Além de fatores como demanda aquecida, redução da oferta, juros elevados e mudança de comportamento das famílias, especialistas atribuem esse cenário à pressão da locação por curta temporada 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imóveis na Rua Pinheiro, no Flamengo: apartamento de três quartos tem aluguel de R$ 15.305. Preço da locação na cidade do Rio subiu 14,6% nos últimos 12 meses, acima da média nacional — Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 28/07/2026 - 21:33 Preços de Aluguel Disparam no Rio com Influência do Airbnb e Alta Demanda Os preços de aluguel no Rio de Janeiro estão disparando, remetendo ao período das Olimpíadas. Especialistas apontam para demanda aquecida, redução de oferta, juros altos e locação por curta temporada como fatores principais. Enquanto o Airbnb movimentou R$ 12 bilhões, bairros como Centro e Del Castilho lideram aumentos. Propostas de regulação e taxação de turistas são debatidas para conter a alta dos alugueis. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O aluguel de um apartamento de três quartos na Rua do Pinheiro, no Flamengo, está em R$ 15.305. No Méier, um imóvel de dois quartos e 65m² na Rua José Ortiz é oferecido por R$ 6.750. Os anúncios ilustram o novo salto nos preços de locação no Rio, como mostrou reportagem do GLOBO no fim de semana. O cenário remete ao período que antecedeu a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, quando os valores elevados motivaram indignação popular e deram origem ao chamado “Rio Surreal”. Na época, em tom de protesto, cariocas chegaram a criar uma moeda fictícia — o “$urreal” — estampada com o rosto do pintor Salvador Dalí. Mais de dez anos depois, especialistas avaliam que a era dos custos exorbitantes retorna, agora impulsionada pela alta do aluguel residencial. Levantamento feito pelo GLOBO nas principais plataformas de locação aponta imóveis que ultrapassam R$ 20 mil em bairros turísticos e se aproximam de R$ 10 mil em regiões fora do eixo de alto padrão. Uma das ofertas é a de um apartamento de 120m² e dois quartos na Rua Siqueira Campos, em Copacabana, por R$ 23 mil. Além de fatores como demanda aquecida, redução da oferta, juros elevados e mudança de comportamento das famílias, especialistas atribuem esse cenário à pressão da locação por curta temporada sobre o aluguel de longo prazo, aquele para morar. Ranking dos dez bairros onde os aluguéis mais se valorizaram nos últimos — Foto: Editoria de Arte De acordo com um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) publicado este mês, a plataforma Airbnb movimentou mais de R$ 12 bilhões na cidade do Rio em 2025, um aumento de 21% na comparação com o ano anterior. Só em maio, durante a mais recente edição do Todo Mundo no Rio, em Copacabana, anfitriões da plataforma receberam visitantes de cerca de 1.600 cidades e 64 países. Com cerca de 60 mil imóveis anunciados em diferentes sites, o Rio figura entre os maiores mercados de aluguel por temporada do mundo, segundo dados da AirDNA, plataforma de dados do setor. Taxação de turistas Professora do Departamento de Política Social da Uerj, Geisa Bordenave avalia que a locação por curta temporada exerce papel central na disparada dos aluguéis tradicionais. Ela explica que, enquanto cresce a oferta para aluguéis temporários, diminui a oferta de locação de longo prazo, e esse cenário, com menos opções para o morador, aumenta os valores. — O investidor vai buscar aquilo que é mais lucrativo. Se é mais rentável o aluguel por temporada, ele vai fazer essa opção. Isso significa que o imóvel vai deixar de ser destinado à moradia para dar lugar a essa lógica do aluguel por temporada — observa Geisa. — Isso acompanha um processo que chamamos de “turistificação” da cidade, quando a função de determinada região se torna receber turistas. Existem caminhos para contornar essa situação. Um deles seria a regulação do setor, proibindo, por exemplo, que novos empreendimentos imobiliários sejam 100% destinados a aluguel de curto prazo. Quais os três bairros do Rio que tiveram mais valorização no aluguel? Veja Carlos Frederico Rocha, professor do Instituto de Economia da UFRJ, ressalta que não apenas as plataformas, mas o turismo de maneira geral tem contribuído para a carestia. Ele sugere a criação de uma taxa de permanência para os turistas. O valor seria cobrado por dia, pelo proprietário da hospedagem, e repassado ao município. — Eu calcularia essa