Em 2025, uma plataforma de locação por curto prazo movimentou mais de R$ 12 bilhões, alta de 21% na comparação com 2024 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Centro do Rio: região atrai investimentos no novo modelo de aluguel por temporada, como no caso do edifício A Noite, na Praça Mauá, que teve 434 apartamentos adquiridos pela Brookfield — Foto: Lucas Tavares / Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 27/07/2026 - 17:10 Impacto do Airbnb na Zona Sul do Rio: Gentrificação e Aluguéis em Alta A alta nos aluguéis residenciais no Rio de Janeiro, especialmente na Zona Sul, é atribuída à locação por temporada, com plataformas como Airbnb movimentando bilhões. Especialistas divergem sobre o impacto real, mas a "turistificação" da cidade é uma preocupação, levando à gentrificação. A regulação do setor é discutida, com projetos de lei em tramitação visando equilibrar turismo e moradia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A percepção é quase unânime: os preços dos aluguéis residenciais na cidade do Rio estão exorbitantes, sobretudo na Zona Sul, onde o valor médio do metro quadrado atingiu R$ 56,28 em junho, quantia 18,2% maior que no mesmo mês de 2024 (R$ 47,62), como mostrou reportagem do GLOBO no fim de semana. Todo dia, pipocam nas redes sociais discussões sobre o tema. Muitas delas atribuem a alta à expansão das plataformas de hospedagem por curta temporada, como Airbnb e Booking.com. Mas esse fator tem mesmo influenciado os valores da locação tradicional? De que forma? Especialistas se dividem sobre o assunto. De acordo com um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) publicado este mês, a atividade do Airbnb movimentou quase R$ 21 bilhões no estado do Rio de Janeiro em 2025, alta de mais de 16% em relação ao ano anterior. Na cidade, a movimentação econômica atingiu mais de R$ 12 bilhões, alta de 21% na comparação com 2024. Só em maio, durante a mais recente edição do Todo Mundo no Rio, em Copacabana, anfitriões da plataforma receberam visitantes de cerca 1.600 cidades e 64 países. 'Turistificação' da cidade Professora do Departamento de Política Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Geisa Bordenave avalia que a locação por temporada exerce papel central na disparada dos aluguéis tradicionais. Ela explica que, enquanto cresce a oferta para aluguéis de temporada, diminui a oferta de locação de longo prazo, aquela para morar, e o cenário com menos opções encarece os preços. — O investidor vai buscar aquilo que é mais lucrativo. Se é mais rentável o aluguel por temporada, ele vai fazer essa opção. Isso significa que o imóvel vai deixar de ser destinado à moradia para dar lugar a essa lógica do aluguel por temporada — observa Geisa. — Isso acompanha um processo que chamamos de turistificação da cidade, que impacta a Zona Sul e, mais recentemente, a região central, onde empreendimentos têm sido construídos já para locação de curto prazo. Assim, a principal função se torna receber turistas. Os bairros mais caros para se morar no Rio — Foto: Editoria de Arte Uma das consequências da 'turistificação', destaca a acadêmica, é o encarecimento do custo de vida da região, obrigando moradores a buscarem outras áreas da cidade para residir, processo conhecido como gentrificação. — O turismo em si não é um problema. Ele pode ser excelente para a cidade. Mas, quando o processo força a expulsão de moradores de determinadas regiões, cria-se um problema. Já temos sinais de que isso vai se tornar uma questão. Existem caminhos para contornar essa situação. Um deles seria a regulação do setor, como outras cidades do mundo já vêm fazendo. Então, um empreendimento imobiliário que vai ser construído não pode ser 100% voltado para plataformas de aluguel por temporada, por exemplo. E não é o que vem acontecendo no Rio de Janeiro — analisa a professora. 