Um novo estudo, que analisou milhares de romances autopublicados na Amazon, constatou que um número substancial dessas obras continha texto gerado por chatbots 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Livros e IA — Foto: Carolina Moscoso/The New York Times NewJess Michaels, autora de romances históricos, publicou 117 romances desde que passou a escrever em tempo integral, em 1999. A maior parte deles foi lançada de forma independente. Ela construiu uma base fiel de leitores e teve 10 best-sellers do USA Today. Mas, ultimamente, as vendas têm sido tão ruins que ela talvez pare de publicar. “O excesso de obras feitas por IA torna a descoberta de novos livros muito difícil”, disse Michaels. “Estamos falando de piratear diretamente o meu trabalho, colocá-lo em um mecanismo para produzir um ‘livro no estilo de Jess Michaels’ e depois inundar o mercado com isso. Não consigo explicar o quanto isso destrói a alma”, acrescentou. “Isso praticamente apaga os autores de verdade.” Não demorou para que a escrita por chatbots chegasse aos livros, depois que modelos de inteligência artificial capazes de produzir textos sofisticados surgiram, há alguns anos. Mas muita gente do mercado editorial alimentava a esperança de que a ficção seria a última fortaleza a cair, que os leitores queriam histórias repletas de emoções humanas e conseguiriam perceber quando elas não fossem escritas por pessoas. Alguns anos após o início da era da IA, há evidências preocupantes de que uma parcela significativa e crescente dos romances vendidos hoje é escrita com ou por chatbots, e de que os leitores estão comprando esses livros. Um novo estudo conduzido por cientistas da computação, que usaram um software de detecção de IA para analisar milhares de romances autopublicados na Amazon, constatou que um número substancial dessas obras continha texto gerado por chatbots. “Na ficção de gênero, as pessoas estão usando IA para escrever esses livros, e os leitores não conseguem perceber”, afirmou Tuhin Chakrabarty, professor de ciência da computação da Universidade Estadual de Nova York em Stony Brook, que liderou a pesquisa. Depois de excluir livros que não estavam vendendo, a equipe analisou uma amostra aleatória de 14.419 romances autopublicados lançados na Amazon entre janeiro de 2023 e março de 2026, utilizando o software de detecção da Pangram, considerado por muitos cientistas da computação um dos mais confiáveis do tipo. O estudo concluiu que, em 2.168 desses livros, mais de 50% do texto havia sido gerado por IA, e que 970 romances tinham mais de 90% do conteúdo produzido por IA. Os pesquisadores estimam que as vendas de todos os romances da amostra que continham pelo menos 25% de texto gerado por IA somaram dezenas de milhões de dólares nos últimos três anos. As conclusões, que ainda não passaram por revisão por pares, parecem confirmar o que muitos no mercado editorial temiam: a escrita por IA agora é uma presença inevitável no varejo de livros. A Amazon não proíbe a venda de livros gerados por IA em sua plataforma. A empresa pede que autores independentes informem à Amazon se utilizaram IA para criar seus livros e limita a dez por semana o número de obras que cada autor pode enviar para publicação. Mas os escritores não são obrigados a informar os leitores sobre o uso de IA. E o limite de dez livros por semana ainda permite a comercialização de obras produzidas com auxílio de IA em uma escala e velocidade praticamente impossíveis até mesmo para um autor humano extremamente prolífico. Um porta-voz da Amazon, Josh Pflug, afirmou que a empresa possui diretrizes claras sobre o conteúdo vendido em sua plataforma. “Adotamos medidas preventivas e reativas para impedir, detectar e remover conteúdos que violem essas diretrizes, sejam eles gerados por IA ou não”, disse. Outros pesquisadores também encontraram um número alarmante de livros contendo escrita gerada por IA na Amazon. Um estudo do "National Bureau of Economic Research", divulgado no início deste ano, identificou uma correlação entre o aumento no número de livros com texto gerado por IA e o crescimento acelerado da quantidade de e-books disponíveis na plataforma. A conclusão é contestada pela Amazon. “As alegações sobre o crescimento do número de títulos em nossa loja não são compatíveis com o que estamos observando”, afirmou Pflug, embora tenha se recusado a fornecer números internos. Os pesquisadores utilizaram a Pangram para analisar textos de cerca de 60 mil livros vendidos na Amazon. Dessa amostra, aproximadamente 53% dos livros publicados em 2025 continham texto gerado por IA, contra 23% em 2023. Não-ficção O estudo constatou que o uso de IA era maior em categorias de não ficção, como viagens e esportes ao ar livre, e comparativamente menor na ficção. Também mostrou que