taxa de forma que os valores da locação de curto prazo e o residencial tradicional se igualassem — explica. — A política de grandes eventos que a Prefeitura do Rio implantou nos últimos anos é perigosa. Uma cidade que funciona dessa maneira acaba por gerar serviços mais caros, o que provoca a expulsão da população residente. A política tem sido transformar a cidade em um parque de diversões, então, os moradores acabam tendo que pagar preço de parque de diversões. O turismo pode trazer renda, mas tem que ser muito controlado. Segundo o site Quinto Andar, nos últimos 12 meses, o aluguel subiu 14,6% (acima da média nacional de 9%) na cidade do Rio, atingindo R$ 52,50, em média. No período, o Centro foi o bairro com a maior valorização no custo da moradia — de 48,8% —, seguido por Del Castilho (48,5%) e Jardim Oceânico (27,1%). Só nos últimos três meses, o crescimento dos preços na região central foi de 11,6%. Já o bairro mais caro continua sendo o Leblon, com o metro quadrado a R$ 116,3, seguido de Ipanema (R$ 106,7) e Jardim Oceânico (R$ 83,2). Já o Índice FipZap mostra que os imóveis de um quarto mantiveram o metro quadrado mais caro nos últimos 12 meses. O valor médio é de R$ 71,60; contra R$ 50,43 para os de dois dormitórios; R$ 46,27 para os de três; e R$ 47,79 para os de quatro ou mais. — A pressão sobre os aluguéis não fica restrita aos bairros mais valorizados. Quando parte dos moradores já não consegue absorver os preços de determinadas regiões, a demanda se desloca para bairros próximos ou com melhor relação entre preço e localização. Como essas pessoas, muitas vezes, chegam com uma capacidade de pagamento superior à média do novo bairro, ocorre um efeito de transbordamento, elevando também os valores em áreas intermediárias — explica Coriolano Lacerda, gerente de Inteligência de Mercado do Grupo OLX. ‘Temporada não é o vilão’ Embora reconheça que em algumas regiões turísticas houve migração de parte dos imóveis para a locação por temporada, Leonardo Schneider, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis e dos Condomínios Residenciais e Comerciais (Secovi Rio), refuta a tese de que a locação de curto prazo exerça grande peso na balança dos aluguéis residenciais. — A locação de curta temporada não é o vilão que estão dizendo que é. Esse movimento contribuiu para pressionar os preços em determinados bairros, como Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca, mas está longe de ser o principal responsável pela alta observada em toda a cidade. No Méier e na Tijuca, por exemplo, o aluguel também subiu, e esses não são locais turísticos — defende Leonardo. — O que está acontecendo é o seguinte: a locação está sendo considerada uma solução de moradia interessante, o mercado voltou a ficar aquecido e não tem oferta. Então, o preço sobe. Atualmente, a cidade não dispõe de uma lei específica sobre o aluguel por temporada. O tema está em discussão na Câmara Municipal, onde tramita projeto de lei 2.265/2026, protocolado em maio. Ele cria regras claras sobre privacidade dos hóspedes, tributação do setor e segurança em condomínios. — Nosso objetivo não é restringir uma atividade econômica legítima, mas garantir que ela seja exercida com transparência, segurança e equilíbrio, conciliando o desenvolvimento do turismo com os interesses da cidade e dos moradores — afirma o vereador Salvino Oliveira (PSD), coautor do texto. A proposta vai ao encontro do entendimento em âmbito nacional. Em maio, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) estabeleceu que a decisão de liberar a locação por temporada em prédios residenciais deve ter aprovação de dois terços dos moradores em assembleia. O órgão também suspendeu todos processos sobre a questão no país até que uma regra definitiva seja estabelecida. O Airbnb afirmou que “não há evidências de que o aluguel por temporada seja responsável pelo aumento dos preços do aluguel tradicional”. A Booking.com disse que está “avaliando as implicações de possíveis novas leis e se adaptando”. Já a prefeitura destacou que “vem implementando medidas para estimular a produção de moradias voltadas à habitação permanente”.
O Rio surreal voltou? Preços de aluguel disparam num cenário que remete ao período da Olimpíada; entenda
Além de fatores como demanda aquecida, redução da oferta, juros elevados e mudança de comportamento das famílias, especialistas atribuem esse cenário à pressão da locação por curta temporada







