanas. Ao fim das mortes, a multidão se dispersava em silêncio. — O objetivo era espalhar o medo e apagar qualquer fantasia sobre o mundo lá fora — afirma Il-hyeok. A fuga Os irmãos já não discutiam mais se deveriam fugir, mas apenas como fariam isso. No início de 2023, a Coreia do Norte começou a flexibilizar as restrições impostas durante a pandemia. Os barcos de Yi-hyeok estavam entre os primeiros autorizados a voltar ao mar. Mas eles sabiam que a oportunidade estava se fechando. As autoridades se preparavam para instalar câmeras de vigilância ao longo da costa para impedir novas deserções. Os irmãos passaram a conversar por telefone usando códigos. "Bom tempo" significava que uma tempestade se aproximava, obrigando as embarcações de patrulha a retornar ao porto. "Conseguimos uma boa pesca. Venha para cá" significava que Il-hyeok deveria levar a mãe e a namorada para Kangryong. Na noite de 6 de maio de 2023, o tempo e a "pesca" estavam perfeitos. A mãe de Yu-mi foi a última a decidir participar da fuga. — Posso morrer tentando escapar — diz ela. — Mas, se minha família chegasse ao Sul e eu ficasse para trás, seria como estar morta de qualquer forma. Eu passaria a ser apenas parente de traidores. Kim Yu-mi (à esquerda) e sua mãe, ambas desertoras norte-coreanas, em Seul, Coreia do Sul, em 21 de junho de 2026 — Foto: Woohae Cho / The New York Times O cunhado de Yi-hyeok saiu de barco antes dos demais e aguardou a família em alto-mar. O restante da família atravessou uma colina costeira repleta de minas terrestres até chegar a uma praia isolada. Para carregar com mais facilidade as duas crianças pequenas, os irmãos colocaram os filhos de Yi-hyeok dentro de sacos de estopa, fecharam-nos e os carregaram nos ombros. Antes que os sacos fossem fechados, Yu-mi viu os filhos olhando para ela. — Pensei que aquela pudesse ser a última vez que os veria — relata. — Chorei, e meu marido também ficou com os olhos cheios de lágrimas. Do mar, o cunhado avistou o sinal combinado: uma lanterna piscando três vezes na praia. Então conduziu o barco até a areia para buscar o restante da família. Por volta das 22h, o barco deixou a costa em baixa velocidade para seguir silenciosamente rumo à ilha sul-coreana de Yeonpyeong, a cerca de 15 quilômetros dali. No compartimento inferior da embarcação, Yu-mi percebeu, de repente, que o motor acelerava ao máximo. A fumaça preta do escapamento invadiu o interior do barco, provocando enjoo nas mulheres e nas crianças. O filho mais novo começou a revirar os olhos. Ela o levou para o convés em busca de ar fresco e encontrou os homens em pânico. — Foi quando vi o holofote de um barco de patrulha norte-coreano varrendo as ondas atrás de nós — conta. — Meu coração afundou. Caso fossem alcançados, os irmãos planejavam lançar mulheres e crianças ao mar com coletes salva-vidas, confiando que a corrente as levaria até a Coreia do Sul. Eles seguiriam em outra direção para distrair os perseguidores e resistiriam com facas e bombas caseiras. Para deixar o barco mais leve, Il-hyeok lançou ao mar ferramentas, uma rede de pesca e outros equipamentos. Aos poucos, porém, o facho de luz do barco perseguidor desapareceu. Mais tarde, os irmãos levantaram uma hipótese: a rede de pesca que haviam jogado na água pode ter se enroscado na hélice da embarcação norte-coreana. A aposta de duas horas terminou pouco depois da meia-noite. O barco foi interceptado por uma embarcação da Marinha sul-coreana e os nove integrantes da família foram levados a bordo. Um oficial os recebeu com uma única frase: — Bem-vindos ao paraíso. Um novo começo A adaptação à Coreia do Sul foi marcada por sucessivos choques culturais. A família descobriu uma sociedade com liberdade de informação, eleições competitivas e hábitos muito diferentes dos vividos no Norte. Kim Yu-mi, uma desertora norte-coreana, em Seul, Coreia do Sul, em 21 de junho de 2026 — Foto: Woohae Cho / The New York Times Em junho, Il-hyeok votou pela primeira vez em uma eleição com vários candidatos. Na Coreia do Norte, os eleitores recebiam uma cédula com apenas um nome e depositavam o voto na urna do "sim" diante dos retratos da família Kim. A nova vida, porém, também trouxe dificuldades. Após 19 meses na Coreia do Sul, Yi-hyeok morreu em um acidente de mergulho. A mãe dos irmãos e a esposa de Il-hyeok também foram diagnosticadas com câncer. Apesar das perdas e das dificuldades financeiras, Il-hyeok afirma que jamais se arrependeu da decisão de fugir. — Cem por cento. Antes de morrer, Yi-hyeok disse que havia deixado a Coreia do Norte para poupar os filhos da doutrinação nas escolas. Hoje, as crianças frequentam escolas sul-coreanas e, segundo Yu-mi, adaptaram-se rapidamente à nova vida. — Meu marido me deu, a mim e aos nossos filhos, a liberdade que prometeu antes de morrer. Ao fugir, a família também levou as cinzas do pai, realizando o último desejo dele de alcançar a Coreia do Sul.
'Para viver e andar de cabeça erguida': A família que fugiu da Coreia do Norte de barco em busca de liberdade
Após anos de fome, doutrinação e execuções públicas, nove integrantes da mesma família, incluindo duas crianças pequenas e uma mulher grávida de seis meses, desafiaram uma das fronteiras mais vigiadas do mundo durante uma fuga pelo mar rumo à Coreia do Sul