a avaliação média dos novos livros na Amazon caiu à medida que o uso da IA se espalhou. “Se todos esses novos livros são muito piores do que os que já existiam, então os consumidores têm pouco a ganhar”, afirmou Imke Reimers, professora associada de estratégia e economia empresarial da Universidade Cornell e coautora do estudo. Os dois estudos podem fortalecer os processos por violação de direitos autorais movidos por autores e editoras contra empresas de IA. Em uma série de ações judiciais contra OpenAI, Anthropic, Google, xAI e Meta, editoras e escritores argumentam que a explosão de obras geradas por IA inundou o mercado, reduzindo suas vendas. Nos últimos meses, uma sequência de escândalos envolvendo IA abalou o mundo literário. E a explosão da escrita gerada por IA colocou distribuidores e varejistas em uma posição delicada. A postura da Amazon em relação à venda desses títulos tem sido relativamente permissiva, mas outros varejistas tentam adotar uma abordagem mais criteriosa. Em maio, James Daunt, CEO da Barnes & Noble, provocou indignação no mercado editorial ao dizer, durante uma entrevista ao programa “Today”, que “não vê problema” em vender livros gerados por IA, desde que estejam identificados como tal. Suas declarações foram amplamente condenadas nas redes sociais por leitores e escritores, que afirmaram que ele estava abrindo espaço para a venda de conteúdo de baixa qualidade em uma das maiores redes de livrarias. Posteriormente, Daunt esclareceu suas declarações em um comunicado enviado ao The New York Times, afirmando que a Barnes & Noble adota “medidas ativas para excluir todos os livros gerados por IA de nosso catálogo online e jamais encomenda conscientemente esses títulos para abastecer nossas lojas”. Ele acrescentou que, embora “a loja venda livros gerados por IA caso haja uma demanda clara, acreditamos ser muito improvável que exista demanda dos clientes por esse tipo de livro”. Ainda assim, há pelo menos alguns romances produzidos com IA à venda no site da Barnes & Noble, entre eles "Fighting Love's Flame", um romance erótico sobre um bombeiro paraquedista do Alasca e uma documentarista que se apaixona por ele, e "Tumbleweeds & Tequila", sobre uma mulher que fica presa no deserto e é resgatada por um atraente ex-integrante da Marinha americana. Ambos foram publicados pela Future Fiction Press, uma nova editora que produz romances com IA. As descrições dos livros no site da Barnes & Noble informam que eles foram “produzidos com ferramentas de IA dirigidas por autores”. Outros livreiros estão adotando uma postura muito mais rígida contra obras geradas por IA. “Você vai permitir que golpistas enganem seus clientes? A resposta precisa ser não”, afirmou Andy Hunter, fundador da Bookshop, plataforma de venda de livros online que se apresenta como uma alternativa independente à Amazon. Hunter disse que a Bookshop solicita à Ingram e à Draft2Digital, empresas que distribuem livros para a plataforma, que filtrem obras geradas por IA. Mas teme que não exista uma maneira totalmente confiável de bloqueá-las. Com mais de 800 mil livros autopublicados disponíveis para compra no site, é inevitável que alguns passem despercebidos. Outros varejistas online afirmam ter sido inundados por conteúdo de baixa qualidade gerado por IA e dizem estar lutando para acompanhar essa enxurrada. “Estamos na linha de frente de uma avalanche que só vai crescer”, disse Michael Tamblyn, CEO da Rakuten Kobo, fabricante de leitores digitais e varejista de e-books. No ano passado, a plataforma de autopublicação da Kobo rejeitou 45% dos livros enviados. Desses, 85% foram recusados porque a empresa concluiu que eram gerados por IA. “Às vezes dá para dizer: ‘Isso provavelmente não é uma editora; são três grandes modelos de linguagem usando um sobretudo’”, brincou Tamblyn. Em outros casos, porém, a decisão é mais difícil. A Kobo agora avalia se softwares de detecção de IA, combinados com revisão humana, conseguem analisar adequadamente os títulos. Mas identificar golpistas está se tornando cada vez mais complicado, já que eles utilizam chatbots capazes de produzir textos mais sofisticados e também agentes de IA para criar múltiplas contas em plataformas de publicação. Kris Austin, cofundador e CEO da Draft2Digital, que distribui livros independentes para varejistas, bibliotecas e serviços de assinatura, afirmou que a empresa registrou uma explosão no envio de grandes volumes de livros de baixa qualidade nos últimos 18 meses, aumento impulsionado, em parte, pela IA. Ele teme o impacto desse fenômeno sobre autores independentes, muitos dos quais já enfrentam dificuldades para encontrar leitores em um mercado saturado. “Essa ascensão do conteúdo de baixa qualidade ameaça tudo o que a comunidade independente construiu”, afirmou.