'Aluguel por temporada não é vilão' Vice-presidente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis e dos Condomínios Residenciais e Comerciais (Secovi Rio), Leonardo Schneider, embora reconheça que em algumas regiões turísticas houve migração de parte dos imóveis para a locação por temporada que, refuta a tese de que a locação de curto prazo exerça grande peso na balança dos aluguéis residenciais. — A locação de curta temporada não é o vilão que estão dizendo que é. Esse movimento contribuiu para pressionar os preços em determinados bairros, como Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca, mas está longe de ser o principal responsável pela alta observada em toda a cidade. No Méier e na Tijuca, por exemplo, o aluguel também subiu, e esses não são locais turísticos — defende Leonardo. — O que está acontecendo é o seguinte: a locação está sendo considerada uma solução de moradia interessante, o mercado voltou a ficar aquecido e não tem oferta. Então, o preço sobe. Entre os motivos para a alta do aluguel, o sindicato destaca ainda a alta da taxa básica de juros (Selic), que está em 14%, o que tem desestimulado a compra de imóveis. — O aumento dos aluguéis no Rio de Janeiro é resultado de um mercado em que a demanda cresceu de forma consistente enquanto comprar um imóvel se tornou mais difícil. Juros elevados, preços elevados dos imóveis, restrição ao crédito, mudanças demográficas, transformação tecnológica e uma nova visão sobre moradia fizeram da locação uma escolha cada vez mais natural para milhares de famílias. Esse conjunto de fatores explica por que o mercado de aluguel vive um dos seus ciclos mais fortes dos últimos anos — conclui o Leonardo. Projeto de lei O tema é polêmico e, no início do ano passado, chegou à Câmara Municipal. Desde então, foi discutido em comissões e motivou a criação de três projetos de leis para a regulamentação da hospedagem temporária em imóveis residenciais. O último é o de número 2265/2026, formalizado em maio, mas que está travado na Casa. Ele cria regras claras sobre privacidade dos hóspedes, tributação do setor e segurança em condomínios. A ideia também é que, com a atividade regulamentada, haja maior controle sobre os impactos considerados negativos das plataformas. Assinam o texto os vereadores Salvino Oliveira (PSD), Dr. Gilberto (Solidariedade) e Marcio Ribeiro (PSD). — Hoje, há um debate legítimo sobre os impactos da locação de curta temporada no mercado imobiliário e no valor dos aluguéis, mas o município não dispõe de dados suficientes para avaliar essa relação. Ao estruturar uma base de informações confiável, o projeto fornece ao Poder Executivo os instrumentos necessários para mapear externalidades e subsidiar futuras políticas públicas baseadas em evidências — explica Salvino Oliveira. — Nosso objetivo não é restringir uma atividade econômica legítima, mas garantir que ela seja exercida com transparência, segurança e equilíbrio, conciliando o desenvolvimento do turismo com os interesses da cidade e dos moradores. Atualmente, a cidade não dispõe de uma lei específica sobre o aluguel por temporada. O que o projeto propõe é que esse tipo de locação deve seguir as regras de cada condomínio. A proposta vai ao encontro do entendimento em âmbito nacional. Em maio, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) definiu que a decisão sobre liberar ou proibir a locação por temporada em prédios residenciais deve ter aprovação de dois terços dos moradores em assembleia. Preços surreais no Rio Os preços surreais estão por toda parte. Numa pesquisa por apartamentos de um quarto na plataforma QuintoAndar na segunda-feira, o GLOBO encontrou, por exemplo: Um de 55m² por R$ 18.150,00 na Avenida Princesa Isabel, em Copacabana (mobiliado);um de 80m² por R$ 10.620,00 na Rua Corrêa Dutra, no Flamengo; um de 30m² por R$ 8.227,00 na Rua Jangadeiros, em Ipanema;um de 50m² por R$ 6.967,00 na Rua Presidente Carlos de Campos, em Laranjeiras;um de 55m² por R$ 6.384,00 na Rua Riachuelo, na Lapa;um de 28m² por R$ 5.852,00 na Praia de Botafogo, em Botafogo;um de 40m² por R$ 4.886,00 na Avenida Augusto Severo, na Glória;um de 36m² por R$ 4.324,00 na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca;um de 35m² por R$ 3.359,00 na Rua Benjamin Constant, em Santa Teresa. Outra oferta que chama a atenção pelo alto valor é a de um apartamento de dois quartos e 66m² na Rua Coração de Maria, no Méier. O preço? R$ 21.180,00.
R$ 21 mil por dois quartos no Méier: como a hospedagem por temporada tem impactado alta do aluguel residencial no Rio
Em 2025, uma plataforma de locação por curto prazo movimentou mais de R$ 12 bilhões, alta de 21% na comparação com 2024







