Continente europeu enfrentou neste ano ondas de calor recordes; cientistas afirmam que mudanças climáticas intensificam o calor e a seca, criando condições favoráveis para as chamas Um bombeiro trabalha para combater um incêndio florestal que afeta Castela e Leão, na vila de El Tiemblo, Espanha , em 24 de julho de 2026 — Foto: REUTERS/Violeta Santos Moura Bombeiros correram contra o tempo nesta terça-feira para controlar grandes incêndios florestais que provocaram evacuações sem precedentes de dezenas de milhares de pessoas na França e na Espanha, enquanto a Europa Ocidental se prepara para enfrentar uma nova onda de calor. Os incêndios devastaram uma região que já vinha sendo castigada por um verão excepcionalmente quente e seco. As equipes de combate tentavam aproveitar as condições climáticas mais favoráveis antes da chegada de uma nova elevação das temperaturas, prevista para quarta-feira. Na França, o clima era de consternação após os incêndios devastarem a península de Cap Ferret, na costa atlântica, um destino turístico popular, e se espalharem nos últimos dias por áreas ao redor da região de Bordeaux. O presidente Emmanuel Macron afirmou que o país pode estar enfrentando sua mais grave crise de incêndios florestais desde a Segunda Guerra Mundial. As autoridades regionais de Nouvelle-Aquitaine e da Gironda, onde fica Bordeaux, informaram na rede social X que o incêndio havia sido contido nesta terça-feira, apesar de alguns focos de reignição, mas alertaram que a previsão do tempo continua desfavorável. Na Espanha, as autoridades ampliaram nesta terça-feira a redução das medidas de emergência relacionadas aos incêndios, autorizando o retorno de moradores a 13 municípios e outras áreas afetadas na região de Madri e na província de Ávila. "Estamos começando a enxergar uma luz no fim do túnel no combate a esses incêndios", disse o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, a jornalistas. Uma mulher que estava internada em estado crítico após sofrer queimaduras graves em um incêndio florestal próximo a Almería, no sul da Espanha, em 9 de julho, morreu, informaram autoridades de saúde. Com isso, o número de mortos nesse incêndio subiu para 14. A Europa, o continente que mais aquece no mundo, enfrentou neste ano ondas de calor recordes. Cientistas afirmam que as mudanças climáticas provocadas pela atividade humana intensificam o calor e a seca, criando condições para que incêndios florestais se espalhem mais rapidamente, durem mais tempo e sejam mais destrutivos. Sánchez afirmou que ignorar essa realidade torna a população ainda mais vulnerável aos seus efeitos. Tempestades extremas Grandes incêndios florestais, como o da Gironda, são capazes de criar seu próprio microclima. O calor intenso e a fumaça ascendente formam enormes nuvens de tempestade que, em alguns casos, produzem ventos fortes e raios capazes de provocar novos focos de incêndio. O fenômeno, conhecido como “pyrocumulonimbus”, já foi observado em diversos países afetados por grandes incêndios, entre eles Austrália e Canadá. "Estamos lutando contra um monstro", afirmou Eric Brocardi, porta-voz da associação de bombeiros da França, acrescentando que esse tipo de fenômeno tende a se tornar mais frequente. Segundo o Reuters Climate Monitor, a temperatura em Bordeaux deveria atingir 33°C nesta terça-feira, 7,1°C acima da média registrada entre 1961 e 1990. Na região de Madri, a máxima prevista era de 37°C, 5,5°C acima da média histórica. O serviço meteorológico francês, Meteo France, prevê que o calor atinja seu pico na quarta-feira, quando os termômetros em Paris poderão chegar a 38°C, mas afirmou que a duração da onda de calor "será determinada nos próximos dias". Ondas de calor mais frequentes e intensas vêm provocando milhares de mortes em excesso e causando transtornos cada vez maiores ao cotidiano, desde interrupções no transporte ferroviário e rodoviário até dificuldades para a navegação fluvial. Na Bulgária, um navio de passageiros encalhou durante a madrugada no rio Danúbio devido ao baixo nível da água, informaram as autoridades locais. Bombeiros trabalham enquanto as chamas consomem um incêndio florestal em Ares, Gironde, em meio ao agravamento da seca após uma onda de calor e escassez de água em grande parte da França , 25 de julho de 2026 — Foto: REUTERS/Stephane Mahe Moradores relatam 'inferno vermelho' Outros países da União Europeia e a Turquia enviaram aviões de combate a incêndios tanto para a Espanha quanto para a França. Suécia, Portugal, Suíça e Sérvia também mobilizaram equipes terrestres. A intensidade e a duração dos incêndios, no entanto, levantam dúvidas sobre a disponibilidade de recursos para enfrentá-los. A Avincis, maior empresa europeia de serviços aéreos de emergência, alertou que a Europa não está preparada para temporadas de incêndios florestais mais longas e severas, já que suas aeronaves especializadas passaram a ser necessárias praticamente durante todo o ano. A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho afirmou que os serviços de resposta a emergências enfrentam pressão crescente na Espanha e na França à medida que as evacuações continuam. "Esse é um padrão que estamos observando cada vez mais na Europa: ondas de calor, seca e incêndios florestais alimentando uns aos outros, enquanto as comunidades sofrem as consequências", afirmou Maria Alcazar Castilla, diretora regional adjunta da entidade para a Europa, defendendo maiores investimentos em preparação e adaptação às mudanças climáticas. Para quem foi atingido pelos incêndios, a fuga muitas vezes significou apenas conseguir retirar familiares e animais de estimação, deixando todo o restante para trás. O espanhol José Miguel Encinas, de 53 anos, evacuado em La Vall d'Uixó, no leste da Espanha, descreveu cenas de "caos total". "Parecia um filme em que o chão do inferno se abre e você vê aquele inferno vermelho."
França e Espanha avançam no combate a incêndios; nova onda de calor se aproxima da Europa
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