Acabaram as eleições na Nicarágua, anunciou Daniel Ortega. Eleições, mesmo controladas, podem alimentar na oposição a ideia perigosa e generosa de que é possível chegar ao poder pelas urnas.

Não é. Melhor acabar com a fantasia de uma vez por todas. As únicas urnas que se concedem à oposição são as funerárias.

Existe algo de refrescante nas palavras do camarada Ortega. Como lembra a The Economist, elas são artigo raro: quase todos os regimes autoritários fazem questão de fingir que são democráticos. Organizam eleições, convidam o povo a votar —e, no final, divulgam os resultados com solenidade.

Na Coreia do Norte, se a memória não me falha, as últimas "eleições" legislativas tiveram 99,9% de participação. O partido do camarada Kim Jong-un, para grande surpresa da comunidade internacional, saiu vencedor.

Se Daniel Ortega cumprir a promessa, não teremos pornografias do gênero na Nicarágua. Porque é de pornografia que falamos: haverá coisa mais obscena do que o fingimento democrático da força bruta? Um filme recente do diretor ucraniano Sergei Loznitsa, intitulado "Dois Procuradores", oferece essa reflexão em pleno stalinismo.