Discurso da diversidade serve para perseguir quem discorda de movimentos e partidos poderosos na política acadêmica 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Ilha do Fundão — Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo As universidades públicas brasileiras tornaram-se palco da radicalização daquilo que a bibliografia especializada define como “guerra cultural”, disputas envolvendo visões de mundo baseadas em diferentes modalidades de definir a essência da realidade. Quando esses embates se ancoram nas representações de gênero e raça, surge o aspecto mais problemático dos identitarismos: a tendência a determinar que certas condições de existência são naturalmente corruptas ou virtuosas. Foi a partir da identificação desse problema que um grupo de acadêmicos se reuniu na USP, em abril, para discutir medidas de promoção da pluralidade ideológica nas universidades. Desse encontro surgiu um manifesto que, entre apoios e críticas, despertou um debate teórico sobre o pluralismo acadêmico. Talvez tenha chegado o momento de darmos contornos empíricos a essa conversa. Começo com os casos da professora Jan Alyne Prado, na época minha colega na Universidade Federal da Bahia, e da doutoranda Celina Lazzari, então vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina. A vida profissional de Jan Alyne foi transformada num inferno depois que ela usou o pronome masculino para se referir a alguém que se autoidentificava como mulher, embora tivesse aparência masculina. O ocorrido foi registrado em áudio e amplamente divulgado na imprensa, revelando uma cena de desrespeito ao servidor público, em que a professora se viu obrigada a recorrer à segurança do campus. Depois de meses de perseguição, ela obteve por via judicial a transferência a outra universidade, enquanto seus perseguidores não foram alvo de qualquer sanção administrativa. Celina Lazzari precisou recorrer à Justiça para conseguir defender sua tese de doutorado, que tinha como tema os dilemas que os assistentes sociais enfrentam no acolhimento de crianças nas questões de gênero e sexualidade. Por causa das manifestações públicas de Celina na crítica ao paradigma da identidade de gênero, a universidade suspendeu a defesa da tese, ainda que a pesquisa tivesse sido aprovada pelo Conselho de Ética. Seria necessário um esforço robusto de pesquisa para que as centenas de casos semelhantes fossem catalogadas e analisadas, como a expulsão da mestranda Beatriz Bueno do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense como reflexo de suas posições públicas em temas como identidade de gênero e mestiçagem, assunto que já recebeu ampla cobertura midiática. Por ora, apresento o que aconteceu aos professores Andrés Zarankin, Maria Jacqueline Rodet e Leonardo Hipólito Genaro Fígoli, todos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e implicados na Ação de Responsabilização Civil por Dano Moral que moveram contra a instituição. O conflito foi deflagrado depois da publicação, no repositório digital da UFMG, da tese de doutorado intitulada “A palavra dos clandestinos”, de autoria de Daniel de Oliveira Baptista, orientado por Érica Renata de Souza. A petição dos três professores argumenta que, sob a justificativa de uma “escrevivência autoetnográfica”, Daniel usou codinomes pejorativos e historicamente vinculados a bandeirantes violentos para expor e provocar escárnio contra um grupo de docentes do departamento, de modo a tachá-los implicitamente de racistas. Segundo a ação, Daniel divulgou informações institucionais sensíveis, como extratos de atas e registros de reuniões restritas, e, embora alegasse proteger a identidade dos envolvidos, todos eram facilmente identificáveis. O trabalho teria, então, manejado dados pessoais sem que o projeto tivesse sido apreciado pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Em todos esses episódios, observa-se como o discurso da diversidade é usado para perseguir aqueles que apresentam alguma discordância em relação a movimentos sociais e partidos políticos muito poderosos na política acadêmica. O resultado é a formação de um ambiente de autoritarismo incompatível com a criatividade acadêmica. Não espanta que a imagem das nossas universidades públicas esteja cada vez mais deteriorada. As campanhas de difamação promovidas pela extrema direita não são a única causa do desgaste. *Rodrigo Perez, doutor em História Social pela UFRJ, fez pós-doutorado na Universidade Complutense de Madri e é professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia
Guerra cultural prejudica universidades públicas
Discurso da diversidade serve para perseguir quem discorda de movimentos e partidos poderosos na política acadêmica
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