José Guedes, meu melhor amigo, partiu três semanas antes de fazer 99 anos, no domingo de Páscoa de 2022. Até hoje choro de saudade.
Saudade do telefonema dele, todos os dias, às 18h30. Saudade de ele recitar para mim os versos de "Os Lusíadas". Saudade do nosso joguinho de palavras. Saudade dos seus conselhos. Saudade das suas risadas gostosas. Saudade de quando ele me chamava de "minha filha". Saudade de ouvir Guedes cantar "Como é grande o meu amor por você".
Choro todas as vezes que lembro do meu melhor amigo. Minhas lágrimas não são apenas resultado da saudade insuportável, mas o luto por perder o vínculo emocional mais seguro que tive em toda a minha vida.
Cresci aprendendo que o mundo era um lugar de violência, perigo e ameaça. Até conhecer meu melhor amigo, em março de 2015, eu não sabia que era possível viver uma relação sem medo, sem violência e sem gritos. Não sabia também a diferença que faz encontrar alguém diante de quem não precisava esconder a minha dor.
Com Guedes descobri tardiamente um vínculo seguro, leve e tranquilo. Um vínculo que nunca me deixou em estado de alerta.








